17 de agosto de 2015

Júpiter em Virgem: o deus das pequenas (grandes) coisas pt. 3/5



Johann Carl Loth - "Júpiter e Mercúrio visitam Philemon e Baucis"


Se leu atentamente as partes anteriores deste artigo, e tem um interesse essencial neste tema (mesmo que não tenha “estudos” eheheheh), já terá provavelmente uma ideia do que Virgem simboliza na vida, uma intuição do que Júpiter significa e propõe, e já deve estar farto de tantos pormenores e preliminares. É natural: mas ao menos agora sabe como se sente um Júpiter em Virgem: sem paciência para merdinhas, perdão, para detalhes – e a ter que levar com elas, porque quer queira quer não, é simplesmente esse o “espírito dos tempos”. De Júpiter em Virgem, pelo menos.


Por outro lado, é possível, para não dizer provável, que novos significados e dimensões não contempladas até agora possam resultar e brotar mais à frente, fruto desta leitura – e se for esse o caso, é só mais de Júpiter em Virgem: uma alegria para o escriba, e a prova de que o esforço, o meu e o seu, valeram a pena.

Meet Júpiter em Virgem.

Durante o trânsito de Júpiter em Virgem, podemos observar as manifestações desta energia a múltiplos níveis, em muitas dimensões da vida, do mais evidente e gritante, ao mais subtil, pequenino e discreto. Por exemplo, já se apercebeu da quantidade de formas diferentes pelas quais a “energia” de Júpiter em Virgem está presente neste texto, mesmo quando a isso não se refere explicitamente?

(e esta é a altura em que eu digo: “se eu pudesse oferecer-lhe algo mais, tipo brinde, com a leitura deste artigo, dar-lhe-ia o dom de ser capaz de reconhecer as manifestações energéticas a acontecer e a terem lugar a todo o momento, à sua volta,  em tudo quanto acontece – das notícias aos anúncios, das frases que ouve no café aos pensamentos que tem de manhã, quando acorda, aos desafios que se lhe colocam, às oportunidades que lhe surgem, aos testes que lhe são feitos, às imagens que surgem espontaneamente na sua mente.”

Somos energia vivendo dentro de um mundo energético, interactuando, e é inevitável que tudo quanto acontece expresse a qualidade das energias de cada momento. Ser capaz de identificá-las, reconhecê-las, e colaborar com elas é produto, e função, da Consciência. Consciência é a capacidade de reconhecer a perfeição do Espírito expressando-se e cumprindo-se através da imperfeição da Matéria. Outra maneira de dizer isso seria: Júpiter (Espírito) em Virgem (Matéria). E a dificuldade em reconhecer a perfeição no imperfeito: o exílio de Júpiter. E nessa conquista, o Amor. Ou a Consciência. Na minha terminologia, são sinónimos.

E não é esse, aliás, o ponto de partida da Astrologia? “O que está em baixo é como o que está em cima”, e o que está fora é como o que está dentro. E é esse, também, o ponto de chegada de todo misticismo: tudo é Um. Reconhecer o Um nos muitos, ou nos vários, é que é “a cena”. Mas adiante. É que eu agora não tenho aqui nenhum dom para lhe oferecer, e se o fizesse, estaria a prestar-lhe um mau serviço: afinal de contas, para que é que você quer a vida? Não é para ter a oportunidade de conquistar os seus próprios dons? Pois bem. Ora essa. Não tem nada que agradecer).

Virgem é o signo mais intimamente relacionado com a Matéria, a mater, a Mãe, Gaia. A fertilidade do seu solo. A pureza desinteressada com que gera alimento abundante e sustento para todos os seus filhos – nós, seres humanos encarnados sobre a Terra.

Simbolicamente, Virgem representa (isto é simbolismo, não é folclore judaico-cristão) a Virgem Maria gerando o Cristo (Peixes, signo oposto e complementar, regido por Júpiter) no seu ventre.

