4 de agosto de 2015

à laia de retorno - Saturno em Escorpião



estamos no terceiro dia de Agosto e os céus cheios de mensagens por descodificar
pudessemos nós fazê-lo
sem fazer da descodificação a mensagem,
e dessa mensagem limitação.

mas é uma mensagem tão premente, actual, para não dizer evidente, e universal, que por muito enviesada que esteja por nossa própria incompetência, ignorância ou miopia, optamos por distribui-la mesmo assim.

Ao começar a lê-la, lembro ao leitor, vai sentir-se responsável por cada novo bocadinho de informação que perceba. E vai ser difícil parar. Ou, sabendo que pode fazer melhor, não mudar. Vai ser difícil continuar na mesma, compreende?

É que ontem mesmo (dia 2 de Agosto), Saturno passou a directo no vigésimo oitavo dos trinta graus de Escorpião e prepara-se para entrar “definitivamente” em Sagitário (mais abaixo o porquê das aspas) no dia 18 de Setembro.

Este (Sagitário) é um signo que Saturno já visitou, brevemente, entre 23 de Dezembro de 2014 e 15 de Junho de 2015 – mas é que no dia 15 de Março, ia ele já quase no grau 5 de Sagitário, Saturno fez uma estação (i.e., estacou aparentemente na sua órbita) e começou, no seu movimento aparente conforme visto da Terra, a “andar para trás”, como se precisasse de ir ainda fazer qualquer coisa da sua natureza ao signo de Escorpião, revisitando-o uma “última” vez antes de o abandonar em definitivo.

- de forma provisoriamente definitiva, isto é; assumindo que os planetas continuam a girar, cumprindo cada um o seu ciclo mais ou menos previsível, Saturno percorrerá novamente todo o Zodíaco - e em menos de três décadas a partir de agora, regressará novamente a Escorpião a 12 de Novembro de 2041. Mas não se pense que isto de Saturno regressar a Escorpião é algo de pessoal, porque não é: Saturno faz o mesmo a todos.

E de vinte e nove em vinte e nove anos, aproximadamente, Saturno visita cada um dos doze signos do Zodíaco, passando assim, em média, dois anos e meio em cada um deles. E é precisamente às suas estações, e aparente movimento “para trás” (as retrogradações) que se deve a variância destes timings.

Então quer dizer que desde Outubro de 2012, e até que saia de Escorpião a 15 de Setembro de 2015, à sua maneira provisoriamente definitiva, é nesse signo – veja bem – que Saturno tem estado, para não regressar lá senão no final do ano de 2041: e antes disso já lá não volta mais.

A não ser agora.

Precisamente agora, digo: pois é esta, e até Setembro, a “última” (tem tanto de última, quanto de definitiva) “vistoria” de Saturno ao signo das profundidades emocionais, das sombras, e da transformação que subjaz a tudo quanto existe.

(talvez queira ler sobre Escorpião aqui)

Neste ponto, e para que quem nos leia possa compreender as movimentações do Planeta de forma esquemática e organizada – e, já agora, para lançarmos também as fundações do que escreveremos a seguir, aqui fica a cronologia dos movimentos recentes de Saturno mais pertinentes para acompanhar este artigo:

uma cronologia de Saturno
 
5 Outubro de 2012 – Saturno “chega” a Escorpião
18 Fevereiro 2013 – Saturno estaciona e começa a “andar para trás” (em Escorpião)
8 Julho 2013 – Saturno estaciona e retoma o movimento directo (em Escorpião)
3 Março 2014 – Saturno estaciona e começa novamente a “andar para trás” (em Escorpião)
20 Julho 2014 – Saturno estaciona e retoma o movimento directo (em Escorpião)
23 Dezembro 2014 – Saturno “chega” a Sagitário
15 Março 2015 – Saturno estaciona e começa a “andar para trás” (em Sagitário)
15 Junho 2015 – Saturno sai de Sagitário e “volta” a entrar em Escorpião
2 Agosto 2015 – Saturno estaciona e retoma o movimento directo (em Escorpião)
18 Setembro 2015 – Saturno sai de Escorpião e volta a entrar em Sagitário, para não sair deste signo em “definitivo” senão em Dezembro de 2017

Antes de qualquer outra coisa, eu – se estivesse a ler este texto - tomaria nota destas datas, mesmo que não tenha por hábito ou natureza preocupar-me com datas, interesse ou capacidade sequer de as memorizar: é que pode valer a pena recordar, evocar e reconstituir o que estava a acontecer na sua vida nessas alturas -  se estiver disposto, isto é, a acompanhar a reflexão que propomos, mais do que qualquer outra coisa diríamos, no seu próprio interesse.

(é que isto nós já sabemos há muito: o leitor é que pode nunca ter pensado no assunto, e é por pensarmos nós nessa possibilidade que nos pusemos a escrever. Se quem nos lê já pensou nisto tudo, congratulamo-nos então - a nós primeiro e ao leitor a seguir: por termos feito todos, afinal, já parte da nossa parte: não é também essa uma arte de Saturno? É sim. Mas já lá voltaremos)

É que por (e para!) falar em retrogradações, precisamos voltar ao assunto inicial. Pois bem. Em Dezembro de 2014 Saturno chegou a Sagitário, pela primeira vez em trinta anos e depois de ter deixado o signo de Escorpião pela última vez em Novembro de 1985 (acrescente à cronologia lá em cima: “17 Novembro 1985 - Saturno chega a Sagitário”), novamente ao signo que simboliza a expansão dos horizontes pessoais, a busca por leis e princípios abstractos, espirituais e éticos, a filosofia e a fé: meet Sagitário.

