16 de agosto de 2015

Júpiter em Virgem: o deus das pequenas (grandes) coisas pt. 2/5



Dosso Dossi - "Júpiter, Mercúrio e Virtude"


Ensina a tradição astrológica que para cada um dos sete planetas tradicionais (Sol, Lua, Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno) existem signos onde estes se “sentem” particularmente bem e outros onde os planetas se sentem mais desconfortáveis;


signos onde os planetas se podem expressar de forma mais fácil e de acordo com a sua natureza e essência, e signos onde os planetas têm mais desafios no momento de se cumprirem nas suas naturezas específicas;


signos onde os planetas se sentem “em casa” e signos onde os planetas se sentem num “ambiente” energético que é quase, diríamos, o oposto do que lhes é intrínseco, natural e espontâneo.


Os signos onde os planetas se sentem “em casa” (ou “domicílio”), são os signos das suas regências, e os signos opostos a estes são chamados os signos do seu “exílio”, ou detrimento.

os domicílios astrológicos segundo a Tradição

Por exemplo: quando está em Carneiro, o planeta Marte pode expressar facilmente a sua natureza combativa, impetuosa, ígnea, impaciente, activa, confrontacional, auto-afirmativa, e tendencialmente individualista, numa atitude tipo “eu, já, e eu primeiro” .


Em Carneiro, Marte está em domicílio. Há uma tal afinidade entre Marte, o planeta da guerra, e Carneiro, o primeiro signo do Zodíaco simbolizando o nascimento, a afirmação e a sobrevivência de algo de novo, e pela primeira vez, que quando Marte se encontra em Carneiro, está em casa. Marte está em domicílio – e expressa-se de uma  maneira muito “pura”, forte, e não depende de nenhum outro planeta para funcionar, i.e., não tem dispositor: dispõe de si próprio [1].


Quando está no signo oposto/complementar ao signo onde encontra o seu domicílio, um planeta está no seu “detrimento”, ou exílio. No nosso exemplo, Marte em Balança (signo oposto e complementar de Carneiro) já não pode agir simplesmente como Marte: precisa levar em consideração a natureza da energia de Balança, que é harmoniosa, conciliadora, diplomática, mais refinada e socialmente consciente, referente ao(s) outro(s) e orientada para relacionamentos.


Em Balança, Marte já não pode agir para afirmar o “eu, já, e eu primeiro” (Carneiro) sem incluir o outro: “eu contigo: se tu quiseres e quando puderes – mas vê lá se te despachas, para ganharmos – ou não perdermos - os dois!”. Do ponto de vista de Marte, todo o processo lhe é anti-natural, pouco familiar, e, no extremo, o oposto do que Marte, por si mesmo e para honrar a sua própria natureza, “é” e “quer”.


A ideia é portanto esta: quando um planeta está em domicílio, expressa-se de maneira pura, forte, e tem a capacidade de avançar os seus próprios objectivos sem precisar de consultar mais ninguém (i.e., sem depender de nenhum outro planeta).


Quando, pelo contrário, um planeta está em exílio (i.e., no signo oposto e complementar ao da sua regência/domicílio), precisa aprender a integrar polaridades, i.e., a manejar o oposto daquilo que lhe é mais natural, a desenvolver tolerância pela ambiguidade, aceitação do paradoxo, para integrar – e não extrapolar – os extremos opostos, aparente ou temporariamente irreconciliáveis, e que precisarão ser integrados numa síntese criativa que resolva - e eleve a outro nível de expressão - a tensão anterior entre polaridades.


E precisa, além disso, de aprender a dialogar com o seu dispositor – dispositor que terá, como é de ver e antecipar, qualidades e características largamente antagónicas, ou nos antípodas, do planeta exilado.

Por exemplo, Vénus em Carneiro precisa dialogar com Marte, Lua em Capricórnio com Saturno, Júpiter em Virgem precisa chegar a termos com Mercúrio.


Recapitulando:

Um planeta em domicílio está portanto em casa, e manda: um planeta em exílio tem que fazer malabarismo, adaptar-se, e lidar com o que lhe é estranho - alheio, diferente, oposto – para conseguir funcionar minimamente, e raras vezes da forma ideal para o planeta: e além disso, tem que chegar ao diálogo com o dono da casa, fazer-se ouvir, ouvir o outro, e aprender a ceder largamente em termos daquilo que per se, e mais espontaneamente, faria - se pudesse.

Encontrar um certo compromisso, ou melhor, uma certa integração entre a sua natureza, o signo onde se encontra, e a natureza do seu dispositor parece, pois, ser a forma de um planeta exilado funcionar: pois um planeta nessa condição não está em condições de impor condições nenhumas. É um "convidado" na casa de outro planeta - e esse seu anfitrião não deixa de lhe parecer, dada a sua "psicologia" (ou natureza), bastante "estranho".


Então um planeta em exílio não pode expressar-se no seu melhor: na sua essência, na sua glória, no seu poder, no seu impulso imediato e espontâneo. O que de melhor pode fazer, esse planeta exilado, é trazer para a equação a sua natureza, e tentar fazer o seu melhor perante as circunstâncias (deterioradas) em que se encontra.