Virgem precisa seleccionar cuidadosamente os nutrientes com que vai nutrir o Cristo que tem em gestação no seu ventre, para lhe assegurar saúde, desenvolvimento harmonioso, sustento, nutrição, força. Precisa discriminar a qualidade daquilo com que se “enche”.

É que ela tem uma tarefa muito delicada, e essencial – a mesma tarefa que todos nós temos, de nutrir o Cristo – Alma – Coração - Princípio Amoroso em nós, sob pena de nunca nos cumprirmos como verdadeiros seres humanos e não irmos muito além do que somos, à partida: animais em forma humana.

Até que o Coração (o Princípio Crístico) no Homem desperte, o Homem ainda não o é. 

Enquanto os centros (“chackras”) acima do diafragma permanecem adormecidos, o Homem pouco é mais do que um animal com um cérebro humano (e temo estar a ser injusto para com, pelo menos, alguns animais): mas falta-lhe Coração. Anima. Alma.

O homem-animal é fantástico a sobreviver, a lutar por território e por defender suas posses e interesses pessoais, a competir, a enganar para chegar primeiro, a gratificar-se sempre que pode, a querer mais e mais do que o faz sentir-se "bem" e a fugir do que o faz sentir "mal", a acasalar, a reproduzir-se, e a procurar e depender de símbolos de status perante os outros animais do bando, do cardume, da vara, da cáfila, da sua aldeia dos macacos ou então do zoológico inteiro - mas não deixa de ser um animal com os recursos sofisticados que a inteligência humana conseguiu criar para sua própria conveniência e até masturbação: é o dentista assassino, armado de caçadeira, à solta no meio da savana. É o porco-espinho com o iPad, já que não tem como ter grande intimidade ou proximidade com alguém, sem que alguém se esfarrape todo; é o macaquinho com wi-fi a postar selfies das suas macacadas e a guardar só para alguns as fotos que tirou com bananas enfiadas em sítios esquisitos. É o tubarão da dentadura branca, com fato Armani e escritório de advocacia nas Amoreiras, a explorar gerações inteiras de sardinhas tontas e atuns enquanto se prepara para concorrer ao Parlamento (não será, Para Lamento?) Europeu.

É o fungagá, enfim, da bicharada, como dizia o Avô Cantigas. Só que as cantigas são outras...

Então Virgem representa, simbolicamente, o Cristo em gestação em nosso ventre. Todos temos um Cristo (o “pescador de homens”, o “salvador de almas”, o “redentor”: Peixes) para parir.

No Zodíaco, se contarmos nove meses (i.e., nove signos) no sentido da precessão dos equinócios (i.e., “para trás”) a contar de Virgem (Virgem, Leão, Caranguejo,...), chegamos a Capricórnio – o signo dos Mestres, de que o Cristo é expressão; o signo do culminar; o signo no qual ocorre o Solstício que coincide, de acordo com a tradição, com o nascimento de Cristo e aquilo a que chamamos Natal (veja, no Youtube por exemplo, o filme “Zeitgeist”, particularmente a partir do minuto 16´, para melhor compreender isto. Se clickar no link, encontra uma versão dobrada e legendada em brasileiro).

Capricórnio é o nascimento (numa manjedoura: Caranguejo, signo oposto e complementar de Capricórnio) do Cristo. Cristo é Peixes. E Virgem, a delicada e sagrada gestação do Cristo em seu ventre (“Bendito é o fruto de vosso ventre, Jesus”). E, em certo sentido, todos somos Virgens. E Cristos em potencial.

Existe um mistério profundo na relação entre Virgem e Peixes, do qual este é só um dos aspectos. Aliás, existem mistérios imensos em todo o Zodíaco, do qual este é só uma parte. E de tudo o que poderíamos querer, ou conseguir abarcar, de toda a universalidade contida numa rodinha aparentemente tão simples, parece que vamos ter que nos contentar com um fragmento apenas, ou o artigo não avança.