Será pois por esse signo que, depois desta última visita a Escorpião, a decorrer entre Junho e Setembro de 2015, Saturno transitará durante mais dois anos.

E até lá – vamos repetir-nos para termos a certeza de que fica claro – Saturno está a revisitar Escorpião por uma última vez antes de lá voltar em 2041, numa espécie de urgência, dizemos nós, em aproveitar esta “última” oportunidade, numa espécie de inevitabilidade (“o que tem que ser, tem muita força”), ou de esforço derradeiro, para que através do que este movimento simboliza se “saturnize” o Escorpião em todos nós, que é como quem diz, para que se cumpram a função, a natureza, a qualidade e a proposta deste trânsito (“trânsito” é a passagem/movimento de um Planeta).


Saturno em Escorpião: estranha forma de (sobre)vida

O que este trânsito simboliza e propõe (os planetas simbolizam e propõem, mais do que oferecem, garantem ou fazem – nós é que acabamos geralmente oir fazer, senão a bem, às vezes a mal; senão por escolha, às vezes por um irresistível convite das circunstâncias), é um confronto honesto com o próprio inconsciente, que permita e promova o reconhecimento de padrões emocionais e mentais dolorosos, disfuncionais, geradores de sofrimento para o próprio e para os outros significativos com que quais nos relacionamos.

Algo que Saturno em Escorpião propõe, ou exige – e é o que tem vindo a fazer desde Outubro de 2012, saibamo-lo ou não, tenhamo-lo ou não já aceite - é que identifiquemos e façamos tudo o que está ao nosso alcance para transformarmos, i.e., curarmos, padrões inconscientes cristalizados, mecanismos de sobrevivência baseados no medo perante a vida (como oposto do amor), nascidos da dor, mantidos por força do medo, da prepotência, da rigidez, da resistência, da projecção massiva sobre o exterior e os outros (em vez de reconhecer a própria sombra); padrões condenados à repetição, opostos à liberdade de escolher um repertório mais amplo de respostas perante a vida.

Saturno em Escorpião é a oportunidade – a tarefa, a responsabilidade, a inevitabilidade, o irresistível convite – de irmos mais fundo dentro de nós mesmos, trespassando territórios perigosos dentro de nós próprios, às vezes empurrados pelas dolorosas e impossíveis circunstâncias da vida, para descobrirmos, a meio das trevas, ou debaixo de águas estagnadas, ou aprisionadas em lagos de gelo, ou afundadas em pântanos insondáveis, enterradas junto a cactos abandonados, escondidas pela dor e pelo tempo, ou encaixotadas juntamente com memórias antigas de infância mais das nossas pepitas de Luz, Amor, Consciência, Alegria, e Liberdade:

pepitas que compõem nosso próprio Ser e sem as quais permaneceremos sempre aquém de nós próprios e de tudo o que nos podemos tornar, a não ser que as resgatemos e abracemos e tragamos, às pepitas, de regresso ao nosso próprio seio – iluminando, denunciando e retirando assim o poder, também, a tudo aquilo que as manteve reféns e prisioneiras, indisponíveis e escondidas, clandestinas e extraviadas, guardadas mas inacessíveis, perdidas, e mantidas à parte do resto.

E porque é mais fácil falar do que fazer, não é particularmente complicado nomear esses guardas, sentinelas, guardiães ou raptores: podemos chamar-lhes a dor, o medo, o trauma, ou simplesmente: a persistência da memória.

É que Saturno em Escorpião é arqueologia emocional. Mergulho no inconsciente. O resgate do mosquito preso no âmbar. O momento em que todos precisamos ser os Indiana Jones do nosso próprio inconsciente e salteadores do Coração de Cristal escondido na caveira, guardado pelos soldados das nossas próprias sombras, para resgatarmos, a meio dos destroços do medo, o Amor.

Que é como quem diz, a oportunidade de nos libertarmos a nós mesmos da tirania dos nossos próprios traumas passados e seus resultantes mecanismos de defesa e sobrevivência, para podermos aceitar mais e mais vida, sem precisarmos necessaria e invariavelmente de nos defendermos, protegermos, controlarmos a nós e ao exterior, sentirmos assustados ou ameaçados por ela.

É o tempo em que podemos curar-nos de nosso medo, de nossa prepotência, de nossa rigidez, da violência com que reagimos aos nossos próprios sentimentos de impotência – aqueles que mesmo que tenham raízes num passado muito antigo, continuam a exercer domínio, ou uma forte impressão, sobre nossas próprias percepções, respostas, e comportamentos.

É o tempo em que compreendemos, e nos apropriamos, de nossas próprias dores, feridas, zonas de sombra ou trevas, e lhes levamos a Luz de nossa própria Consciência, compaixão, amor, e cuidado.

É o Eremita do Tarot mergulhando em si próprio: levando consigo um padre, um xamã, e uma enfermeira.

É que se “curar” significa tornar inteiro, e “terapia” significa prestar cuidados, e atenção, então Saturno em Escorpião é uma tremenda oportunidade de cura, de terapia, de resgate do poder pessoal, e de inteireza. Da inteireza que permite, e só ela, a liberdade de viver de acordo com a verdade do Coração e não toldado, limitado, ou restringido pelo medo que nem tem sequer, necessariamente, razão de ser no presente.


O que é que tens andado a fazer com o teu corpo de dor?

Saturno em Escorpião é o processo em que começamos por nos confrontar com a cristalização do nosso próprio corpo de dor – com as dores e as estratégias que desenvolvemos, de forma largamente inconsciente, para lidar com elas.

