24 de setembro de 2015

Júpiter em Virgem: o deus das pequenas (grandes) coisas pt.1/5



Bonoventura Genelli - "Jupiter on the wings of night"


No dia 11 de Agosto, quero dizer, há meia dúzia de dias à data em que escrevo isto, Júpiter ingressou no Signo de Virgem (não confundir com “constelação”, senão nunca mais percebe nada de Astrologia – nem de Astronomia, para o caso) e aí transitará durante um ano.

Para facilitar a tarefa do escriba - que se propõe ao longo deste artigo tecer as suas próprias considerações sobre as oportunidades e o potencial dessa combinação - o ideal seria que o leitor tivesse um conhecimento relativamente sólido e amplo sobre o simbolismo astrológico, em particular – como é evidente – sobre Júpiter e sobre Virgem, e sobre todas as suas interacções energéticas e simbólicas.

Aliás, o ideal nem seria isso: o ideal mesmo seria que o leitor pensasse, soubesse, ou pensasse saber (o que raras vezes é a mesma coisa), sobre Virgem e Júpiter, as mesmas coisas que o escriba pensa, sabe, ou pensa saber.

Assim, a tarefa comunicacional do escriba estaria facilitada: e poderia elencar, directamente, as suas ideias e crenças sobre o que significa, implica, propõe e simboliza este trânsito astrológico que nos envolve a todos durante os próximos doze meses. Sem explicações, referências, introduções, contextualizações, notas de rodapé, revisões ou anúncios.

Isto é, sem precisar de explicar em que conhecimentos e raciocínios se baseiam, ou fundamentam, as suas crenças, conclusões, e miopias; mas todos sabemos que quando contamos uma anedota com referências culturais específicas, desconhecidas do nosso interlocutor, estamos condenados a ter que explicar a piada perante o sorriso amarelo, ou de boa-vontade forçada, do outro, que por não partilhar connosco de um referencial comum, não tem como achar piada ou compreender a punchline a não ser que o contextualizemos.

Um americano, por exemplo, dificilmente vai perceber por que é que os portugueses fazem dos alentejanos personagens das suas anedotas (and no, Portugal is not uma província da Spain), da mesma maneira que um noruguês provavelmente não perceberá por que é que os brasileiros fazem dos portugueses os alentejanos (ou as louras) das suas piadas.

Da mesma maneira, e pela mesma ordem de ideias, se eu trouxer à cidade um esquimó, e lhe mostrar na avenida um carro que passou com o vermelho dizendo “aquele esperto está a habilitar-se!” (e assumindo, mesmo assim, que o faço numa língua que ambos compreendemos), é pouco próvavel que o esquimó, mesmo que compreenda as palavras, compreenda também o sentido do que estou a querer dizer – pois se nunca viu um semáforo, não conhece as regras do trânsito nem o simbolismo vinculativo das três cores,... que sentido fará isso para ele, sem mais explicações?

E isto, para não sublinhar também os restantes condicionalismos que levam a dificuldade ainda mais longe - isto é, sem falar no sentido de “habilitar-se” (conhecerá o esquimó, ainda mais além do significado da palavra, a noção de sorteio, a ironia, o sentido figurativo da expressão?), e muito menos de “esperto” (saberá o esquimó reconhecer a ironia, se não estiver habituado a falar a nossa língua com todas as suas nuances, polissemias, e diferentes usos para as mesmas palavras?).

- e não, não vale argumentar que em contrapartida os esquimós têm dezenas de palavras diferentes para designar “neve” e nós só temos uma – além disso não ter nada a ver com o raciocínio que estava a ser desenvolvido, isso é só um boato, um rumor, folclore. Das três, se tiver que escolher uma, escolho “boato”: já que foi a partir de Franz Boaz, em 1911 mais precisamente, que essa ideia estapafúrdia, sedutora e contagiosa (como tantas outras coisas estapafúrdias, infelizmente) começou a propagar-se como um incêndio em fardos de palha (ou deveríamos dizer, como fardos de palha na imaginação dos burros?) e, à força de ser repetida indiscriminada e insistentemente sem nenhum filtro, averiguação ou espírito crítico, começou a ser geralmente aceite como verdade – como acontece aliás com muitas das estapafúrdias ideias humanas, e com as piores, geralmente, o que faz delas eminentemente perigosas apesar de aparentemente inofensivas –

De modo que não, o esquimó não tem trinta palavras diferentes para designar “neve”. 

Nem trinta palavras, nem o hábito de ver semáforos.

