24 de agosto de 2016

perfectly imperfect day

... hoje tive a Graça de viver mais um dia perfeito. Nem sempre, ou quase nunca, escrevo ou falo sobre a dimensão mais estritamente pessoal da Vida que se vai vivendo através de mim - não porque não tenha o que contar - e deus sabe, deus sabe o quanto me preenche diariamente de instântaneos multi-coloridos e plurivalentes que ficarão para sempre entre nós, mim e deus, digo, a não ser que eu escolha torná-los comuns, como agora -, mas porque se fosse sobre mim que eu quisesse escrever, fazia log-out do Facebook e comprava um diário

(este texto foi originalmente escrito no Facebook em 23 de Setembro de 2015 antes de aqui vir parar)


mas hoje apetece-me fazer uma partilha pública de carácter mais pessoal, talvez porque acredite que pode servir a mais alguém - é a diferença entre um gajo que se masturba em público, e outro que exemplifica como se faz uma recolha de sémen -

se não serve os outros, para quê - como diz o outro - andar a soprar nas trombetas da fama e auto-referenciar-se?

... então, escrevo porque pode ser que acrescente alguma coisa a alguém - e descansa, não tenho a pretensão de vir aqui ensinar ninguém a masturbar-se *

comecei o dia com a consciência cristalina de que o meu dia de hoje já tinha começado ontem, assim como o de ontem já tinha começado anteontem - com a consciência clara, por assim dizer, que não comecei o dia "do zero", mas com uma herança: a herança de tudo aquilo que fiz até hoje, para que hoje começasse "onde", e "como", começou: e dei por mim a pensar que tinha uma responsabilidade acrescida (é tão típico de quem tem energias fortes em Capricórnio): fazer com que hoje fosse a melhor semente possível para amanhã.

e revi mentalmente, em dois segundos, o dia de ontem: andei livre, resolvi alguns (poucos) assuntos de que precisava, treinei e almocei ao meu ritmo, andei pelo chiado, tive encontros (por um motivo ou outro) extraordinários: com amigos, com conhecidos, e com amigos que eu ainda não conhecia.

Um dos mais bonitos foi com a Cândida, que trazia uma cadela novinha (era a Sasha) pela trela e os olhos cheios de lágrimas, uma dependência muito antiga de drogas duras gravada no corpo e na aura, os pés encardidos de calcorrear a calçada portuguesa, e uns olhos verdes de uma beleza que drama nenhum conseguiu apagar até hoje, embora já bastante esbatida. Pelo caminho, tinha perdido a inocência, a esperança, a juventude, muitos sonhos, e todos os dentes da frente.

Começou por me pedir um cigarro, depois, sentindo qualquer coisa de amigável na forma como a tratei, sentou-se comigo na esplanada onde me encontrou, e depois conversámos - ela falou e eu ouvi, para ser mais exacto, e é assim que costuma ser: o ruído procura o silêncio como o cheio procura o vazio, e o silêncio, embora não procure o ruído, atrai-o fatalmente, pois é essa a natureza das coisas; nem um se reconheceria ao outro se não fosse este Encontro - entre o ruído e o silêncio, digo -, nem se reconheceriam a si mesmos como essencialmente diferentes mas inevitavelmente complementares -

e assim dançámos os dois sentados, ela a contar-me o suficiente da sua história para que eu pudesse compreender o por quê daquelas lágrimas, e que o marido a tinha expulso na noite anterior da casa que conseguiram arranjar com tanto sacrifício e esforço, ao fim de vários anos a viverem na rua.

Ela tinha acabado assim de perder - pelo menos era o que estava a viver naquele momento - o marido, a casa, e todo o sacrifício que tinha feito para cuidar, à sua maneira, daquela relação ("eu tou sempre a dizer que não aos outros gajos que também gostam de mim, para ficar sempre com ele, tás a ver?"), e as providências que já tinha tido que tomar para não morrer às mãos das suas próprias escolhas ("eu já tive que dormir com duas facas - de serrilha - nas mãos, com medo que ele me batesse").