Mas isto também pode querer dizer (acredito eu) que, ao final do dia, um planeta em exílio ampliou, e muito para lá das suas possibilidades originais, a sua capacidade de funcionar energeticamente. Passou o tempo aflito, è vero, mas se aceitou continuar a tentar desenrascar-se e cumprir-se, apesar dos pesares, ao fim e ao cabo - aprendeu muita coisa nova que não aprenderia de nenhuma outra maneira.

- aliás, por que é que haveria de aprender, a não ser que fosse "obrigado"? Recorde esta definição genial, que não sei a quem pertence senão creditá-la-ia (com Saturno a preparar-se para entrar em Sagitário, ou respeitamos os direitos de autor e a propriedade intelectual, ou depois dizemos que tivemos azar): "educar é frustrar com Amor". E é isso que a Vida nos faz. Haja, assim, Amor em nós para o poder reconhecer, agradecer, e aproveitar -

então um planeta exilado é educado pela Vida e treinado a funcionar num ambiente que lhe é estranho - ganda benção, pá! - quem é o montanheiro que quer passar a vida inteira sem nunca ver o oceano, o que sabe (ou ama, do campo) um camponês que nunca foi à cidade? Pobre criança citadina que nunca viu um frango vivo e fora de uma couvette.

Essa é a grande benção de ter um planeta exilado, ou em detrimento.


O problema (o problema, não: o desafio) é que às vezes um planeta numa destas condições sente-se tão desterrado, isolado, à mercê, incompreendido, fundamentalmente sozinho e sem apoio que acaba por desenvolver um padrão rígido - e tipicamente disfuncional - para assegurar a sua própria sobrevivência num ambiente demasiado inóspito; e sempre que o registo é o da sobrevivência, podemos ter a certeza, acontecem duas coisas: primeiro, a dor (e a sua reencenação) torna-se o princípio dominante do funcionamento psíquico; segundo, a possibilidade de aceder às suas próprias funções "superiores" fica severamente comprometida – mas isso é outro assunto e não cabe no âmbito deste texto. Mas estou a trabalhar num livro onde aprofundo e expando estas ideias e ensino, como tenho vindo a fazer há década e meia, a aplicar todo este conhecimento astrológico à vida espiritual, psicológica, e "prática".


Tudo isto era apenas para justificar, e exemplificar, a relação que cada planeta tem com determinados signos, particularmente aqueles do seu domicílio (os signos que rege) e do seu detrimento (os signos opostos aqueles).


É que estes conceitos, particularmente o de detrimento, é uma ideia importante para compreender o ingresso de Júpiter em Virgem.


É que Júpiter, estando em Virgem, está no signo do seu exílio (assim como quando está em Gémeos). Quando voltar a Sagitário (Novembro de 2018) e a Peixes (Maio de 2021), Júpiter estará novamente dignificado: puro, forte, “auto-suficiente” ou, pelo menos, “auto-determinado”.


« Espelho meu, espelho meu, existe algum Júpiter mais forte do que eu? Em Sagitário e Peixes, não acredito, senhor, de todo; mas em Gémeos ou Virgem - aí já pensaria duas vezes; e já teria mais cuidado. »



E já reparou que Júpiter “manda” onde Mercúrio “patina”, e Mercúrio “manda” onde Júpiter se sente “apertado” – ? Hum?


O que também implica que os desafios a Júpiter são maiores quando “depende” de Mercúrio (i.e., quando está em Gémeos ou Virgem) para “lá” chegar; da mesma maneira que Mercúrio fica um pouco “à toa” num mundo demasiado grande e povoado de abstracções, quando precisa cumprir-se através de signos regidos por Júpiter (Sagitário e/ou Peixes).


Agora: saiba, constate, recorde ou reconheça que Mercúrio é a mente racional e Júpiter a fé: a fé fica aquém de si própria quando depende da mente, e a mente por si só não chega para chegar... à fé.


E por enquanto, e durante todo este período entre Agosto de 2015 e Setembro de 2016, Júpiter – o planeta do idealismo, da expansão, da fé, do optimismo (Sagitário) e da compaixão, da unidade, e da fé no desconhecido e no invisível (Peixes)  – pode sentir-se meio desafiado, constrangido, apertado e limitado no signo de Terra regido por Mercúrio; afinal, Virgem é o raciocínio concreto operando sobre o “real” - enquanto Júpiter é o entusiasta impulsionador da expansão e do crescimento inspirados pela fé em possibilidades futuras, e estas não estão aqui e agora, disponíveis como provas cabais de realidades concretas, passíveis de análise, raciocínio, dedução, e “resolução” (ou estão?).


A não ser que Júpiter aprenda a integrar polaridades – isto é, que integre o binóculo (Júpiter) com o microscópio (Virgem) – e descubra como cumprir-se por via de um processo que não lhe é de todo familiar. É a condição (é o karma, diríamos) de estar em detrimento, ou exílio.