E para termos a certeza de que o esquimó compreenderia o nosso comentário sobre o esperto que se estava a habilitar no meio do trânsito (e, neste ponto, “habilitar a quê?”, pergunta que só por si já exigiria uma série de compreensões prévias por parte do esquimó, seria totalmente legítimo e oportuno: e o facto de não termos resposta concreta para dar ao esquimó apenas nos devolve ao carácter altamente metafórico e figurativo de toda a frase; se o esquimó conhecesse, ao menos, as manigâncias da autoridade tributária para controlar os contribuintes através da ganância, ainda podíamos, explorando as intersecções súbitas de sentido em que se baseia o humor, dizer “ao Audi”, mas isso só nos complicaria ainda mais a vida e faria com que tivéssemos ainda mais, muito mais para explicar,... se o conseguíssemos, sem transformar a explicação da piada numa longa consideração sobre a natureza humana),

para termos a certeza de que o esquimó compreenderia o nosso comentário sobre o esperto que se estava a habilitar no meio do trânsito, dizíamos nós, precisaríamos primeiro de o contextualizar: e só depois disso, contando ainda assim com a sua inteligência, poderíamos ter a esperança (ou a expectativa) de que o esquimó compreendesse o comentário “aquele esperto está a habilitar-se”, a propósito do carro que passou com o sinal vermelho. E por essa altura, evidentemente, já o carro estaria demasiado longe e o comentário já seria totalmente extemporâneo.

Mesmo – ou principalmente – se fosse um Audi.

Mas isto não é o escriba a fazer do leitor, esquimó. Mesmo porque esquimó significa “comedor de carne crua” – e independentemente dos hábitos, gostos, preferências e polissemias semânticas próprias do leitor, o que o escriba tem para partilhar já vem parcialmente digerido, cozinhado, temperado, e lá por ser servido de bandeja – não significa que tenha de ser comido.

De modo que isto tudo é apenas para explicar que o ideal seria que o leitor tivesse de Júpiter e Virgem os mesmos preconceitos, crenças e atribuições que tem o escriba – que estivesse num transe idêntico (já que cada um está no seu próprio transe, e o perigoso não é tanto estar num transe; é não reconhecer o transe e levá-lo a sério, como se fosse “real”), por assim dizer: uma miopia idêntica, uma ignorância da mesma natureza, qualidade, e tamanho.

E por falar em tamanho, “adiantemos” já uma das ideias mais importantes para compreender o resto do artigo: Júpiter, o maior planeta do sistema solar e o “deus dos deuses” na mitologia olímpica, está associado com o crescimento, a expansão, o que é grande, maior, ou se amplia para conter mais e melhor mundo –ampliação e visão de conjunto, por assim dizer; e Virgem, o signo de Terra mutável regido por Mercúrio, está associado com as coisas pequenas, os detalhes, a análise, a discriminação, a separação (eu costumo chamar a Virgem o signo dos mil milhões de merdinhas com que todos temos que lidar diariamente para manter o nosso mundo a funcionar com um mínimo de ordem) – então Júpiter em Virgem seria o planeta do “grande deus” a ingressar no signo do “pequeno pormenor”, por assim dizer.

E é esse o motivo por detrás da nossa escolha de título, clarificando: se na última vez que Saturno (planeta – e “deus” – da limitação, da dificuldade, do peso, da negação e do esforço concentrado) passou em Virgem (Setembro 2007 a Julho 2010) este vosso escriba se fartou de recordar, a quem o quisesse ouvir (ou ler), que “o diabo (Saturno) mora nos detalhes (Virgem)” (Saturno é, de certa forma, também Satã), então Júpiter em Virgem - sendo Júpiter o deus supremo do Olimpo (e toda a psique humana é um Olimpo particular, o que faz com que toda a Vida tenha, ela própria, o seu próprio Olimpo nascido dos Olimpos) – é “o deus das pequenas coisas”.

Que é como quem diz, o perto se faz longe; uma viagem de mil quilómetros começa com um passo; ou muitas pequeninas mudanças resultam numa grande mudança – ou será que o bater das asas da borboleta em Tóquio já não provoca tufões em Nova Iorque?

Não é preciso invocar a Teoria do Caos para expandir as ideias deste artigo.

Mesmo porque se Júpiter adora teorias, a verdade é que Virgem abomina o caos.

Talvez seja por isso que Virgem representa uma oportunidade (ou deveríamos dizer, uma necessidade?) de pôr a Vida em ordem –

- e Júpiter aí, as bençãos a que nos abrimos quando nos abrimos a fazê-lo.