Fugir de nós próprios é uma delas. Controlar os outros (ou tentá-lo!) é outra. Recusarmo-nos a aceitar, sentir e reconhecer partes de nós próprios é outra. Procurar no controlo sobre o presente e o futuro um antídoto para a dor, e para a impotência vividas no passado. Tornarmo-nos obsessivos com tudo o que para nós representa segurança. Ou independência, autonomia. Protecção do exterior. Imunidade às circunstâncias (fosse isso possível). Anestesiados da dor. Fascinados pela dor. Cegos à dor. Mas nunca imunes, verdadeiramente, à dor. A expectativa de, na vida, nunca (voltar a) sofrer é simplesmente uma pretensão tola.

E misteriosamente, a vida parece conspirar para nos devolver, invariavelmente, uma e outra vez, e sob várias formas, todas as confirmações e experiências necessárias para voltarmos a dizer a nós próprios que tínhamos, desde o início, todas as razões para ter medo, para nos defendermos, para não confiarmos, para não nos darmos, para não nos entregarmos, para não estarmos por inteiro, para nos fecharmos, para nos protegermos, para antecipar o sofrimento que viria, invariavelmente, a repetir-se, a confirmar-se, a reencenar-se – cumprindo aquele processo a que Freud chamou de “compulsão à repetição” e que consiste, essencialmente, na tendência humana para querer (consciente e, na maior parte das vezes, inconscientemente) voltar a experienciar os mesmos sentimentos antigos (geralmente dolorosos) e a reagir com as mesmas estratégias de protecção e sobrevivência (geralmente disfuncionais) que conhecemos desde cedo na nossa vida, e nos quais, de certa forma e nesta perspectiva, todos ficamos “viciados”.

Trocando ainda mais por miúdos, e exemplificando: muito cedo na vida, eu (i.e., cada um de nós, cada qual à sua maneira e por diferentes circunstâncias, específicas do karma individual) experienciei abandono, violência, ou traição.

Na minha percepção - aquele filtro através do qual estou quase condenado a subjectivar, interpretar e assim mesmo co-criar a minha própria experiência de vida (já que a experiência que temos não é o que nos “aconteceu”, mas aquilo que dizemos a nós próprios que nos “aconteceu”, e já que em termos psicológicos não existe uma “realidade” inequívoca, única, universalmente válida, objectiva, e independente - mas a narrativa e a construção que cada um conta a si próprio) -, a morte do meu bem-amado avô porque chegara a sua hora, o divórcio dos meus pais porque estavam infelizes juntos e tiveram a coragem de fazer alguma coisa acerca disso, o abuso a que o meu tio me sujeitou porque era uma pessoa doente, a humilhação a que me sujeitou a minha professora primária porque era uma mulher infeliz, a negligência a que me votou a minha mãe porque era uma pessoa magoada, a exigência imposta pelos meus cuidadores porque eram pessoas rígidas e assustadas, todas e quaisquer uma dessas coisas me provocou dor e fez sofrer, sentir impotente perante as circunstâncias, e me levou a proteger para não sofrer mais ou tornar a dor mais suportável. A julgar as pessoas e as experiências (é natural). A prometer a si mesmo nunca mais passar pelo mesmo.


Parêntesis
Escorpião é um signo de Água, elemento do sentimento e da memória. E é um signo Fixo, o que implica uma concentração, uma estabilização – no limite, uma imutabilidade – do elemento. É portanto Água Fixa. Água que não flui, corre, escorre, ou evapora: e o único estado em que a água não muda de estado, ou de forma, é enquanto permanece congelada.

Escorpião simboliza água congelada: sentimentos fixados. Também lhes poderíamos chamar traumas, ou padrões rígidos, repetitivos, compulsivos, enfim, prisioneiros. De toda a água que nos compõe, e que permanentemente circula, limpa, hidrata, recolhe, regenera, espalha,  inunda cada célula do nosso Ser, Escorpião simboliza aquela que não circula. Que congelou, como um bloco de gelo. E que, por esse mesmo motivo, transforma a água em pedra.

Logo a água, cuja principal característica é a adaptabilidade e mutabilidade (quando aquece evapora, quando arrefece condensa, e assume sempre a forma do recipiente onde se encontra), de todos os elementos, logo a água, transformando-se, assim, em icebergue. Frio. Inóspito. E isolado do resto das águas, circulantes e vivas, do nosso Ser.

Fim de parêntesis


Cada uma das experiências dolorosas vividas, consciente ou inconscientemente registadas, trouxe consigo uma dor mais ou menos traumática, que ficou registada na minha memória - não só como experiência do passado, mas também como crença acerca de mim próprio, dos outros e da vida: isto é, como base daquilo que consigo ou posso esperar relativamente ao futuro.

Como é da natureza humana generalizar e extrapolar o significado que atribui às suas próprias experiências, e como durante os primeiros anos de vida interpretamos os acontecimentos a partir exclusivamente de nós próprios e do seu impacto sobre nós (é o chamado “narcisismo primário”), sem grande capacidade de apreciarmos objectivamente, de maneira mais impessoal, os acontecimentos como simples “factos da vida” que não têm directa e pessoalmente que ver connosco necessariamente, a morte do meu pai não é “apenas”, ou tanto, a morte dele: é o meu abandono.

Para não falar na dor inevitável, incomensurável e de tentáculos invisíveis que se espraiarão por toda a minha existência, da própria perda. Não é da dor que falamos, mas das distorções patogénicas (i.e., geradoras de sofrimento) geradas a partir daquela.

É que mais além da dor da perda, e tantas vezes da própria consciência, o abandono de que fui “vítima” pelo meu pai não se resume àquele abandono específico e particular: é muito mais do que isso. É a primeira expressão (uns diriam a causa, e eu concordo mas não apenas isso - só não vou entrar numa discussão filosófica muito além do âmbito deste texto) de uma crença determinada que se vê assim reforçada, confirmada ou manifestada por aquelas circunstâncias – ao abandono por pessoas significativas, por exemplo: as pessoas que eu amo, as que me amam, abandonam-me. Eu perco o que eu amo. Eu deixo de ter. A fonte do amor desaparece. O amor vai desaparecer, mais cedo ou mais tarde.

