7 de março de 2017

que Feliz Retorno Solar

Ontem cumpriu-se um retorno solar mais nesta curiosa encarnação que me veste - e me despe - e me eleva, e me verga, e m'amassa, e me alegra, e me dá oportunidades, imensas, assim possa e saiba eu estar Presente e fazer as escolhas e das Escolhas, presentes *

Foi o quadragésimo primeiro retorno solar, abrindo caminho ao meu quadragésimo segundo ano de experiências como ser humano em projecto e processo. Quarenta e dois: parece mentira ter chegado à idade cronológica em que a Vida muda toda outra vez, depois de já tantas mudanças, tantas vidas na mesma Vida, tanta Vida em tão pouco tempo, tanto tempo decorrido e vivido em tão pouco tempo, principalmente quando 'inda há pouco era criança, sem saber nada, e com a vida toda, caiada de fresco, inocência e abertura, pela frente, por baixo, pelos flancos, e ainda por cima.

Se olhasse para trás, fá-lo-ia, provavelmente, com incredulidade e espanto: nunca imaginando que a Vida viria a ser Tudo, e Tanto, quanto tenho a impressão - ou a memória - que foi até hoje.
Mas é para a frente, e para os lados, e para cima, que o mesmo olhar inquieto, inquiridor e curioso quer abraçar e abarcar o mundo, enquanto dentro tudo vai encontrando o seu próprio lugar, arrumando, sobrepondo, acamando, colapsando ou desaparecendo - fundindo-se com a malha própria da existência, tornando-se património imaterial da hUmanidade e deixando apenas o espaço ao próximo instante: mesmo quando a memória insiste em atribuir-lhe e encontrar-lhe um fio condutor, organizado em função da ficção persistente chamada "eu" - e quantos eus já fomos, somos, seremos, e chamamos a isto tudo a cada momento?, perante a multiplicidade de tantas outras ficções e eus de cada outro momento - agrafada, a ficção, a outra ficção sedutora chamada de cronologia, reinventada, confundida, e dispersa pelos fragmentos que não servem senão para contextualizar, distorcer, e reinventar cada novo momento como se fizesse parte de uma história
sem passado, nem futuro, apenas Presente *

Pois é este o Presente, feito d'amálgamas de sonhos projectos memórias experiências imaginação percepções distorções projecções impressões lampejos - feitos de futuro tanto quanto de passado ,embrulhado Tudo num único Presente sem fim e sem forma,

Feito de Abraços e Vida, toda a que haja por recordar, inventar, viver, e sonhar.

Nela cabem todos e Tudo quanto passou, passa, e passará - porque tudo passa, e tudo fica, e nada fica senão o sorriso e a Gratidão, o Espanto, e a Surpresa perante uma Vida que corre através, e tantas vezes apesar, dessa ficção que insiste em nomear-se -como se existisse realmente -chamada "mim", que se animou feita recorte particular dos Céus tornado Terra fecundada, instante cósmico irrisório - e absoluto - que comemorou ontem o seu quadragésimo primeiro retorno solar e abriu assim o quadragésimo segundo ano no calendário dos homens a mais uma volta ilusória de Terra em volta do Sol e mais ilusória ainda de Sol em volta da Terra,

Como os Amantes ao redor do seu Bem Amado e do Bem Amado em redor dos Amantes,

Abraços cruzados

Em busca da recordação primordial

Que não há diferença essencial entre o Amante e seus Amados.

E a todos os que são, têm sido, foram e serão os Amantes dos meus abraços, que trago no coração e me tragam em seus regaços, a ficção da memória de uma ficção com tanta e ainda assim sem história,
A toda a Vida que se tem feito e desfeito desfrute património imemorial do convento da história de uma memória feita momento a momento, com tanto de inútil quanto de glória, tal é a persistência da memória e a glória da impermanência,

Tal é a natureza da nossa história,

A Todos os que conspiraram para que estes quarenta e um anos de experiência humana tenha sido possível, e tão rica de imprevisível, improviso, e impossível de improvável,

E por me terem dado a beber, absorver, experimentar, nutrir, intoxicar, sorver e urinar tanto dos fluidos e fluxos próprios com que o fluxo da Vida se faz, e desfaz, e refaz, e inventa, e experimenta, e tenta, e renova,

Às vezes como salmão nadando contra a corrente, quando é essa a corrente natural da sua própria desova,

- Peixes, uma ova! -

A todos os outros íctios cúmplices irmãos neste oceano de Vida,

E que por sua Vontade de Deus, Fogo divino, se acenderam também e vieram a lume,

Gratidão que perdure, até que se perca a memória, de termos sido peixes simultâneos de um mesmo cardume.

É que se são quinze minutos de fama e sete segundos de memória, de Tudo quanto É - ou poderia ser -, o que de melhor pode haver senão recordar sete segundos de Amor, cheios?, e ser essa a ficção da nossa história: perante a Imensidão de instantes que é a Eternidade, condenada ao esquecimento - mas não enquanto houver memória.