Júpiter e Virgem: explicando a piada ao esquimó

Não é assim tão inocente, acidental, ou disparatada a imagem de ter de explicar uma piada a um esquimó – Júpiter representa o que é distante, longínquo, diferente; outras culturas, outras visões do mundo, religiões, filosofias, fés e crenças, a ampliação das visões particulares que as vai tornando cada vez mais universais, ou conduzindo na descoberta de um substrato comum. É a eterna expansão e busca de um conhecimento cada vez mais abrangente, por isso necessariamente mais abstracto e essencial, como uma filosofia perene, uma sabedoria arcana, a unidade transcendente – parafraseando o Frithjof Schuon – por detrás das religiões.

Em sânscrito, Júpiter é “guru” – aquele que aponta, mostra ou revela o caminho. A seta de Sagitário, signo regido por Júpiter, aponta a direcção inequívoca, orientada, vamos dizer – crédula, optimista, ou confiante (“ter” ou “fazer” fé, como dizem os franceses, é confiar, acreditar, fazer a aposta, avançar na direcção tida como certa, melhor, ideal, ou segura – apostar no que não nos desaponte: e não deixa de ser curioso, e evidente, que para nos desapontarmos, temos que ter feito pontaria antes, e todos apontamos para algum lado, todos acreditamos nalguma coisa, todos vivemos condicionados (ou ampliados) pela natureza das nossas crenças – não sabemos é da qualidade nem da relevância do alvo que nomeamos, i.e., em que “acreditamos”; mas essa é precisamente a pró_cura jupiteriana, parte fundamental da sua busca e não há como haver, portanto, nenhuma resposta prévia à experiência – o que pode, sim, haver é uma sequência de respostas nascidas da experiência - e cada vez, se deus quiser, mais “afinadas” ou bem “apontadas” a alvos mais "fiáveis").

Júpiter simboliza, portanto, a busca, por parte do Homem, de um sentido, de um significado “maior” para a sua existência. Leis humanas baseiam-se na crença do que é bom, correcto e justo; leis universais, na compreensão natureza do cosmos manifestado, nos princípios inteligentes que o organizam, estruturam, e explicam. Leis físicas, no estudo e compreensão das limitações e regras do mundo material. Leis espirituais, na natureza do espírito humano. Leis civis, no que é considerado como “verdadeiro”, “bom” e “correcto” para um conjunto de seres humanos. Leis marciais, no poder decisório de uma autoridade militar.

Os seres humanos, que são sumamente espertos a querer passar pelas malhas da rede, a ignorar princípios universais e a agarrarem-se a exemplos e casos concretos, a ignorarem a ética para se defenderem com a “letra da lei” (pense, por um instante, na diferença entre “legal” e “ético”, e terá um vislumbre da dimensão de propósito, sentido, ou valor mais elevado a que Júpiter se refere, e que está – tantas vezes – tão mais além do que pelos homens é considerado “legal”),

estes humanos espertos que também gostam de fintar semáforos quando aparentemente não há consequências à vista nem polícia a ver (como não há polícia à vista, acham que não há mais lei nenhuma, autoridade nenhuma, nem consequência nenhuma para as suas próprias acções, isto é, que quebram as leis e saem impunes: talvez seja assim com as leis dos homens, mas não com as leis maiores a que Júpiter se refere – pelo menos é nisso que o “meu” Júpiter acredita, e cada um é absolutamente livre – e responsável – de viver de acordo com aquilo em que acredita,

estes humanos espertos tiveram de criar trinta e cinco mil milhões de leis para se obrigarem a cumprir dez simples mandamentos. Júpiter fala de sabedoria, de princípios éticos, baseados numa visão do mundo, do Homem e do seu lugar no universo. Júpiter fala dos princípios por detrás dos mandamentos, ou – para o caso – do “espírito” que presidiu à elaboração de uma Constituição, i.e., a “visão particular” por detrás da “Lei Fundamental” de um país, cultura, ou sociedade.

O que Júpiter intui como princípio abstracto, ou Lei, Mercúrio traduz em ideias, conceitos e palavras, justifica-as, racionaliza-as, argumenta, organiza logicamente  e encadeia os raciocínios, enfim, organiza-as, explicita-as, e torna-as comunicáveis, i.e., passíveis de serem compreendidas e postas em comum.