E por um outro motivo, que é o narcisismo primário - o processo de interpretarmos os acontecimentos subjectivamente e de forma altamente pessoal, se o pai me abandona, é porque não me ama o suficiente. E se não me ama o suficiente é porque eu não tenho valor suficiente para que ele continue comigo: se eu fosse suficientemente bom (i.e., se eu tivesse importância, valor, etc.) ele não me abandonaria, etc., etc.

Um desfile de crenças, com as imagens inconscientes, os pensamentos, as expectativas, o medo enfim, a condicionar algo do meu crescimento até que... seja cuidado, atendido, e curado.

Se não for, o que é que resulta daqui?


Possivelmente... o Inferno inteiro

Antes de mais, uma crença generalizada que se torna expectativa de futuro: as pessoas significativas abandonam-me. Amor, dor e perda ficam inextricavelmente ligados nas minhas associações psíquicas inconscientes.

Depois, uma crença sobre mim próprio: não sou suficientemente importante, bom, ou valioso: se fosse, não sofreria.

Depois, uma necessidade imperiosa: provar o meu próprio valor (sabe deus por que diferentes vias virei a fazê-lo ao longo da vida, a quem exigirei, e de que maneiras, essas provas que, por muito que venham, nunca serão suficientes: a “realidade exterior” pouco poder tem perante o poder do inconsciente).

Depois, a necessidade de me defender, por esforços frenéticos, de qualquer fantasma, ameaça ou indício da possibilidade de novo abandono: controlando demasiado aqueles que amo, e que são significativos para mim, como se esse controlo funcionasse magicamente como garantia contra o abandono; ou então, ligando-me a pessoas mas sem deixar que elas me toquem profundamente, sem lhes dar acesso à ante-câmara do meu Coração – relacionando-me, mas evitando cuidadosamente o amor.

Posso basear as minhas opções relacionais noutros critérios, mas provavelmente não no do amor verdadeiro, vulnerável, genuíno – porque esse é perigoso. Posso escolher (diríamos antes, gerir as minhas escolhas, e com a cabeça, mais do que com o Coração) as minhas associações em função de critérios menos “arriscados” e talvez mais superficiais: a aparência, o estatuto, a segurança aparentemente prometida (digo “prometida” porque se não existe segurança “dentro”, nunca existirá segurança “fora”: por muito que temporariamente assim possa parecer. É só até nos desenganarmos, ou melhor, sermos devolvidos ao que É), ou quaisquer outros que me permitam estar em contacto, e relação, com o outro, mas de uma forma relativamente “segura” e “protegida”.

Posso misteriosamente escolher “relações impossíveis” (assim nunca preciso confrontar-me com o medo de perder uma relação efectiva e importante), escolher não me relacionar de todo, ou fazendo dos outros apenas “objectos” e não verdadeiros “sujeitos” em “pé de igualdade” comigo – os objectos são sempre parciais, i.e., o outro não existe como um verdadeiro outro, com uma individualidade, um caminho, uma interioridade, e uma subjectividade próprias: quando o outro é “objecto”, é mais propriamente descrito, e inconscientemente percepcionado, como objecto do meu desejo, da minha conveniência, da causa da minha gratificação ou da minha frustração, personagem do meu filme e agente do meu drama pessoal – mas dificilmente um outro indivíduo, na plena e verdadeira acepção da palavra: uno e indivisível. Aliás, se eu ainda não me sou, como é que o outro poderia ser?

Também posso “desistir” da afectividade e das relações, pressentidas e percepcionadas como perigosas e, no fundo, geradoras inevitáveis de mais dor e sofrimento, e focar-me na realização exterior – quer para evitar a intimidade, quer para provar “ao mundo” (ou será a mim próprio?) o meu próprio “valor”. Posso acumular diplomas, realizações, dinheiro, sucessos mundanos – o que não significa que eu cure, necessariamente, a minha antiga e dolorosa dúvida acerca do meu próprio valor.

e a dose pode ser tão homeopática quanto esta: acordo a meio da noite e dou por falta do meu marido na cama – saiu da cama, levantou-se sem eu dar por isso: e nesse momento, de forma inconsciente, incontrolável e às vezes inquestionada, o velho trauma do abandono é reactivado, e quando acordo e o outro não está, o meu velho medo faz accionar as campaínhas de alarme.

e o alarme pode ir do "o que será que aconteceu?" ao "o que será que ele está a fazer (e não quer que eu saiba)?". A resposta instintiva depende muito, para não dizer exclusivamente, do que se passa nos níveis mais profundos de cada pessoa.

Uma das aprendizagens de Saturno em Escorpião é que ninguém nos “faz” sentir nada que não exista já, em potência e temporariamente adormecido, dentro de nós: os únicos responsáveis pelo que sentimos somos nós próprios (o que não significa que não precisemos dos outros para circular, e assim poder cuidar, do que nos apoquenta); como é importante lembrarmo-nos sempre, ninguém magoa um adulto pela primeira vez.

Ou como diz o Eckart Tolle a propósito dos relacionamentos, “o outro não nos causa alegria nem sofrimento. Apenas permite que a alegria ou o sofrimento que já existiam dentro de nós, emerjam”.