... até parece que é Júpiter (que rege Peixes) a passar em Virgem. Chiça!

Virgem representa pureza, perfeição, discriminação da qualidade essencial do que se nos apresenta (não é julgamento: é discriminação. Como dizia alguém que eu conheço, uma coisa é distinguir: isto são batatas, aquilo são cebolas; outra coisa, é julgar: as batatas são boas e as cebolas são más. Se o que queremos é fazer um refogado, descascar batatas é uma inútil perda de tempo. Mas se queremos fritar batatas, é uma tonteria pormo-nos a descascar cebolas e a chorar).

Todos nós sabemos que, na ausência de discriminação, a um homem com um martelo tudo lhe parece um prego. E que se precisarmos muito, muito de encontrar um príncipe, é altamente provável darmos por nós a engolir sapos.

Discriminação, gente: discriminação. Mais do que uma “característica” de um signo, embora Virgem a simbolize bem, a discriminação é, antes de mais, uma qualidade superior da inteligência não toldada pela cegueira dos instintos, desejos, conveniências e demais dimensões da nossa própria inconsciência.

Porque só através da intuição (e não do raciocínio, que muitas vezes só serve para justificar o que desejamos, cremos, e queremos), do desapego amoroso, da objectividade, e da capacidade de aceitar o que É sem que isso se intrometa nos nossos planos, fantasias, idealismos ou desejos – sem que a “realidade”, uma vez reconhecida e aceite, venha furar a nossa bolha, por assim dizer, é que é possível discriminar, reconhecer as coisas pela qualidade (i.e., vibração) que emanam, e – só assim – ter a liberdade, e a capacidade de escolher se nos queremos meter nisso ou não.

Uma coisa é Peixes integrado com Virgem: confiar que o sapo contém em si o potencial de príncipe (afinal, todos temos. E quem diz o potencial de príncipe, diz a natureza de Buddha. Concerteza que sim.), mas reconhecê-lo como sapo, enquanto não se ilumina.

Outra coisa é Peixes sem Virgem, i.e., ficar fascinado com o potencial de Buddha do sapo, e cego à evidência de que, de momento, é só mesmo um sapo o que tem à frente: é que embora todos tenhamos a natureza essencial de Buddha, o facto é que há diferenças importantes entre um Dalai Lama, um Joseph Stalin, ou um Hitler.

Ou Virgem sem Peixes, que é ficar focado nas diferenças, nas especificidades, e nas (aparentes) limitações - sem ser capaz de reconhecer que em cada sapo, habita um Buddha.

Peixes sem Virgem, pelo contrário, é conhecido por acreditar que se sofrer o suficiente, se se sacrificar o suficiente, se acreditar o suficiente, se meditar, orar, rezar, fizer figas, e mezinhas, e der de si, mais e mais, o suficiente (sendo que dificilmente alguma vez reconhecerá algum limite, se não há discriminação), o sapo, eventualmente, transformar-se-á em príncipe. E todos os sonhos, expectativas, e sacrifícios (o carro espatifado pelo sapo, o ouro no prego, os sofás queimados pelas pontas de charros dos amigos do sapo, as garrafas de vodka espalhadas pela casa - vazias, é claro, quer as garrafas, quer a casa -, os cortes no sobrolho e as nódoas negras mal disfarçadas, as cenas de polícia à porta com os vizinhos no meio da rua de madrugada, as surpresas com o cartão de crédito) - tudo isso terá valido a pena.

(se o príncipe não der, entretanto, um chuto no cu quando estiver servido, enquanto arrota de satisfação e vai coaxar para outro lado, talvez ainda haja, afinal, "potencial não delapidado" - é a linguagem dos diamantes... assim, em bruto).