Sete segundos atrás, foram quarenta e um anos. Pela frente setenta vezes sete imensidões de tempo, para que nos façamos, nós peixes, cada vez melhores humanos.

Mais um retorno solar, que é o primeiro na verdade. O primeiro de uma nova Vida, porque a Vida sempre se renova - e o aniversário é um belo pretexto para recomeçar a desova.

A todos os que também nadam, e recordam, e esquecem, e por isso ficcionam, e friccionam, e que também são Fogo - com espinhas - vindo a lume, não para fritar, mas para recordar, e não se esquecerem de esquecerem tudo quanto nos impede de Amar,

A minha Gratidão sem fim - confinado, enfim, a sete segundos de memória - por sermos parte de um mesmo cardume, sem história, sem destino, às voltas à Terra no oceano da Vida, sem expectativa, com Amor, e sem memória.

A não ser sete segundos,

Quarenta e um anos de ficção no canal história

Ou lá o que é, oh lá lá o que foi, lá lá land o que for.

E seja lá o que vier a ser,

Que seja, pelo menos, uma comédia das musicais

Com sons imagens símbolos e sonhos a preto e branco e a cor

Com cada vez menos espinhas e dramas

- e cada vez mais Amor -

Para a gente dançar, cantar, nadar e esquecer

Para a gente viver e cuidar

Dos que vieram antes de nós

Dos que estão a partir, e por chegar

Dos que estão por nascer, e a nadar por viver

Pais mães irmãos descendentes

E nossos avós.

... Inda há pouco tempo eu era uma criança, chegada a esta corrente há pouco tempo, há tempo nenhum, e sem saber nada. Com a vida toda, caiada de fresco, inocência e abertura, pela frente, por baixo, pelos flancos, e ainda por cima.

Quarenta e um anos a navegar as ilusões dos eus e das memórias.

Hoje, espero o meu primeiro filho, preparo a nova casa onde irei habitar, reinvento tudo quanto sou, fui, e me divirto a imaginar que poderei vir a ser - desistindo, principalmente, de quaisquer noções, definições, planos, projectos e expectativas: sei apenas que é uma casa branca, caiada de fresco, onde cabemos nós três (o Pai, o Filho e o Espírito Santo) e todo o nosso mundo património i_material.

Família, a minha de origem biológica, digo, trago-a quase toda só no Coração, para não dizer, na Graça da Memória. Inda há pouco tempo eram eles o meu mundo e a expectativa de tudo o que me tornaria, se os aprendesse. Hoje, olho para trás e sorrio perante a ironia de que muito da ficção chamada 'eu'  se fez sozinha, muitas vezes à rasca, e de improviso, ao ritmo a que se me caíam as expectativas, se me morriam aqueles com que nasci a contar, e dos quais recebi tudo o que podiam - mas definitivamente não tudo o que eu esperava, e acreditava que precisava -, à medida que se me ia amarelando a cal fresca das paredes e eu ia descobrindo que não é das paredes que depende a Vida, mas da Vida que se anima lá dentro.

Hoje, muitas paredes caídas depois, preparo-me para habitar uma casa nova. A família entretanto cresceu exponencialmente, na medida das expectativas de que tive de aprender a desistir, e em vez de três, ou quatro, hoje somos sete ponto dois mil milhões. De Fogo feito peixes, e com espinhas a fazer danos, enquanto damos às barbatanas e aprendemos a fazer-nos cada vez mais humanos.

Hoje, quarenta e um retornos solares depois, já que o último foi ontem, sinto-me livre, e novo, como nunca. Com menos ilusões inocentes, mas muita mais paz.  Os olhos físicos estão mais cansados, de rir até às lágrimas e chorar e abraçar tanta coisa testemunhada, e os cabelos, que já foram ralos ("o homem morre como nasce: careca, sem dentes, e sem ilusões "), e já foram compridos, lá vão encontrando charme no abraço de boas vindas às cãs. As rugas (não) enganam: este peixe já não é de hoje, e qualquer dia está frito. Mas como animal dos que uivar, lá se vai fazendo um velho Lobo do mar.

Mas - e isto é o mais importante, quanto mais não seja, porque não é sobre a ficção chamada 'mim' - uma nova vida vem aí: é não é só dentro de 'mim', nem da Mulher - meio louca, meio sábia mas totalmente heróica -, que é minha cúmplice n'isto.

É que o Sol começou ontem mais uma voltinha, e no calendário dos homens diz que cheguei à idade em que muda tudo: outra vez.

E só passaram sete segundos.

Um piscar de olhos da Eternidade.

E até que se fechem os meus, Obrigado a todos os meus Amigos, com o sorriso desalinhado do costume, e apesar do ar enrugado, por fazerem parte deste cardume que sem ir a lado nenhum, num único golpe, está em todo o lado ❤️

Está tudo a começar outra vez, pela primeira vez, e está um Sol que irradia: Luz, Paz, e Amor.

Só pode ser um Bom Dia *


e a quem me pariu e cuidou, Obrigado. Estava a ver que não me (re)nascia.

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