Desta forma se percebe por que é que dizemos que Saturno em Escorpião é o convite a olhar para dentro. É que nós passamos grande parte da nossa vida a olhar para fora, a acreditar nas percepções que temos da “realidade” como se fossem “reais”, e acusando geralmente o “exterior” de nos “fazer”... coisas. E o que nos faz, afinal “fazer” coisas são os “botões” inconscientes que a vida, os outros e as circunstâncias vêm, invariavel e inevitavelmente, “apertar”.


A Vida É; a Vida é o que é

E o que é que nos impede a nós, a cada um de nós, de a aceitar e amar, e aproveitar, e acreditar em todas as suas infinitas possibilidades de nos cumprirmos e curarmos e realizarmos e sermos nós próprios, e sermos felizes, e irmo-nos tornando cada vez mais à medida que actualizamos mais e mais das nossas próprias possibilidades criativas, com Alegria, Paz e Amor no Coração, no olhar, e na mente?

As nossas dores. Os nossos traumas. Todos os tesouros que, por um motivo ou outro, tivemos que enterrar muito cedo na vida. Todas as vedações, minas e armadilhas que espalhámos ao nosso redor para não voltarmos a ser tocados na nossa parte mais tenra, frágil, íntima, exposta, vulnerável, confiante, inocente, e crédula.

Tudo, tudo, para não voltarmos a sofrer. Porque enquanto a dor não for curada, dificilmente confiamos e acreditamos: quer em nós próprios, quer nos outros. Em suma, na vida.

Se a Vida sempre implica uma “perda da inocência”, exige também o seu resgate. E se a primeira acontece no início da vida, o resto da vida é, todo ele, a oportunidade de proceder ao segundo. Não é “voltar” à inocência de criança deitando fora toda a aprendizagem e experiência do adulto – é resgatar para o adulto o poder próprio da criança, que é a fonte da alegria, a expectativa dos milagres, a crença na magia, e a capacidade de acreditar na vida e em cada novo momento como se nunca tivesse sido magoado, desiludido, desapontado -

- e o único complemento, a criança digo, para o lado mais “realista”, quer dizer, adaptado, nihilista, pessimista, conformado, endurecido, amargurado ou deformado do “adulto”, anos a fio lutando com experiências que se recusou a aceitar enquanto não as compreendesse, sem nunca ter chegado a compreender verdadeiramente alguma delas, incapaz por isso de lhes atribuir significado ou sentido, e derrotado finalmente por tanta contrariedade -

Em certo sentido, o adulto sem a criança (com a criança congelada) é o gato escaldado que de água fria tem medo. E que perde, por isso, tantas oportunidades de mergulhar, nadar, beber, lavar, banhar-se, enfim: de viver e mover-se livremente nas suas águas. Está convencido (e provavelmente é o que acontecerá) que vai bater com os cornos num icebergue. Levar com um balde de água fria. Ser rejeitado. Sentir-se mal-amado. E triste, e ir assim arrefecendo por dentro, amargando.

Diz no Livro das Revelações, ou Apocalipse: “e caiu do céu uma grande estrela ardendo como uma tocha, e caiu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas. E o nome da estrela era Absinto, e a terça parte das águas tornou-se em absinto, e muitos homens morreram das águas, porque se tornaram amargas” (Apocalipse 8:10,11)

Pense um pouco nisto: o que será morrer das águas que se tornaram amargas? O que será morrer dos sentimentos? E o que será a amargura?

Não ganhou o Dr. Otto Heinrich Warburg o Prémio Nobel da Medicina, em 1931, depois de ter demonstrado, nas suas investigações, como o cancro se desenvolve mais facilmente em ambientes ácidos (em vez de alcalinos) e ricos em açucar?

Dores emocionais não digeridas e portanto tóxicas (acidez do ambiente) e açúcar (compensação emocional imediata): o tipo de ambiente físico (mas também simbólico, emocional, mental e espiritual) associados a um organismo que começa a destruir-se a si próprio.



Não é também isto Saturno em Escorpião?

Quando Saturno transita por Escorpião eu sou irresistivelmente convidado, empurrado e encorajado a voltar a olhar “para dentro”, para acordar assim de uma espécie de “transe” que percepciona o que percepciona como real, e não como uma percepção.
Quando Saturno transita por Escorpião, eu tenho oportunidade de identificar inequivocamente os blocos de gelo em mim, as artroses do frio que me tolhem os movimentos, todos eles. Ou melhor, todas elas. As artroses. E as mazelas.

Para lidar com o gelo, uma das maneiras é derreter, paciente e gentilmente, o que nos ainda nos faz sofrer: a “artrose emocional” que tolhe, limita os movimentos livres e espontâneos, e nos faz viver no frio.

Dentro de uma armadura, como diz o outro, enferrujada.


olhe para a sua vida nos últimos três anos 

e provavelmente reconhecerá com facilidade algumas das formas pelas quais andou a viver o seu próprio Saturno em Escorpião.

Batalhas inglórias. Desapontamentos e traições, lutos. Juramentos feitos, compromissos assumidos. Fidelidade ou morte. Amores a conquistar ou perder. Dores por cuidar e curar. Perder o controlo. Transformações, em barda. As batalhas que não acabam. Olhar para fora e sonhar; sonhar, e sofrer. Olhar para dentro – como dizia Jung – e despertar. Reconhecer o sonho e sorrir.

Saturno em Escorpião é o tempo de levar para a terapia o ciúme patológico, em vez de disparar cinco tiros sobre o conjuge se este se quiser divorciar; é o tempo de compreender os motivos que levaram à inevitabilidade desse divórcio; e é o tempo, também, de compreender e clarificar os motivos, as agendas, as expectativas, as características individuais e as motivações por detrás do próprio casamento.

É tempo mesmo, veja lá bem, de irmos lá atrás.

