3 de julho de 2016

observando as marés

... se houvesse alguma coisa mais valiosa de dizer ou escrever, neste momento

 do que a incomunicável cumplicidade silenciosa, em comunhão,

enquanto tudo se desfaz, ainda assim permanecendo fidelissimamente aberto

o Delicado Coração, o Coração Inocêncio,

o Ser observando o sem fim que aparentemente termina,

o Ser sem mente: o Ser Inocêncio

observando o sem fim que aparente termina

- muda de forma, e se refina - mistério imenso

ondas de choque

e silêncio.

observando a Vida como fases da maré:

na vazante, a despedida

e na cheia, um novo início.

a cada viagem, que é um Regresso,

uma partida, um recomeço

neste tremendo mistério, o indício

em cada morte, de toda a Vida

e se cada viagem é Regresso

e cada partida, recomeço

agradeço à Vida por cada fase, cada onda, e lhe peço

- enquanto nos leva, eleva a todos em sua asa -

que seja leve para quem parte, e para quem fica,

a viagem de regresso a Casa

e alegre a chegada, que é despedida,

enquanto regressamos todos a Casa

e chegados ao fim do sem fim

acabamos todos por regressar

de malas feitas, sem bagagem,

à Casa da Partida *

 ... se houvesse pois, neste momento, alguma coisa mais valiosa de dizer ou escrever,

do que a incomunicável cumplicidade silenciosa, em comunhão,

enquanto tudo se desfaz, e refaz, e flui, e dilui,

o Delicado Coração, enquanto puder Inocêncio,

aberto ao que há de mais terno, e ainda assim fugaz,

di-lo ia por escrito - mas assim sendo fica dito

tudo

o que há para dizer neste momento

só pode ser dito em silêncio

só pode ser dito o que pode ser dito pelo não dito

que a Vida move-se para a frente e para trás num movimento infinito

como maré que enche, como maré que vaza

Vida que vai e vem e chega e parte, e nos leva na sua asa,

Vida real ou sonhada, abraçada ou sofrida

celebrada ou adiada,

nem sempre aceite, ou compreendida,

Vida que sempre regressa a casa

a preparar nova partida... *

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