30 de setembro de 2015

roubam tudo, nao levam nada, e ainda me deixam o resto (aka, "onde e que tens a mochila"?)



... quatro ou cinco noites atrás, nesta ilha magica onde os veus entre dimensoes sao tao tenues (e os teclados nao tem acentos),

sonhei que tinha ficado sem a minha mochila - a mochila onde trago comigo, geralmente, tudo aquilo de que posso precisar a qualquer momento - e a que costumava chamar, na brincadeira, o meu saco de sport billy - ou kit de sobrevivencia.

- para quem nao se lembra, ou nao e desse tempo (meu deus, o que a idade faz a uma pessoa!), o sport billy era um personagem que trazia um saco de desporto de onde tirava as coisas mais inimaginaveis, sempre que precisava de qualquer coisa - e, como o mcgyver (outra referencia datada, dos tempos em que a minha educacao, entretenimento e socializacao ainda passavam pela televisao), resolvia qualquer imprevisto ou assunto com que se deparasse com o que tinha a mao. A diferenca e que o McGyver nao tinha um saco infinito e lidava com o que fosse com o que quer que tivesse consigo a cada momento, e geralmente nao tinha nada * e ainda assim, conseguia desarmar bombas nucleares, prender bandidos, e desactivar celulas terroristas que ameacavam o mundo com um pedaco de cordel, uma carica, e uma pilha duracell.

Ja o sport billy, esse, tinha um saco de onde tirava qualquer coisa de que precisasse - como quem tira coelhos de um chapeu, mas o sport billy era diferente: era capaz de tirar do seu saco nao so um coelho e um chapeu, mas tambem um ilusionista, um palco, e uma plateia de gente para aplaudir o numero se fosse necessario.

era um saco infinito. e a sua garantia de que acontecesse o que acontecesse, ele teria sempre como lidar com as situacoes (mesmo que fossem situacoes sem cedilha) -

por isso eu chamava a minha mochila de saco de sport billy, ou kit de sobrevivencia. E onde quer que eu fosse, com a mochila as costas, sabia que teria sempre com que me desenrascar. Como as minhas ambicoes nao sao espectaculares, nem enfrento o terrorismo mundial da mesma maneira dos herois de hollywood, entre a agenda com meus transitos astrologicos anotados e meus  compromissos profissionais - agendados e por agendar -, um bloco de notas para as inspiracoes, duvidas e recados a mim proprio, uma escova de dentes e uma muda de roupa interior, um telefone inteligente com tudo o que lhe cabe dentro, o passaporte e algum dinheiro, um substituto de refeicao a que e so juntar agua, o shaker para fazer a mistura, os meus cristais favoritos e uma mini-farmacia, 

por onde quer que eu andasse, tinha na mochila tudo o que poderia precisar para manter-me em movimento - ou em inactividade e pausa - e ir vivendo e cuidando, assim, momento a momento, sem estar dependente de circunstancias ou lugares para ir vivendo e levando aquilo de que principalmente consiste o Caminho do meu karma.

e ha quatro ou cinco noites, nesta terra sem veus e sem cedilhas, sonhei que tinha ficado sem ela, a minha mochila - e acordei com uma sensacao desconfortavel que so amainou passados uns minutos, quando desci ao piso inferior da casa onde dormia e a encontrei, deixada junto a piscina e ao ar livre, no spot onde comeco os meus dias desde que aqui estou, no meu ritual de silencio e cafe, cigarro e emails, notificacoes de facebook, anotacoes de pensamentos e to-do's, enquanto o dia nasce e a actividade humana em redor comeca a sobrepor-se aos sons e ritmos proprios da natureza, que comeca com grilos e chilrear de passaros e vai complicando para incluir galos, gente a mexer, e as primeiras motas a entrecortar esta especie de silencio.