É o tempo, por exemplo, de nos responsabilizarmos inteiramente pelo que criamos a partir das nossas profundezas inconscientes, negadas, distorcidas, escondidas, reprimidas, negligenciadas, evitadas.

É o tempo de escavar mais fundo para libertar energias psíquicas, emocionais, vitais aprisionadas, de atender os traumas, de curar as feridas, de mergulhar nas próprias profundezas e, no regresso dessa jornada de pura transformação interior e auto-cura, encontrar um poder novo, mais largamente independente - quer das circunstâncias, quer dos outros, quer de um velho senso pessoal de controlo e domínio sobre as circunstâncias.

É o tempo em que domínio se torna demónio, e os demónios são para exorcizar.

(talvez queira, por esta altura, ler o texto Valer a Pena, escrito aquando da entrada de Saturno em Escorpião, em Novembro de 2012)


Ninguém liberta o mundo da escuridão

sem pelo menos se libertar antes a si próprio e ao seu mundo da sua própria sombra,

e ninguém pode jorrar verdadeiramente como uma fonte das possibilidades criativas, livres e amorosas de que é semente no seu seio sem antes se curar do seu próprio medo e tudo aquilo que obvia ao verdadeiro poder, à liberdade, e à capacidade de viver como se escolhe (e não apenas como se consegue).

Enquanto o nosso comportamento for desenhado para evitar a dor, e não para criar à imagem do que o Coração manda, vamos sempre reagir de tal maneira que parece que esta dor é uma ferida eterna que não fecha, que não existe, e que não temos nenhuma.

E assim passamos a vida a defender-nos, como podemos, e como já funcionou, e embora nenhuma das maneiras permita fazer desaparecer a dor, que ressurge uma e outra vez, de uma ferida que é sempre a mesma, afinal, a ser tocada com ferros em brasa – apenas com ferros diferentes. Mas sempre ferros, e sempre em brasa. E a dor, sempre a mesma dor, tão bem conhecida e há já tanto tempo.

A dor que não passa. A dor que nem nos passa.

A maneira e as estratégias que aprendemos a usar para lidar com essa dor começam a repetir-se: às vezes de forma inflexível, automática, assustada, violenta, desproporcionada, distorcida, descontextualizada – é quando o corpo de dor, e não o Coração, está no comando. E o corpo de dor utiliza toda a nossa inteligência para se proteger a si próprio. Chega até a negar a si próprio que existe dor, que esta dor tem um corpo, e que este corpo tem dono.


A natureza do corpo de dor é garantir a sua própria sobrevivência, porque veja: as circunstâncias ameaçam ou ferem. A sobrevivência é ameaçada. Há uma reacção, uma resposta, uma estratégia, uma adaptação: a sobrevivência é garantida. A dor permanece, bem como a memória, ou melhor, a crença de que a sobrevivência está ameaçada, está condenada a ser ameaçada, ou que pode – simplesmente – vir a ser ameaçada em qualquer altura, novamente, e de forma imprevisível. Bem como, provavelmente, o programa que permitiu defender dela, originalmente. A dor. E a reacção. A dor. E a reacção.

Fica a memória congelada, e portanto o medo permanente, e a ansiedade antecipatória, de voltar a sentir a dor. E ao redor desse núcleo de dor forma-se uma nebulosa de crenças, sentimentos, emoções, imagens, comportamentos e reacções, psíquicas e fisiológicas, sempre pronto a ser reactivado, às vezes à mínima ameaça, sempre que a possibilidade da dor volte a ser acordada – e ela dificilmente adormece, a não ser quando estamos a sentir-nos gratificados, seguros, e a experienciar prazer, contacto, toque, enfim, quando nos sentimos agradavelmente ancorados na nossa experiência física e emocional e as sensações e percepções garantem um nível mínimo de prazer.

Talvez seja por isso também, em parte, que tantas dores são silenciadas por hábitos de consumo; consumo de substâncias, de relações, de objectos, de experiências sensoriais imediatas, de divertimento, de distracção, de lazer, de recreação, de estímulos prazerosos e gratificantes, e de tudo aquilo que poderíamos dizer nos devolve um sentimento de prazer e bem-estar.

As hormonas do prazer, particularmente a oxitocina e a serotonina, cumprem aqui um papel fundamental que está para além do âmbito deste texto, mas fica a pista para quem quiser explorá-la. São os "antídotos" para o sofrimento. E para o isolamento. Não admira que as drogas mais viciantes são as que mais estimulam, embora de forma artificial e potencialmente trágica, os centros de bem-estar no cérebro, estimulando a produção hormonal, e/ou inibindo a sua recaptação, isto é, mantendo-as activas e em doses excessivas.

E da mesma forma que aquelas se relacionam com o prazer, o cortisol relaciona-se com o stress. E o cortisol, quando em excesso, tem uma acção catabólica e acaba por “canibalizar” os próprios músculos do corpo, i.e., opõe-se ao crescimento e, simbolicamente, à capacidade de agir e deixar a nossa marca, única, sobre o mundo. O excesso de tensão destrói, da mesma forma que a falta de tensão, ou a busca incessante de prazer e de diminuir a tensão, sabota e acaba por destruir a vida.

- é que nada existe no inconsciente que não se traduza na experiência de vida, e nada na mente que não se traduza igualmente no corpo. “O que está em baixo é como o que está em cima, e o que está em cima é como o que está em baixo”, lia-se na Tábua Esmeralda, “para que o milagre da Unidade possa ser cumprido”. E nós acrescentaríamos que “o que está fora é como o que está dentro, e o que está dentro é como o que está fora, para que o milagre da Unidade se cumpra” -

Mas até reconhecermos dentro de nós a nossa própria falta de unidade interna, ou até de oxitocina, continuaremos a olhar para fora e a encontrar os “causadores” das nossas dores – e formas compensatórias, que não exijam grande trabalho ou transformação interior, para nos livrar, libertar, ou distrair delas.

