21 de dezembro de 2018

feliz natalidade









Este é um tempo de culminar


todos os anos, ao redor do 21 de Dezembro, o Sol estícia-se; e as trevas distendem-se. É a noite mais longa do ano no nosso hemisfério.


O Sol aparentemente estaca durante três dias - e não deixa de ser irónica a sua paragem aparente, já que começa por ser o seu movimento a primeira ilusão -



e a noite parece durar mais do que nunca.



- mas é precisamente nesse momento e no dia - na noite! - das trevas mais longas do ano,

é precisamente nesse instante que as Trevas atingem o seu limite e por isso a Luz ganha novo impulso, e recomeça gradual, quase imperceptivelmente, dia após dia, a brilhar cada vez mais,


e a iluminar, durante cada vez mais minutos até que se tornem horas, a experiência dos homens, até vir

a atingir o seu auge no dia mais longo do ano, o solstício do Sol no Verão. E é, então, a loucura :-) a estultícia do solstício no verão. Como? Isso, veremos. Melhor, veranearemos.


... mas por enquanto ainda é frio, e restrição.


A sabedoria de tirar muito muito de muito pouco, a hibernação / invernação, a escassez de recursos e de Vida, a vitalidade limitada, a necessidade de administrar sabiamente os recursos limitados.


A aprendizagem através da dificuldade e da limitação: a limitação da matéria e dos recursos naturalmente à disposição.


A irreversibilidade, e o uso, do tempo.


A inata consciência da escassez, e de Cronos (o tempo), a necessidade da auto-fiscalização e do auto-controlo, a responsabilidade perante a própria existência - a ambição de ter o maior sucesso possível no processo de não só sobreviver, mas de aprender com a experiência e transformá-la, gradualmente, em sabedoria, para que se trate de sobreviver cada vez menos e cada vez mais de viver...


aprender com o passado, confiar no já conhecido para guiar o futuro construído a pulso e a escolhas no presente,



o capitão do navio, o mestre hábil e experiente, o sábio ancião, o velho lobo do mar



... meet Capricorn!


esta é a altura do confronto, sem filtros e sem véus, com a realidade, com o peso das circunstâncias concretas, com o que está instituído, com a consequência de todas as causas anteriores. Altura de reconhecer as circunstâncias, fazer um assessment, um balanço, um levantamento, um diagnóstico, um reconhecimento, uma 'vestoria' :-)


e aceitar as limitações.


e aceitar também a tristeza.


(não cabe falar aqui das depressões sazonais recorrentes, tão previsivelmente recorrentes, e tão reconhecíveis - facilmente reconhecíveis (mesmo que se disfarcem de raiva, ou de culpa) - nos consultórios de psicoterapia, se não nas ruas, aos volantes dos automóveis, nas filas para o pagamento nas caixas dos mercados: dos de mercearias, dos de roupa, dos de cultura, dos de tecnologia;

não cabe aqui falar do poder que o Natal tem de evocar as reminiscências infantis do Natal em família, do sentimento de pertença ou orfandade, da grande reunião anual da família, da memória inevitável dos familiares falecidos, evocados ou omnipresentes, dos sonhos de abóbora e dos sonhos desfeitos, dos netos, dos filhos e das filhoses, dos antepassados, da tradição, dos cheiros e dos rituais da infância entretanto perdida nas brumas do tempo, no frenesim da vida adulta ou no egoísmo da memória: da magia dos presentes e do encantamento da infância, da inocência com que o Natal era vivido uma vez e que tornava possível sonhar -

não cabe aqui falar de Caranguejo como o pólo oposto e complementar de Capricórnio, da reminiscência infantil como resposta inevitável à necessidade de "crescer" e ser adulto, de perder a inocência, de aceitar a passagem do tempo, de ter de ser pai e provedor quando a memória de ser filho e provido é ainda tão viva, e tão presente sob a pele - embora aparentemente distante, afastada da superfície da consciência por um dia-a-dia de tarefas, ocupações, preocupações e responsabilidades: a "vida de adulto" que se leva, e na mor das vezes com alguma impunidade e esquecimento da outra, dia após dia, mês após mês, ano após ano, década após década, até à morte - menos quando é Natal).


- o que sim, cabe aqui dizer, sim, é que este é um tempo de culminar

... que todos os anos, ao redor do 21 de Dezembro, o Sol estícia-se; e que as trevas se distendem. Que é essa a noite mais longa do ano no nosso hemisfério. Que o Sol aparentemente estaca durante três dias - e que não deixa de ser irónica a sua paragem aparente, já que começa por ser o seu movimento a primeira ilusão -


e que nesse momento em que a noite parece durar mais do que nunca


- precisamente nesse momento e no dia - na noite - das trevas mais longas do ano, é esse o instante preciso em que a Luz ganha novo impulso, e recomeça gradualmente a brilhar, mais e mais, até atingir o seu auge no dia mais longo do ano, o do solstício de Verão


e que

se,

como tem vindo a dizer, sem falar, Lao-Tzu repetidamente há milhares de anos,

"(...) qualquer coisa nasce sempre do seu contrário.

Se o verão dá lugar ao inverno, a noite ao dia, o frio ao calor, se o claro pressupõe a existência do escuro, o branco a existência do preto e assim indefinidamente, então a realidade tem como complemento a não-realidade.