mas ali estava ela, entre o pesadelo de a perder e o sonho de a encontrar - uma especie de mochila Taoista (como tudo o resto na Vida), cumprindo-se entre opostos complementares, como quem diz, entre a liberdade de pernoitar sozinha e a fresca, junto a piscina, e a posse intromissiva das minhas maos ao pegar-lhe, confirmando que continuava tudo na mesma (tanto quanto as coisas continuam na mesma), quase religiosamente com um ritual de tranquilizacao, recitando agenda-passaporte-dinheiro-pedrinhas-bloco de notas-proteina como mais um dos mantras para a abundancia, prolongar a longevidade, ou dissolver obstaculos.

evidentemente, fiquei uns minutos a saborear esse sonho e a aprender o possivel com ele, tomando as minhas notas mentais com os insights que consegui oferecer a mim proprio e entregando-os, aos insights, a memoria - que regista numa qualquer dimensao das suas tudo aquilo que for realmente importante de estar presente, ou voltar alguma vez a ser recordado. Nao uso o meu bloco de notas para isso: alem de ser apenas processo pessoal - que se nao ficar registado no Ser nao e por estar escrito que vai fazer diferenca -, raras vezes reforco a existencia daquilo que nao e construtivo nem me serve, e muito menos escrevendo - a nao ser que plasmar pensamentos pela escrita esteja a servir um proposito maior, nem que seja - o da sua propria transformacao.

de modo que comecei o dia a fazer trabalho com o sonho e cafe, nesta terra de sonhos sem veus nem acentos, e durante uns segundos o meu mental ainda me veio recordar, qual galo cheio de opinioes empoleirado no meu ombro e debicando-me os ouvidos,

que vinha ai um eclipse em cima do meu plutao natal de Casa 2 (seguranca, senso de valor e posses), ao mesmo tempo que Mercurio (que faz as coisas mudarem de maos, dai reger os comerciantes - e os ladroes -, e planeta regente da minha Casa 2) lhe fazia conjuncao, ao plutao, na Casa 2,

e o urano (libertacao) fazia quadratura a lua (seguranca emocional, habitos e apegos), e todos os outros motivos astro-logicos e um grande elenco de razoes (ou justificacoes) para o simbolismo do sonho, e, se eu nao pudesse, ate, viver diferente, para ter medo - muito medo - do apocalipse sonhado: o fantasma da perda, a angustia da morte anunciada da mochila e seu significado (afinal, era o meu saco do sport billy: o meu - Casa 2 - kit de sobrevivencia - plutao - a ser eclipsado, levando consigo as minhas notas, agenda profissional, e batidos de proteina - quanto capricornio, e quanta lua - o proprio "saco" sendo a Lua - a ser levado, inesperadamente - a la urano),

e tantos, tantos outros motivos astro-logicos que poderiam bem ser alimento para os pensamentos de medo de perder qualquer coisa de estruturante, estabilizador, ou securizante - e precisar, inevitavelmente precisar, de encontrar novas formas (urano-lua) de me securizar (Casa 2) e tranquilizar (Lua) perante as mudancas imprevistas e inevitaveis de que e feito o movimento da Vida.

mas eu recebi o recado por via do sonho - anotei-o mentalmente, e trouxe-o para dentro de mim -, sem dar demasiada importancia as correlacoes astrologicas que seriam o alimento do medo, caso eu decidisse alimenta-lo,

e desfrutei do facto de ainda ter a mochila e as “minhas” coisas ai dentro, e agendei mais uns compromissos, marquei mais umas coisas, usei o telemovel para ir ao facebook e postar fotos da camara, checkei os emails, e basicamente – continuei com a minha vida, considerando que o essencial do recado tinha sido recebido.

E nem precisei de gastar papel a escrever estupidezes pessoais, nem a alimentar medos, nem a reforcar a eventual (tao mais provavel quanto mais lhe desse atencao) existencia de problemas ou motivos de preocupacao – e usei o papel do meu bloco de notas, tanto quanto me lembro, para escrever outras coisas, bem mais interessantes, ligadas com projectos, tarefas pendentes, e demais downloads recebidos durante a noite – afinal, nem so de recados pessoais vive o Sonho.

