2 de novembro de 2017

Júpiter em Escorpião: a exposição do abuso



"never apologize for HEALING an abusive relationship"
that's better :-)

... Este é um dos temas - e problemas - objecto de conselho, debate e tomada de posição cada vez mais actual, necessário, frequente, e urgente,

cada vez mais postado no facebook, aposto,

cada vez mais recorrente tema de conversa entre amigos

(que é como quem diz, dos nossos próprios processos):

a necessidade de assumir, expor, lidar - e libertarmo-nos - de relacionamentos abusivos.

Passados, presentes, e futuros.

Evidentemente há muitas versões, aspectos e nuances de relacionamentos abusivos,

e estas dinâmicas têm muitas expressões e possibilidades e são transversais aos géneros e à natureza dos relacionamentos (a única coisa que geralmente têm em comum são o envolvimento emocional profundo, o sexo, o desejo, o poder, e o dinheiro. O lado animal e ainda não redimido em nós. O lado obsessivo. O corpo de dor não curado. As trevas pessoais e as dores ignoradas. Os lutos ainda não aceites. São várias faces do mesmo bruto diamante do abuso, e muitas vezes - tantas vezes - coexistem misturadas e disfarçadas umas das outras, quero dizer, compensando-se e disfarçando-se umas às outras).

Até que o Júpiter chega a Escorpião, e alguma Verdade começa a ser reposta, trazida à luz, denunciada, e aumentada para que a possamos ver muito claramente à frente dos nossos próprios olhos.

E com isso (e a entrada, em breve - Dezembro de 2017 - de Saturno em Capricórnio, para aí passar mais dois anos e meio), serão inevitáveis maior maturidade e responsabilidade pessoal pela própria vida e experiência.

E é claro que ninguém tem no seu campo de experiência coisas destas, assim, se não existir em si própri@ campo fértil, espaço, função, razão, contraparte correspondente - e isso é o mais importante de compreender e aceitar; e que estas "crises" não representam senão mais formas, e oportunidades, de abrir a pestana para a Vida e para o que existe dentro, no inconsciente ou no consciente mal-aceite, à espera de sanação e reparo.

É que não há vítimas a não ser do inconsciente, do pessoal e do colectivo, mas isso

- numa 'cultura' destas, oca, superficial, baseada nas aparências e sem familiaridade nenhuma com os subterrâneos de Hades -,

é pensamento quase herético

e faz muita urticária a quem não aceite a possibilidade de assim ser, rigorosamente; a de nos colocarmos nós próprios, por questões largamente inconscientes (mas não só, nem sempre, nem em todas os casos), em situações abusivas: mas isso é tarefa de cada um, a de compreender e assumir responsabilidade por Si. Cada um sabe (ou pior, não sabe) até onde pode ir. Ou precisa 😎

Abriu-se-nos, com a entrada de Júpiter em Escorpião em Outubro de 2017, um ano maravilhoso para sermos visitados pelas sombras e pelos fantasmas, ou melhor - para os revisitarmos nós.

Um ano glorioso para os terapeutas, portanto,

(e para os advogados!, e os juízes, os beneméritos, meretíssimos)

- e também para os verdadeiros Curadores deste Mundo. Porque existem, invariavelmente cheios de Trabalho e sacrificando muito da vida pessoal em prol do Serviço aos outros, geralmente desapercebidos pelas massas, confiando tranquilamente no processo pelo qual a Vida conduz à sua Presença quem precisa e pode, sem se preocuparem com divulgações e auto-promoções e sem montarem espectáculo, e sem show-off, e sem exibirem os seus "dons" ou preocupados em dizer seja o que for ("para o seu bem, evolução e cura") a quem não lhes pergunta nada; esses são uns poucos, mal damos por eles, mas também andam aí. Às vezes disfarçados de terapeutas, é certo, mas nem sempre: outras vezes disfarçam-se de sem-abrigo, outras vezes de velhote na rua, outras vezes de criança ao colo cego dos pais. E nós encontramo-los quando o merecemos, e reconhecemo-los quando temos, nós próprios, condições de o fazer. A responsabilidade dessa conquista, e o trabalho desse merecimento, é nosso. E às vezes, mas não por puro acaso, já somos capazes de ver o que sempre esteve aí.