Espero com este artigo poder vir a dar-lhe uma visão ampla (Júpiter), embora humilde nas suas limitações (Virgem), de como pode fazê-lo na sua própria vida.


Não será provavelmente a ideal: mas olhe, é a possível.


« Homem!, você é um perfeito idiota!
Não diga isso, senhor; porque ninguém é perfeito."


Além, e acima de tudo, não nos podemos esquecer de uma coisa: melhor ou pior, Júpiter – dada a sua natureza – promete a cura, confiança, novas oportunidades, sabedoria, optimismo, expansão, e horizontes maiores a todos os assuntos humanos representados por Virgem.


Por isso não desista, não se enfade, e continue a ler. Estamos quase a terminar as abstracções jupiterianas. E quase, quase a entrar nas miudezas de Virgem.


Precisamos apenas, antes, de nos situar; ganhar perspectiva sobre o caminho percorrido e a percorrer; e manter em mente todas estas ideias - se possível - porque são essenciais para o leitor compreender - e chegar às suas próprias conclusões, que ainda é o mais importante e valioso de tudo - sobre o ingresso de Júpiter em Virgem.

Então, em nome de Júpiter, não esmoreça já por causa das tecnicidades "virginianas". Já percebeu, por esta altura, que não se faz caminho para Júpiter que não passe por Mercúrio...



Situando-nos no tempo e nas energias


Desde Outubro de 2012 que Saturno tem vindo a transitar em Escorpião - até entrar, no fim de Dezembro de 2014 e pela primeira vez em vinte e nove anos, no signo de Sagitário– apenas para retrogradar pouco depois de lá ter entrado e só lá voltar, e em definitivo, a partir de Setembro de 2015.


O que significa também que desde Setembro, a partir do momento em que ingresse em Sagitário e até que saia de lá, no final de 2017, Saturno terá Júpiter (regente de Sagitário) como seu dispositor.


Esse é um motivo adicional para reflectirmos profundamente no significado de Júpiter em Virgem, e compreendermos a sua importância também como dispositor de Saturno durante o seu trânsito por Sagitário – do mesmo modo que foi Plutão em Capricórnio, durante todo o tempo de Saturno em Escorpião, o dispositor de Saturno – focalizando assim muita da sua acção sobre os domínios e assuntos de Capricórnio: economia, finanças, status, poder, autoridade, responsabilidade pública, e todo o tipo de estruturas sociais que mantêm, e expressam, o status quo e o paradigma colectivo dominante. E fazendo de todas as transformações a que assistimos neste âmbito, nos últimos anos, duplamente intensas durante todo o período da recepção mútua [2] entre estes dois planetas: Plutão em Capricórnio e Saturno em Escorpião.


Para compreendermos melhor a passagem de um planeta por um signo, é fundamental pois compreendermos também a condição do seu dispositor e a relação entre ambos.

Então no espaço de muito pouco tempo (Agosto/Setembro 2015) duas mudanças energéticas significativas acontecem envolvendo os dois planetas “sociais”: Júpiter ingressa em Virgem, e pouco depois Saturno ingressa em Sagitário – e até que Júpiter mude novamente de signo, em Setembro de 2016, esta será a situação: Saturno em Sagitário disposto por Júpiter em Virgem.


Mais à frente, quando Júpiter entrar em Balança, será Saturno em Sagitário disposto por Júpiter em Balança.


E ainda mais à frente, quando Saturno entrar em Capricórnio, será Saturno em domicílio: puro, forte, e com poder para dominar com a sua própria agenda. Os anos de 2018 a 2020 serão, parece, os anos em que uma verdadeira reconstrução social, política, financeira parece finalmente começar a ser possível. E será esse também, o marco que assinala a era – a verdadeira era – das grandes corporações mundiais e das federações internacionais, conforme representantes de um futuro longínquo, pelo menos nos filmes de ficção científica que víamos na nossa infância, e simultaneamente, a preparação para a entrada de Plutão em Aquário.


Mas isso é futurologia (ou nem tanto, para a mente astrológica – é apenas uma constatação da evolução provável das energias e das suas manifestações).


E nós estamos aqui para falar do(s) presente(s).


E o(s) presentes são (de) Júpiter em Virgem a dispor de Saturno em Sagitário.


Saturno em Sagitário é, como já lhe chamámos neste artigo, a factura da sorte, ou melhor, uma tremenda fiscalização ao Júpiter (verdade, ética, alinhamento, crenças, filosofia, fé, sabedoria, em suma) de cada um, o teste de quão “verdadeira”, sólida, fundamentada, “real” é a “espiritualidade”, a visão luminosa de cada um.


E Júpiter em Virgem, o período em que podemos “aperfeiçoá-la”.


Quer saber como?






[1] O “dispositor” do planeta A é o planeta regente do signo onde o planeta A se encontre. Quando um planeta está em domicílio ele é o seu próprio dispositor, i.e., rege o signo onde ele próprio se encontra.


[2] Quando o planeta A está no signo do planeta B, e o planeta B está no signo do planeta A, estamos perante uma recepção mútua, i.e., os planetas dispõem-se mutuamente

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