Ser e não-ser são os dois pólos de uma mesma curva"
,


então,



Este é um tempo de início apesar do culminar


um tempo de Luz e Calor apesar de fazer frio,


que muito pode nascer dentro enquanto muito morre por fora


que este é um tempo de liberdade absoluta na aceitação das restrições intransponíveis,


um tempo de alegria na aceitação da tristeza


o momento preciso de fazer o balanço do percurso percorrido,

o momento de processar toda a memória,

o momento de assumir as expectativas.

o momento de concluir uma caminhada, ou uma etapa

- e neste ano em particular, 2018, despedir-nos de toda uma vida - a nossa Encarnação anterior: até hoje. Até agora. Janeiro, vá. Fevereiro no máximo.

E já vem de muito longe, aquilo de que nos estamos a despir. Vem pelo menos dos anos '70, e aí constataremos, se estivermos atentos, muitos ecos de temas do passado

(e mesmo que não tivéssemos ainda nascido, vamos lidar com isso na mesma, porque provavelmente já cá andavam os nossos pais, a lidar com os mesmos problemas universais com que nós lidamos, e nos deixaram - na essência, e até no adn espiritual e psíquico - isso como herança. O resto da herança é um pormenor ao pé deste;


mesmo que ainda não tivéssemos nascido nos anos '70, tinham os nossos pais. Se calhar nascemos nós, e nesse caso, é particularmente importante se foram esses os anos da nossa (de)formação.

- toda a gente sabe que constelação é uma família: ganha aos pontos, porque é de uma forma muito prática que reflecte e nos devolve, o nosso próprio Tema Astrológico, ou Mapa de Nascimento -


e de certa maneira,


a muitos níveis,


existem ecos desses temas e heranças no nosso futuro,


believe it


ou pelo menos toma uma nota mental para cá voltares, daqui por uns anos,


e perceberes


(podias ter aceite essa possibilidade mais cedo e vivido isso de outra maneira, but hey!?, o que é isso senão o karma resultante da Escolha de cada um,


mais ou menos iluminada?)


seja como for,


todos os anos, ao redor do 21 de Dezembro, o Sol estícia-se; e as trevas distendem-se.


Essa é a noite mais longa do ano no nosso hemisfério.

O Sol aparentemente estaca durante três dias - e que não deixa de ser irónica a sua paragem aparente, já que começa por ser o seu movimento a primeira ilusão -


e que nesse momento em que a noite parece durar mais do que nunca


esse recolhimento permite(-se) recordar-nos


que o Caminho apenas começou.



*


com um abraço de Luz e enCorajamento; senão na pele, no Coração; que se estenda e estenda e estenda até ao mais íntimo do verão; senão como aconchego na caminhada pelas mais frias e desertas ruas, na ante-câmara do Coração onde todas as Almas, despidas de capas e memórias e defesas e dores, se revelam: nuas.


Apesar do frio. Da atmosfera.


O Calor. Humano. Aquecendo-nos



Com a nossa própria Humanidade.




Feliz Natal idade,

nUno Michaels

5 comentários:

Sarah Moustafa disse...


Que belo Nuno este texto está fantástico "não cabe aqui falar do poder que o Natal tem de evocar as reminiscências infantis do Natal em família, do Natal em orfandade, da grande reunião de família, dos familiares falecidos, dos sonhos de abóbora e dos sonhos desfeitos, da magia e do encantamento da infância e das famílias entretanto atomizadas, da inocência com que o Natal era vivido uma vez e que tornava possível sonhar -
não cabe aqui falar de Caranguejo como o pólo oposto e complementar de Capricórnio.." Gostei mt , Identifiquei- me xD

Anónimo disse...

Retribuo, um (re)nascimento feliz. Que a consciência do sentido de impermanência, dê sentido à impermanência do sentido. Que a dualidade se traduza em mutualidade. Que a (in)gratidão se transmute em gratidão onsciente de que somos seres privilegiados.
Agradeço.

Enigmático Byjotan disse...

Um texto belíssimo que nos faz refletir sobre a graciosidade desta data feliz.Beijo do leitor e seguidor.:-BYJOTAN.

Filomena Nunes disse...

Meu querido,
Acredita que o teu abraço chegou ao âmago... e se juntou a todos os abraços que já cá vivem... e emocionaram-me as tuas palavras que, vindas "de fora", ecoaram e abriram caminho "dentro" onde os abraços se instalam... e esgotaram-se-me as palavras.. que não têm como definir o inefável...

Que a Vida se cumpra como tem de se cumprir, muito além do que somos capazes de dizer.. e até de sentir ou de imaginar..

... eternamente <3

Maria Raquel Tavares disse...

Nuno, foi muito importante para mim, aqueles 30m de conversa, directa ao coração, ao meu Ser. Grata, por ser como e quem és.
Este texto vem (re)afirmar a necessidade de mudança interna, o fechar de um ciclo para que o caminho comece com uma consciência de integração e serviço. Estamos todos ligados. Sinto-me a cada dia mais completa, mais plena, mais feliz, mais grata.
Senti o teu abraço no âmago da consciência, e também na ante câmara do coração.
Bem hajas.