Pensa nisto.

Quantas pessoas passariam pelo Cristo na rua sem sequer o verem, reconhecerem, ou sequer repararem nele? E se por um qualquer misterioso desígnio, daquelas oportunidades que a Vida nos oferece sem que as valorizemos ou reparemos nelas, uma dessas pessoas tropeçar nele: isso dificilmente seria um Encontro - seria só mais um encontrão em mais um desconhecido e um estranho, mais uma inconveniência na vida frenética cheia de problemas e de auto-envolvimento e de objectivos puramente egoístas e de pressa, agarrados ao telemóvel ou aos pensamentos ou ao amante daquela fase, completamente cegos a tudo o que se passa à volta, cheios de certezas e planos e ambição de chegar depressa ao destino seguinte, sem fazer ideia nenhuma, realmente, de para onde se está a ir.

Quantas pessoas teriam o Cristo à frente, ou ao lado, e seriam capazes de o reconhecer?

Pensa nisto.

Porque Júpiter em Escorpião também nos fala dos tesouros escondidos. Do filão invisível, mesmo à nossa frente, desde que tenhamos a visão de raio-x para o encontrar através do disfarce.

Este trânsito de Júpiter em Escorpião é portanto, na minha percepção, um ano glorioso para aventuras da Consciência pelos recônditos meandros da personalidade humana.

Para tirar ouro de dentro da mina. Sem ter medo de nos sujarmos no carvão.

É um ano glorioso para quem se dedique a libertar-se (a si e/ou aos outros, na justa proporção) da tirania do próprio inconsciente - de tratar das consequências, e vir a ter de pagar o preço - de não o fazer.

Um ano glorioso para processos de separação e divórcio, lutas por custódias e pensões de alimentos, dissolução de parcerias, queixas à polícia e a outras autoridades, para a denúncia dos abusos, para a assumpção da própria responsabilidade como abusador, e para tantas outras expressões da mesma coisa a que, muito economicamente, chamo apenas de Júpiter em Escorpião.

E não m'admira nada abrir o Facebook, ou o jornal, nos próximos dias, semanas e meses, e ver notícias e posts e queixas que traduzem estas coisas e a maneira como a (in)consciência colectiva e individual lida com - ou assume - isto. 

Nunca mais a 3-D será a mesma se aproveitar a oportunidade de confrontar as sombras que ela própria cria ao rejeitar o menos conveniente ao transe e à ilusão.

(no outro dia uma amiga, em conversa, ouviu-me falar de "3-D", e por instantes pensou tratar-se de uma produtora. E até é: é produtora e reprodutora.

É produtora de um transe colectivo, e reprodutora de um modelo criminoso de vida. Financiada pelas corporações deste mundo, que estão basicamente interessadas em extorquir todo o dinheiro, vitalidade, alegria e dignidade das massas para seu próprio proveito (ou melhor, para a ilusão de que existe tal coisa como "proveito próprio", "propriedade privada" ou "poder" real que não seja o do Espírito) e destinada a normalizar a experiência dando-lhe um modelo do que é bom, bonito, aceitável, verdadeiro, e no fundo, como devem as pessoas viver, no que acreditar, e a que consagrar o seu tempo de vida e Vitalidade. E é tudo à Ilusão *

- para vender detergentes, sonhos, gilletes, pó de talco cangerígeno, hamburguers da macdonald's, modelos sociais, ambições mundanas que alimentam as dos outros, retalhos de carne de animais mortos, farmo-químicos, dispositivos de controlo social e outros mimos nos intervalos)

* fim de parêntesis *

Abençoado Júpiter em Escorpião, que vem expandir de tal modo as disfunções neste mundo (e não só as erécteis e suas compensações) que nos vem ajudar a não ser mais possível fazer de conta que não existem abusadores e abusados, psicopatas e suas vítimas no mundo.