- deve ser por isso que o exemplo é tirado dos contos de fadas. Virgem é a dura realidade; Peixes, a doce fantasia. Peixes sem Virgem é um filme - e Virgem sem Peixes é um tédio -

Mas Virgem requer, de nós todos, o delicado trabalho de discriminação. E Júpiter vem ajudar. Porque afinal, é com a qualidade daquilo que alimentamos, e de que nos alimentamos na vida, que apoiaremos, ou boicotaremos, a Vida sagrada que se nos move dentro. E se, como dizem os nutricionistas, nós somos aquilo que comemos (e somos!, diz o metafísico em mim, só que nós não comemos só pela boca, mas por todos os poros e moléculas do nosso corpo energético), então temos que prestar muita atenção à nossa dieta: física, emocional, mental, e espiritual.

Com que alimentos, sentimentos, pensamentos, ideias, ideais, aspirações, relações, pessoas, interesses, usos de energia e tempo, nos nutrimos - e nutrimos os outros? Qual é a qualidade essencial do que temos na nossa vida?

Para tudo isso é preciso Virgem. É fundamental, e Júpiter dar-nos-á uma ajuda nisso, aprendermos a distinguir o que é mais nutritivo para o (nosso) Cristo: com todas as implicações que isso tem, e já exploraremos algumas delas.

Júpiter em Virgem pode ajudar-nos a abrir os olhos para este tipo de verdades, porque por onde quer que Júpiter passe, ele sempre repõe uma Verdade.

Por outro lado, Júpiter em Virgem também nos vem ajudar a reconhecer, a repor, ou a exigir o sagrado, o divino, e o transcendente naquilo que anteriormente nos parecia vazio ou sem sentido: eu posso reconhecer mais facilmente (ou começar a precisar realmente de encontrar) a sacralidade do que faço, mesmo que o meu trabalho seja varrer ruas, desentupir sarjetas,  ou passar a ferro.

Se não há dimensão transcendente no meu trabalho (porque Virgem rege o trabalho, o dia-a-dia, a produtividade quotidiana), Júpiter em Virgem traz a insatisfação e a necessidade de ir mais longe.

Se eu estava cego para o potencial de Amor ou Serviço que existe no que faço, Júpiter pode trazer-me uma compreensão maior do meu trabalho a meio do grande esquema das coisas.

Como dizia o poeta, “qualquer tolo pode contar quantas sementes há numa maçã. Mas só um sábio pode saber quantas maçãs existem numa semente”.

Ou como contava um monge budista, “antes da iluminação, eu tirava água do poço e rachava lenha, e a água era água, e a lenha era lenha. E depois da iluminação, continuei a tirar água do poço, e a rachar lenha. Mas a água era Deus, e a lenha era Deus”.

Júpiter em Virgem, assim: maior qualidade naquilo que fazemos. Mais Espírito presente na Matéria. Trabalho, nas palavras de Kahlil Gibran, é Amor tornado visível.

Na próxima (e última) parte deste artigo, exploraremos algumas das manifestações prováveis mais “concretas”, e oportunidades ao nosso alcance, de tornarmos esta passagem de Júpiter por Virgem uma benção verdadeira – até aqui, focámo-nos mais na sua dimensão mais “espiritual”, ou de Consciência.

Mas porque é nosso trabalho aprendermos a reconhecer o Espírito na Matéria, uma vez que já aflorámos a dimensão do espírito, que é a mais importante para Júpiter, vamos explorar – lá à frente, na próxima parte: Júpiter sempre se ocupa do que lá está mais à frente – que transformações e manifestações desta magia podemos esperar encontrar, a partir do momento em que a fertilização da Matéria pelo Espírito começou, há cinco dias atrás, a receber este tremendo boost de Júpiter (ainda só passaram cinco dias, e ainda temos um ano pela frente).

Um ano, e só mais uma parte de artigo. Mas não deixa, por isso, de ser Júpiter em Virgem: é a desmultiplicação das partes :-)


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