Ontem, contra todas as probabilidades e crencas optimistas na pura dimensao simbolica de todos estes processos, roubaram-me a mochila. E com ela, o passaporte, centenas de euros (os que trazia) e dolares (os que ganhei, a receber clientes imprevistos), milhoes de rupias (um cafe custa 30 mil), o telemovel (com carregador: ja que e para ir, vai tudo!), agenda, bloco de notas, batidos de proteina, necessaire, vitaminas, roupa, cristais, e todas as outras coisas que la estavam dentro. Nem tudo e puramente simbolico, nem os transitos astrologicos se manifestam apenas a niveis de consciencia – alguns chegam realmente a materializar-se como acontecimentos na vida da 3D.

A assinatura do momento exacto (ou melhor, do horario aproximado) do roubo estava la, escarrapachada, no mapa do momento, com as circunstancias que o envolveram claramente delineadas pelas posicoes dos planetas e relacoes entre si. Estava escrito: e daquelas coisas que por muito que as queiramos negar, por inacreditaveis que nos parecam, estavam la claramente desenhadas. E inevitavelmente escritas, e agendadas, desde o inicio dos tempos – basta ver o livrinho das efemerides (qualquer edicao de 1950 serviria para o efeito) para perceber que ha centenas de anos que este momento unico, com seu jogo de forcas particular, este eclipse de final de Setembro de 2015 com o urano e o mercurio e os outros agentes planetarios naquelas posicoes particulares, estava programado desde que os planetas se movem no firmamento, espelhando o essencial das energias que, a um nivel ou outro, acabam por encontrar expressao nas nossas vidas espirituais, mentais, emocionais, e fisicas.

Nao que tivesse de ser assim necessariamente – diz o galo empoleirado no ombro, debicando-me os ouvidos: bastaria que eu nao tivesse deixado a mochila onde deixei, num quarto que viria a ser arrombado poucas horas depois por ilustres desconhecidos, e que eu poderia ter escolhido leva-la comigo, como faco sempre (ou quase, como ficou claro pela excepcao que quase me fez lamentar nao ter cumprido a minha regra), e tivesse eu feito questao de me acompanhar pelo meu saco do sport billy, para ter comigo o telemovel, pelo menos, e o dinheiro, e o documento da minha identidade neste pais estrangeiro, e o bloco de notas caso quisesse escrever, e um batido de proteina caso viesse a ter fome, e e tao tentador dar atencao ao cabrao do galo, tirano, debicando-me os ouvidos com tudo o que eu poderia ter feito de diferente se ao menos, se ao menos tivesse… sido diferente.

Mas eu sei que antes do galo comecar a cantar ja o silencio existia; e que nao e as sobreposicoes efemeras e temporarias, cronologicamente impostas, que quero dar o essencial da minha atencao. Quanto muito, gostaria de ter acentos.

E deixei o galo continuar no seu filme histerico e quase insuportavel, quando e levado a serio, e movi-me para um sitio mais real dentro (ou fora?) de mim.

E dei por mim a pensar “bom, parece que quando morremos nem a roupa do corpo levamos”, e a reconhecer que pelo menos ainda estava vestido – e os cartoes multibanco e de credito, esses pelo menos, tinham ficado no bolso dos "meus" calcoes.

Podia ter sido pior; e agora, o que preciso fazer para tratar do mais importante, que e poder embarcar de regresso a Portugal daqui por dois dias, nao tendo passaporte?

Tudo o resto se repoe, incluindo o passaporte. Tudo o resto e materia, e a materia dissolve-se e repoe-se com a mesma facilidade – mesmo sem til ou cedilha, e apesar dos veus. E so uma questao de tempo, e diligencia.

E aqui estou eu agora, que fiquei, com um computador emprestado, de regresso a casa destes meus amigos (dos melhores que tenho, e que cuidam de mim como familia – e onde posso tomar duche e banhos de piscina, mesmo que a mochila ja nao esteja por perto) e onde felizmente a gillette ficou, com a maior parte da minha roupa, e onde posso confortavelmente tratar de tudo quanto precisa ser tratado do ponto de vista pratico: contactar o consulado para obviar ao roubo do passaporte, e a Vodafone para obviar ao do telemovel, alimentar-me com comida saudavel e Amor, vir ao Facebook e ao blogue, checkar os emails e obter copia do meu bilhete de regresso a Portugal, e de todas as outras coisas necessarias e transitoriamente importantes, enquanto me preparo, eu proprio, para continuar em transito.