Nas nossas casas, digo.

Nas pessoas que vivem connosco.

Ou melhor,

Nas pessoas que vivem em nós. Porque quem vive connosco, afinal, e mais além do cenário que nos distrai e dá a quem "acusar",

São expressão de nós próprios!

É!

Somos nós.

Nós, e nossos mecanismos de sobrevivência.

Nós, e nossos "objectos internos", para usar a expressão da psicanálise.

Nós e nossos arquétipos internos, para usar a expressão da psicologia profunda.

Nós e nossos planetas, para usarmos a terminologia da Astrologia.

Nós e nossas "partes", para usar uma terminologia menos sectária.

Nós e nossas projecções, criações, e multidões desconhecidas.

("Vivem em nós inúmeros", como dizia o Fernando Pessoa...)

Mas essas pessoas, projecções, situações, contextos, relações...

... não é nada de que não se tente fugir ou disfarçar, distrair ou comprar: com make-up, sex, manipulação, abuso de poder, sacrifícios masoquistas, violência subtil ou gritante, tentativas de "ajuda" ao outro, jóias ou promessas * sonhos, fugas, distracções, ilusões, e outras compensações. 

E continuamos a adiar, a esconder, a compensar, a ignorar.

(ignorância, tanta ignorância, tanta cegueira, tanta violência, tanto medo - tanto sofrimento. Tanta pequenez. Tão pouca humildade, tão pouco reconhecimento, tão pouca gentileza, tão pouca mansidão, tão pouca sensibilidade, tão pouca inteligência, tão pouco vagar - e tão amoroso, imenso e disponível o caminho mesmo à frente chamado a_corda para a Vida).

Às vezes - tantas vezes! - compensamo-nos com as distrações (outra vez: make-up, sex, manipulação, abuso de poder, sacrifícios masoquistas, violência subtil ou gritante, tentativas de "ajuda" ao outro, jóias ou promessas * sonhos, fugas, distracções, ilusões) por andarmos a ter com connosco próprios uma relação abusiva enquanto achamos que os outros nos exploram, por exemplo,

Quando permanecemos num emprego apenas por causa do ordenado (ou fazemos parecido num relacionamento), não porque amamos o que fazemos ou valorizamos e respeitamos quem nos paga ou dá benefícios - apenas porque acreditamos que dependemos daquela "fonte de segurança" e amaldiçoamos, enquanto assim nos prostituímos, a teta que nos dá o leite. E depois, é natural, gastamos dinheiro, vitalidade e tempo em compensações secundárias para lidarmos menos mal com a vida de merda a que nos sujeitamos, cheios de medo e identificados com a nossa versão pequenina, acreditando que não temos alternativa nem escolha.

Às vezes ficamos a tentar salvar o outro do seu próprio processo, (...) porque somos boas pessoas, bons cristãos, bons pais, bons netos e bons filhos, bons maridos e esposas - porque somos bonzinhos e além disso responsáveis pelo outro; e além disso os anjos e os arcanjos já estão a preparar-nos um lugar no céu enquanto por aqui nos cospem em cima, pontapeiam na tromba, sugam o sangue e a alegria de viver, e quando tiverem acabado connosco vão procurar a vítima seguinte - não é nada de pessoal, é só mais uma personalidade ferida - e aí talvez seja necessário reconhecermos os nossos próprios limites humanos, e não falo de "preservar o ego": falo de respeitar os limites do auto-respeito e da compaixão de que somos capazes a cada momento, e de recordarmos que compaixão nos inclui a nós próprios, e que às vezes o melhor que podemos fazer por alguém é deixá-lo a lidar consigo mesmo,

para que também tenha oportunidade de fazer o seu processo,

e crescer enquanto Alma também - o que não tem porque acontecer enquanto andarmos com "eles" ao colo.

ah, pois é: é difícil! É difícil reconhecer o que é o quê, e onde pôr os limites: será o limite do próprio animal, o limite verdadeiramente humano, compaixão, auto-respeito, correcto, ética, Verdade, Amor? 