Um pouco como este escriba, que teve uma visão, uma imagem, uma ideia, um apelo, uma intuição integradora - e agora está sentado há várias horas a encaixar um milhão de peças para compôr uma unidade minimamente organizada, sequencial, lógica, interpretável e compreensível, para tentar fazer deste milhão de peças bem encaixadas a representação o menos imperfeita possível da ideia, ou da imagem original, no seu sentido, significado, implicações, associações, e poder primordial – que vem muito mais da sua essência e qualidade originais do que da forma como é reconstituída, montada, apresentada

- seria isso que os budistas zen queriam dizer com “um dedo aponta a Lua; uma vez reconhecida a Lua, apenas um tolo fica a olhar para o dedo”?

As palavras são o dedo. Aquilo para que as palavras apontam são a Lua. Precisamos do dedo para apontar a Lua, i.e., das palavras para as ideias – mas estamos mal, quando ficamos fascinados com as palavras, os dedos, e nos focamos na forma, mais do que na essência. Na “letra”, mais do que no “espírito”. No Mercúrio, mais do que no Júpiter.
Por isso, quando a energia (ou o tempo, que é um dos limites às possibilidades da energia) é perdida quase toda ela com as palavras e as explicações, perde-se o essencial. Como na piada do carro no semáforo vermelho. Quando nos perdemos no não-essencial, o essencial perde-se de vista. É por isso que ter um referencial, um horizonte comum, não só facilita, como viabiliza a comunicação.

Mas não deixa de ser verdade que é pela comunicação que renegociamos e temos a oportunidade de ampliar os nossos horizontes e referenciais.

É por isso que Mercúrio e Júpiter, ou os signos Gémeos e Sagitário, regidos por estes planetas, são chamados o “eixo” (um par de signos opostos e complementares é um “eixo”) do ensino e da aprendizagem.

A comunicação (Gémeos) de princípios abstractos (Sagitário). O sentido (Sagitário) da informação (Gémeos). A comunicação e o movimento (Gémeos) como via para ampliar a compreensão (Sagitário). A visão de conjunto (Sagitário) que permite ordenar, contextualizar e atribuir sentido (Sagitário) à imensidão de conhecimentos e informações (Gémeos) que a cada momento temos ao nosso dispor. As palavras (Gémeos) que traduzem, ainda que imperfeitamente, os princípios (Sagitário). As ideias (Gémeos) que traduzem e permitem aproximar-nos dos ideais (Sagitário) – tornando assim o distante (Sagitário), mais próximo (Gémeos) ou, pela mesma via, levando-nos a descobrir (Gémeos) “paragens” cada vez mais longíquas (Sagitário).

Essa é uma das razões para ter associado a Gémeos, nos textos deste blogue, o Dom da Curiosidade – e a Sagitário, o Dom do Sentido.

E curiosamente – ou talvez não -, Mercúrio e Júpiter regem ainda dois outros signos. Como já foi dito, Mercúrio rege Virgem; e Júpiter é co-regente de Peixes. Em Gémeos, Mercúrio rege um signo de Ar: abstracção, comunicação, ideia, palavra, conceito, informação, movimento. Em Virgem, Mercúrio rege um signo de Terra: informação aplicada ao mundo concreto. Mente racional orientada para o real. Análise, discriminação, correcção, aperfeiçoamento, melhoria. Em Gémeos, Mercúrio explica-nos o que é um relógio. Em Virgem, descobre como funcionam os seus mecanismos.

E Júpiter, em Peixes, representa a busca da Unidade fundamental por detrás de tudo quanto existe. Afinal, Peixes é um signo de Água e o mais característico da Água é a sua universalidade, natureza fusional, e não-resistência.

Quando arrefecida, a água congela. Quando aquecida, descongela, ferve e evapora. Quando o vapor arrefece, condensa e volta ao estado líquido. Num recipiente redondo, a água assume a forma redonda; num quadrado, a água também se adapta. Sempre assume a forma do seu contentor, sempre muda de estado, sempre vai ao encontro e deixa-se adaptar, sem resistir – mas nisso consiste precisamente a sua força irresistível: nunca confrontando o que é diferente, numa espécie de acção pela não-acção a que os orientais chamam wu-wei, a Água nunca perde a sua natureza essencial, por muitas adaptações a que seja sujeita, e nunca, mas nunca deixa de se cumprir a inevitabilidade do seu encontro consigo própria, i.e., com o mar - o oceano - o sem princípio nem fim.