E penso para mim – gracas a deus tambem tenho um galo – que poderia ter sido muito pior (o galo tambem tem utilidade, afinal): nesta historia do roubo, nao e so que pudesse vir a ser eu a ser preso por furto: e que poderia bem ter sido eu o ladrao (o larapio, a que me referi no post que escrevi no Facebook no momento do equinocio, naquele momento do Balancar com cedilha e sem urgencias ou assento circunflexo: uma cama de rede foi muito melhor assento, e muito mais gentil).

E o episodio, ocorrido mesmo a tempo antes de regressar a Portugal e permitir-me ir daqui muito mais rico – infinitamente mais rico desde que aqui cheguei ha um mes, por estes motivos e miriades de outros, que aqui agora nao cabem – ofereceu-me finalmente a chave (enfim, uma delas) para descodificar o sonho e a oportunidade contida nos transitos do momento,

E rever, em simultaneo, a estupida e limitada crenca no kit de sobrevivencia, o meu antigo saco do sport billy.

Como e que sobrevives mesmo sem kit de sobrevivencia as costas? De onde e que tiras aquilo de que precisas para lidar com a Vida, como e tal ela se te apresenta a cada momento? Sera de um objecto exterior (mesmo que nunca o largues – como assim, nunca, se as vezes das por ele e ficou abandonado numa cadeira, ou a respirar junto a piscina)?

Como podes mover-te para um lugar, necessariamente interno, de maior seguranca ainda, mesmo quando aquilo que consideravas fundamental deixa de existir para to proporcionar, a esse sentimento ilusorio e temporalmente condenado a ser destruido, de que enquanto tiveres o saco do sport billy podes dar conta de tudo?

Acreditas mesmo que enquanto houver Vida precisas de mais alguma coisa, a nao ser de estar vivo?

Acredito. Desilusionei-me da mochila. Mas agora estou agarrado a uma crenca nova – a de que se nao fosse a rede de pessoas que amo, e que me amam e apoiam ao longo do Caminho, estaria em muito piores lencois. Melhor ainda, nem sequer teria lencois, onde dormir confortavelmente e tranquilo uma noite de sono profundo e profundamente reconciliador.

Hoje acordei sem me lembrar de sonho nenhum. Nao e que tenha acordado sem sonhos. O sonho continua, mas o saco do sport billy agora esta embutido. Ate ao proximo eclipse e alinhamento planetario.

Volto a olhar o mapa do momento, sorrindo perante a comedia da Vida e a limitacao das minhas proprias crencas e pretensoes. Simbolismo, o tomate.

E volto a reparar no Mercurio-Plutao.

Ora entao e isso – esta ali, e sempre esteve desde o inicio: e ao escrever (mercurio) sobre o episodio, e ao partilha-lo com a minha “rede” (mercurio natal em aquario, a reger a minha Casa 2), falando de conquistas e perdas, mortes e transformacoes que me levam do acessorio e em direccao ao essencial,

(enquanto os galos cantam)


dou por mim a operar a alquimia e o milagre da minha propria transformacao, processando nao so a experiencia mas fazendo-a circular, para que se cumpra full circle e Sirva a mais alguem - se calhar *


ps: ao final do dia, e depois desta aventura, ainda liguei para Lisboa. Com esta transitaria toda, nunca se sabe. Mas estava realmente tudo bem - apesar da idade e das condicoes, nem sequer me levaram a avo que amo e que transporta o nome do novo dia: Aurora *

Obrigado, deus, por todas as aprendizagens e oportunidades. Obrigado por mais um dia. Obrigado pela luz que se faz depois das nuvens mais escuras. Obrigado, meu deus, por uma ancia, e uma nova, Aurora.

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