A Sasha estava muito sossegadinha, debaixo da nossa mesa, e relativamente alheada daquela história de amor em que entrava polícia, assistentes sociais, rendimentos de inserção, drogas pesadas, álcool, os pais a chamá-la para voltar para casa, o avançar da idade que lhe começava a pesar, particularmente quando imaginava que já tinha "esta idade" e ia continuar "naquela vida", a laqueação das trompas para não voltar (?) a engravidar, as nódoas negras com que ficava nas ancas quando tinha que dormir no chão, ao relento, ao frio, ignorada por muitas pessoas e julgada por tantas outras. E era claro que as feridas mais profundas e as equimoses mais dolorosas lhe ficaram foi no coração, porque as do corpo passaram quando começou a ter uma casa onde dormir. Até ontem.

depois do tempo suficiente, e de se ter cumprido o propósito daquele encontro, preparei-me para a deixar, já mais aliviada pareceu-me, e já sem tanto a transbordar sem ter quem a contivesse, escutasse, visse, e validasse. Deixei-lhe as minhas bençãos e um isqueiro com uma nota de duzentos euros desenhada (à laia de bom augúrio) em cima da mesa, quando ela me ofereceu a melhor prenda que recebi em muito tempo:

quando me levantei da mesa, ela levantou-se em simultâneo e perguntou-me se eu lhe dava um abraço.

Não posso dizer que fui inundado pela presença de deus mais do que a água é inundada por si própria, mas naquele instante a corrente tornou-se muito mais forte. E tive mais um daqueles momentos puramente sagrados: abraçámo-nos longamente e no final, dei por mim a ficar sem resposta perante as suas últimas palavras, senão a de seguir o meu caminho desajeitadamente, abençoando-a em silêncio, e agradecendo por aquele encontro, sem ter sido capaz de verbalizar o que me passou dentro quando ela me disse a última frase que lhe ouvi:

"foste o melhor que me aconteceu hoje"

e eu sem responder a única coisa que me teria feito sentido dizer,

ou isso ou o silêncio, e eu não sei se optei pelo silêncio, mas foi em silêncio que segui o meu caminho,

sem lhe dizer o que o meu Ser respondeu com todas as suas moléculas

"tu, Cândida, é que foste o melhor que me aconteceu hoje"

mas não o disse.

segui o meu caminho, cheio de Humanidade correndo-me dentro, e até o Chiado parecia outra coisa

e hoje acordei assim: muito mais rico graças a ontem.

e pensei,

o Sol entra em Virgem. Deixa-me preparar. Deixa-me despedir de Leão. Amanhã, 2ª feira, vou acordar e o Sol estará em Virgem. Deixa-me fechar este ciclo e preparar o ciclo novo. Não só por ser um novo dia, mas por ser segunda-feira, e por ser a primeira segunda feira do ano com o Sol já em Virgem: deixa-me preparar para sair de Leão e entrar na nova energia.

e então decidi:

hoje vai ser o meu junk day. Que fim glorioso para Leão, que véspera magnífica para Virgem.

para quem não sabe, o junk day é o dia dos excessos, para quem segue uma rotina (tipicamente, de alimentação, nutrição, e exercício): é o dia do "vale tudo". É o dia em que a gente se compensa do esforço, da disciplina, do exercício constante dos músculos da vontade, e nos mimamos com tudo o que nos apetecer, sem nos preocuparmos com a "qualidade" do que ingerimos (e a "dieta" de um homem, como expliquei no artigo sobre Júpiter em Virgem, não é só física: é emocional, mental, e espiritual). É o dia do descontrolo, por assim dizer - com vantagens evidentes além da de honrar a nossa própria humanidade, recompensarmo-nos pelo esforço feito, e assegurarmos à nossa personalidade que não a enfiámos num campo de concentração. É o momento Peixes de uma vida Virgem. Que serve igualmente como recompensa do ciclo anterior, como motivação para começar novamente de fresco no dia seguinte.