Então em Gémeos/Sagitário temos Mercúrio e Júpiter a reger o Ar e o Fogo: estes são Elementos complementares e compatíveis. Ambos são yang, i.e., orientados para fora, para o movimento, para a mudança, a diferença, a separação, e para cima, para a frente, para o futuro. Não estão sujeitos ao princípio da Gravidade (gravitas), que “puxa” para “baixo”, e para “trás”, mas funcionam de acordo com o princípio de “levitas”, isto é, aquilo que se ergue, eleva, “avança”, progride. Fogo e Ar têm em comum várias coisas, às quais acrescentamos apenas, para o que nos interessa aqui e agora: a abstracção, a leveza, e as possibilidades no futuro.

Na tipologia das funções psíquicas de Jung, o Ar estaria associado ao Pensamento, e o Fogo à Intuição. O Ar trabalha com ideias e pensamentos e palavras e com a capacidade de abstracção que lhes está por detrás; e o Fogo intui possibilidades, i.e., refere-se mais ao que “pode (vir a) ser”, mas que não existe (ainda) no aqui e agora: o Fogo é o elemento que mais se projecta no futuro, quero dizer, no mundo das possibilidades que ainda não existem. Pioneiro, visionário, idealista, entusiasta: essa é a psicologia do Fogo (não confundir com “A Psicanálise do Fogo”, que tem muito a ver, mas não é disso que falamos: é mesmo da “psicologia” do Fogo, se o Fogo tiver(sse) “psique”).

Mas em Virgem/Peixes, o segundo eixo regido por Mercúrio e por Júpiter, assistimos à regência destes planetas sobre a Terra e a Água - que são entre si compatíveis, mas nenhum deles com o Fogo, nem com o Ar. Terra e Água são elementos yin, i.e., orientados para “dentro” e para “baixo”, para trás, para o presente (Terra) e o passado (Água) – “onde” se está (Terra) e “de onde” se vem (Água, o elemento da memória).

Terra e Água são elementos mais ligados com a “realidade”: Terra é a “realidade” objectiva, exterior, o concreto. Dinheiro, casa, trabalho, roupa, quadro, comida, corpo, exercício, calendário, relógio, enfim... coisas... coisas que limitam (e são delimitadas) pelo “real”, pelo menos na percepção humana, e na visão mecanicista, ou newtoniana, de que os objectos existem separados entre si por um espaço vazio, agem uns sobre os outros, e são compostos de “blocos constituintes” chamados de átomos.

E Água é também “realidade” (por oposição a “possibilidade” – talvez pudessemos chamar-lhe “actual” por oposição a “potencial”), mas uma realidade “subjectiva”, i.e., referente ao próprio sujeito: o seu sentir, o seu recordar, as suas oscilações, as suas “realidades” psico-dinâmicas. Que não têm necessariamente correspondência nem com o que a Terra percepciona como real, o Ar pensa desapegadamente, ou o Fogo intui com entusiasmo.

Na tipologia jungiana, a Terra corresponderia à função Sensação e a Água à função Sentimento: se a Água sente, a Terra percepciona; e se o Ar pensa, o Fogo expande. E da integração relativa dessas quatro funções em nós, se compõe o modo como apreendemos – e avaliamos – o que para nós existe e é “real”. Existe o que vejo? O que vejo é o que existe? Existe o que sinto? O que sinto é o que existe? Existe o que penso? O que penso é o que existe? Existe o que acredito que pode existir? O que acredito que existe é o que existe? O que é que existe? O que é que pode existir? O que é real? O que é possível? O que é evidente? O que é ideal? O que é o que é, e o que é que é?

Mas isto era só um parêntesis, para acabar de explicar a anedota ao esquimó. Afinal, é através da Terra prática de Virgem que vamos precisar compreender as abstracções a que Júpiter se refere, e é decompondo em partes analisáveis que podemos ter a esperança de vir a reconhecer, através das partes, algo maior do que a sua simples soma: é o holismo do eixo Virgem-Peixes.

E não vai ser necessário, para poder contar finalmente a piada ao esquimó, falar da autoridade tributária nem da factura da sorte (embora Júpiter tenha muito que ver com a sorte, a factura não é para aqui chamada – “factura” é mais do departamento de Saturno, e um bom título para um artigo sobre Saturno poderia ser, precisamente, “a factura da sorte”. Mas isso é para outro momento).

Falta apenas explicar algumas coisas sobre as relações entre Mercúrio, Júpiter, e Virgem – para podermos, finalmente, apresentar as nossas teses sobre o que Júpiter em Virgem vai significar para todos, e cada um de nós durante os próximos meses.

* fim da primeira parte *
 

Enviar um comentário