Até onde estamos presos pelos nossos próprios fios invisíveis?

Até onde conseguimos ser Grandes - assumindo que ainda não somos o Buda ou o Cristo?

(é que se o fôssemos, duvido que estivéssemos em situações destas ou sequer a ler este texto, ou pelo menos, se estivéssemos a ler este texto, estaríamos a rir e a sorrir sem que uma única célula do nosso corpo reagisse ao que a mente processa; nem estaríamos pessoalmente envolvidos com nenhuma das situações aludidas acima - estaríamos sim debaixo de uma árvore, ou no topo de um monte, a irradiar compaixão para o mundo sem interesses, agendas ou envolvimentos pessoais, quero dizer, sem ter que responder a telefonemas a perguntar onde é que andamos que já não vamos a casa há quarenta dias e quarenta noites, a insistir se temos uma amante que se temos vão-nos deixar e ficar com a casa e os filhos, que se não voltamos vão-nos excluir do testamento, que é preciso pagar a conta do gás, e ir à farmácia buscar ansiolíticos, anti-psicóticos e ritalina - e buscopan que a chanfana do cabrito caiu-lhes mal, que a avó e a filha - e o espírito santo, mas isso é natural - tiveram outra crise, etc. etc.)

É difícil reconhecer - ou encontrar - os limites da nossa própria grandeza - ou pequenez - enquanto estivermos, nós, em luta com as nossas próprias trevas, e com tudo aquilo que em nós próprios é ainda relacionamento abusivo. E estamos todos.

A poder curar-nos, também.

Mas.

Se temos - e temos - alguma forma de relacionamento abusivo connosco próprios, e como podemos acusar, reclamar, queixarmo-nos de que não nos sentimos respeitados ou valorizados? Como poderíamos ser vítimas de alguém, se começamos por ser nós próprios os nossos próprios abusadores?

É só uma ideia, nem sempre fácil, mas muito útil - acredito - de considerar durante o próximo ano - e já começou. Sabes bem que já começou.

Agora

este texto,

era só para dizer que nos vão chegar resmas d'artigos, situações, opiniões, debates (e rebates, de consciência), enfim: notícias destas, notícias como estas

À nossa atenção

Nos próximos capítulos das mesmas velhas novelas... *

Usos e abusos.

Brevemente,

Vindo à tona e explodindo finalmente

numa sociedade perto de si.

(uma vez perguntaram ao Ghandi, parece, o que é que ele achava da civilização ocidental, ao que ele terá respondido: "penso que seria uma óptima ideia").

O Júpiter também acredita que sim.

E Escorpião sabe que o abuso começa dentro de cada um de nós.

E nós, testemunhas algozes e vítimas de nós próprios, distraídos a acusar os outros pelas misérias das nossas próprias vidas *

E a ironia,

É que ainda haverão tantos de nós a queixarem-se quando a Vida, na sua infinita sabedoria e generosidade, nos der o pontapé no cu finalmente libertador

para que possamos reencontrar Liberdade, Dignidade, e o que houver de valioso para resgatarmos

e honrarmos

o que de mais nobre e divino exista

no fundo de nossa própria Alma.

Que é como quem diz - e o tempo o dirá melhor ainda:

Júpiter em Escorpião é uma bela (e rara!) oportunidade para salvarmos a nossa própria Alma *

O tempo dirá, creio, que o abuso tem nome:

e não és tu

sou Eu *


nUno Michaels, 2 de Novembro de 2017. Reprodução e partilha autorizada, desde que respeitada a fonte original (http://www.taoenchoice.com) e citação do autor, para que toda a gente saiba que não só o abuso, mas também a provocação, tem nome. E sou eu :-)
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