Talvez seja por isso, também, que enquanto as nossas dores não são curadas, as relações são geralmente “consumidas”, como drogas para anestesiar a dor ou aumentar o prazer, e não “nutridas” como precisam para que se desenvolvam, transformem, aprofundem, cumpram, e nos ampliem, a nós, no processo.

É uma disfunção “lunar”, diríamos em astrologuês, consumir – em vez de nutrir, e uma consequência da dor. Queixamo-nos e ressentimo-nos quando não podemos “matar o vício” (seja ele de que natureza for) como queremos, pretendemos, ou imaginamos que faremos, ao longo da vida, de forma impune e sempre gratificante.

Quem não quer, consegue ou se dispõe a lidar com a dor, vai querer do amor humano apenas a gratificação, a leveza e a alegria, e não vai querer ou suportar que, como diz o poeta Khalil Gibran, o amor (e toda a Vida é Amor) o moa até à alvura.


Mas deixe lá isso

E revisite as datas inscritas na cronologia de Saturno. Esses são referências temporais que podem ajudar a compreender o que está em causa neste trânsito de Saturno, para si, quando reflectir acerca do que estava a acontecer na sua vida ao redor dessas datas. Possivelmente vai identificar temas, ou no mínimo acontecimentos, decisões, avanços e retrocessos em determinados assuntos na sua vida. Uma vez identificados os temas, terá uma ideia mais clara de onde reconhecer a dor, e a necessidade evolutiva, por detrás dos acontecimentos e circunstâncias.

Saiba, também, quando estiver a servir-se da cronologia, que os períodos de retrogradação são considerados períodos de revisão, suspensão, introversão, reestruturação interna mais do que externa, de recolha de experiência, maturação, e de preocupação – geralmente – impedindo-nos de realmente relaxar, porque sabemos que há algo importante a ter lugar nas nossas vidas, ou a ter que ser decidido, mas pode ser difícil apanhar-lhe os contornos enquanto decorre a retrogradação;

e estes podem ser igualmente períodos em que podemos passar bastante tempo, e usar bastante da nossa energia psíquica, nos bastidores da nossa consciência e até da nossa apresentação ao mundo, em questões angustiantes sem resposta imediata, possível ou à vista. Como se uma parte de si ficasse assim, preocupada e em suspenso, a processar qualquer coisa que precisa de experiência, tempo, reflexão, frustração, e um acumular de “resolve”, ou determinação, antes de poder cumprir-se ou ser feita.

Como até agora, quero eu dizer, recentemente - muito recentemente - até agora, e durante mais algum tempo, compreende?


Parêntesis
Se tem conhecimentos de Astrologia, olhe para a Casa Astrológica onde se encontra Saturno a transitar, i.e., onde tem no seu Mapa os grau 28º/29º de Escorpião. Essa é, definitivamente, uma área de vida onde muitos destes processos estão a ter lugar. Olhe também para as Casas regidas por Saturno, i.e., as Casas com Capricórnio e Aquário na cúspide. Essas são também áreas de vida envolvidas no processo. E, evidentemente, veja que Planetas tem ao redor destes graus e os aspectos que Saturno em trânsito faça com eles.

Não é objectivo deste texto entrar na loucura da proliferação interpretativa, mesmo porque seria impossível, mas fica a nota para identificar todos as Casas e pontos (i.e., Planetas e ângulos) envolvidos neste trânsito. Sabê-lo, e manter isso em mente, pode ajudar tremendamente a aproveitar este último grande impulso de Saturno em Escorpião ao trabalho que você ainda pode fazer por si próprio.
Fim de parêntesis



Saiba também que ao redor dos momentos em que Saturno passa a directo, as decisões, as clarificações, as revelações, ou as conclusões dos nossos longos períodos ruminativos tendem a manifestar-se, a surgir, a acontecer.

É o momento em que reunimos todas as peças, ou pelo menos as suficientes, para poder honrar, através das nossas escolhas, a consciência conquistada até ao momento. É o momento em que já não se trata de maturar mais, mas de agir de uma forma responsável, e esta acção pode ser simplesmente uma decisão, uma tomada de posição, uma escolha. Quem sabe o ponto final provisório no plano de longo prazo, tanto quanto vemos de onde estamos – e é chegada altura de começar a implementá-lo.

Pode por isso ser interessante reconstituir o que estava a passar na sua vida ao redor das datas indicadas na cronologia (não necessariamente na data exacta, mas aproximada – o universo é rigoroso mas não é neurótico), que assuntos teve de resolver, que assuntos não conseguiu decidir, que assuntos se clarificaram, o que é que demorou tanto tempo a acontecer de repente.

E perceberá como, e onde, tem estado a amadurecer – que é como quem diz, mas isto já você sabia, a ser difícil.

Quando Saturno passa a directo, ou fica retrógrado, tende a datar acontecimentos críticos ou desenvolvimentos relevantes para os processos em curso; e particularmente agora, que está no final de um Signo – e particularmente num signo fixo -, grandes descobertas, saltos, conquistas (e choques, e perdas, e revelações) podem ter lugar.


Quer ver?

Lembra-se do desaparecimento do vôo MH-370 da Malaysia Airlines, em 8 de Março de 2014, com 240 passageiros a bordo? Marte virara retrógrado no dia 2, Júpiter passara a directo no dia 7, e Saturno passara a retrógrado no dia 3 de Março.

A 15 de Março de 2015, Saturno virou retrógrado. Nove dias depois, Andreas Lubitz despenhou deliberadamente nos Alpes o avião, com 150 pessoas a bordo, que pilotava. 