então eu decidi que hoje seria o meu junk day.

então tomei o pequeno-almoço fora de casa, comi pão, não fiz nada de produtivo, descarreguei um jogo novo para jogar no telemóvel, e decidi ir - ao fim de muitos meses sem o fazer - almoçar ao mac donald's e saciar a parte gordurosa de mim :)

comi dois cheeseburguers duplos, um smoothie, e certifiquei-me com a menina do balcão se podia trocar as batatas do menu por uma sopa. Quando ela me disse que sim, eu respondi: "nesse caso, prefiro as batatas". E molho. E ketchup. E fiz uma das descobertas mais fantásticas que poderia ter feito no Mac Donald's: a mostarda foi descontinuada. Na verdade, não sei bem se foi uma descoberta, porque tenho a vaga reminiscência (é tão difícil ser peixes) de, no início do ano, no algarve, da última vez que me lembro de me ter proposto ao descalabro, me terem dito a mesma coisa. Mas hoje tive a confirmação.

e eu pensei:

júpiter entrou em Virgem. Já não há mostarda no Mac Donald's. É o que se chama um bom princípio. Com sorte, qualquer dia descontinuam os hamburgueres. E as batatas. E não, não é um "pai, afasta de mim esse cálice". Porque o cálice, como a fonte, está lá sempre - e quem quer é que lá leva o cântaro.

e eu quis, hoje. E levei. E enchi o cântaro de gordura, carne suspeita, hidratos de carbono, com consciência quase plena do que estava a fazer, incluindo um cego voto de confiança no meu próprio metabolismo para carburar todo este lixo num instante.

e depois o junk day continuou: dali para o cinema. Fui ver o Missão Impossível. E depois, ainda a arrotar, voltei para casa e certifiquei-me de não fazer nada de produtivo até ter fome para ir comer outra vez. E saí de casa à caça de uma alheira. Que não encontrei. Por isso fui ao indiano e comi frango e arroz branco (valor nutricional: zero), com molho e especiarias. Paguei a conta, saí, e estava a chover. Abençoada chuva, que vem lavar o ciclo que se fecha, devolver fertilidade aos solos, e trazer alguma pacificação ao ardor do solo.

e depois pensei:

quando escrevi, de rajada, as quatro partes do meu artigo de Júpiter em Virgem, a Lua e Mercúrio estavam em Virgem. Pela chuva, é evidente que o Sol já entrou em Virgem. É hoje que começo a última parte do artigo. Ou amanhã - sabendo, na verdade, que tudo isso foi ontem que começou.

e depois cheguei aqui e pensei: pronto. Um último peidinho do Leão. Vou partilhar com o Aquário o meu fim-de-semana, o meu fim-de-ciclo, acabar de me fartar de mim próprio, tirar isto de dentro de mim. Amanhã começa um novo dia totalmente afim deste novo ciclo, para a semana vou um mês para a Indonésia, tenho trabalho pela frente que nunca mais acaba, visitas ao dentista com a avó e para mim também, tanto para deixar orientado para a minha ausência, compras, remédios, logística, mails respondidos, respostas em falta, clientes com urgências, pagamentos por fazer e agendar, actividades por organizar e divulgar antes de ir, prazos para enviar materiais para as conferências do ano que vem, pelo menos as da Sérvia e dos EUA,... e a cabrona da quinta parte do artigo que quero escrever senão qualquer dia já não me interessa...

de modes que,

estou muito contente pelo dia que Deus me permitiu oferecer a mim próprio, criar para mim próprio no passado, e começar a criar para o meu próprio amanhã.

com mais gordura no sistema, é certo, e açucar por processar, que não deixam de ter o seu lugar e função mesmo que não tenham valor nutritivo imediato:

amanhã retomo a rotina, hoje se calhar ainda pego no artigo, celebrei à minha maneira e escala nano-infinitimamente ridícula a transição de Leão para Virgem,

e pronto. Ainda venho dar música aos meus Amigos e confessar:

foi hoje.

 O meu perfectly imperfect day *





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