A 17 de Julho de 2014, quatro dias antes de Saturno passar a directo, o vôo da Malaysia Airlines MH-17, com 300 pessoas a bordo, foi abatido por um míssil terra-ar, alegadamente por rebeldes pró-russos, quando sobrevoava a Ucrânia.

No dia 22 dezembro, Urano retomou o movimento directo. No dia 23 dezembro, Saturno entrou em Sagitário para a sua primeira curta visita. Cinco dias depois desapareceu outro avião, desta vez da Air Asia, com cento e cinquenta pessoas a bordo.


Quer ir mais longe?

No dia 2 de Agosto, Saturno passou a directo. Três dias antes, tinham começado a encontrar-se, na Ilha da Reunião, no Oceano Índico, o que se acredita serem os destroços do MH-370. As peças que faltavam.

E no dia em que Saturno passa a directo, encontra-se o corpo do atleta português desaparecido, no início de Novembro, por uma tempestade de neve quando fazia trail nos Picos da Europa. Apanhado pelo gelo. E revelado quando Saturno passa a directo.

E nesse mesmo dia ainda, a 2 de Agosto (i.e., ontem), despenhou-se na Rússia um helicóptero de combate da Força Aérea, numa exibição perante milhares de pessoas.

No dia 3 de Agosto, quero dizer, hoje mesmo, colapsou um prédio em Madrid.

Isto não significa que a evolução nas nossas vidas se faça por acidente, desastre ou colapso. Não em exclusivo, não necessariamente, e não é esse o objectivo dos exemplos. Foram só para exemplificar os paralelos entre o que está “em cima” e o que está “em baixo” e como o que “está em cima” cá pode vir parar abaixo – principalmente ao redor das retrogradações de Saturno.

E como podemos chegar a morrer, literalmente, gelados – nas montanhas ou nos mares, onde quer que a água esteja suficientemente fria.

Get it?


Quer ir ainda mais longe?

Há várias maneiras. Podemos ir mais alto, ou mais fundo. São duas maneiras de chegar mais longe. Outra é ir lá atrás. Ir lá atrás é outra forma de chegar mais longe (se isto ainda não lhe tinha ocorrido, depois de ler seis mil caracteres sobre o trânsito de Saturno em Escorpião, então, deixe-me deixá-lo escrito com todas as letras: ir lá atrás é uma bela maneira de ir mais longe. E durante as retrogradações, repita porque é duplamente verdade: durante a retrogradação, ir lá atrás é a única maneira de ir mais longe.

E para que seis mil letras comecem finalmente a convergir para meia dúzia de frases, uma só ideia-chave: Escorpião simboliza tudo o que está “lá” atrás (ou por detrás). É o oculto, escondido, enterrado. Saturno fiscaliza tudo o que tem sido feito desde lá detrás, para que ao lidarmos com isso, nos vamos tornando adultos, criadores, e responsáveis pelo seu próprio destino. É o tempo, o fiscal, o passado.

E Saturno em Escorpião é isto em suma de nos tornarmos adultos menos adulterados, à medida que aceitamos emancipar-nos das prisões e das dores dos nossos próprios passados.

Ou o prédio que colapsa de repente, depois de anos e anos a resistir às agressões, à entropia e ao degredo sem nenhum trabalho de manutenção, conservação, fundação ou infra-estrutura.

Tá a ver?

Óptimo.

E agora.


Quer ir mais longe ainda?

Se quer ir mais longe, vamos lá atrás. Outubro de 2012. Remember?

- claro que para dar conta da complexidade da sua vida, teríamos que levar em atenção os vários outros trânsitos que ocorrem ao mesmo tempo com implicações para todos nós (Urano em Carneiro, Plutão em Capricórnio, Neptuno em Peixes, etc.), mas também – e fundamentalmente – o seu Mapa Astrológico e, enfim, a Consciência que você É. Cada Consciência vive o seu Mapa específico de acordo com a sua própria condição única. É por isso que mesmo que existam dois Mapas rigorosamente iguais, não há duas vidas que se comparem -

Mas compare agora. A sua vida hoje com a sua vida em Outubro de 2012.

E faça um balanço. Saturno gosta disso. E vá olhar-se num espelho. E dê os parabéns a si mesmo, porque melhor ou pior – você sobreviveu! Não se ria, é sério. Olhe lá para Outubro de 2012, saiba que passaram quase três anos de batalhas duras e às vezes quase ininterruptas, e que você, mesmo que não tenha (ainda) vencido tudo com palma e distinção, sobreviveu a tudo isso. E foi muito!

Por isso dê-se os parabéns, reconheça a sua resistência (e dependendo do sentido de “resistência”, isso não é necessariamente bom) e, principalmente, o trabalho interior (bem) feito.

Mais provavelmente tem sido uma combinação dos dois (resistência e trabalho interior) que o tem safado e permitido viver até aqui, com mais ou menos paulada, frustração, medo, raiva e momentos de desesperança, e o facto é que você aqui chegou, vivo pelo menos o suficiente para ainda se dar ao luxo de andar a ler blogues na net – confesse, a sua condição não pode ser má. Se acha que é, então aproveite agora, e dê uma relativizada.

E depois de dá-la, e se quiser ir ainda mais longe:

Pense 1985. Porque o que quer que esteja a acontecer agora, tem raízes aí. Pense – and take your time until you find something valuable, ‘cos you will - 

e uns dirão - há sempre quem diga destas coisas - ah!, e tal, mas eu nessa altura não era vivo. Ou era muito pequeno. Tá bem, eras pequeno mas tinhas uma família. O que é que estava a acontecer com ela?

Pensa que os temas, de uma época a outra, ecoam uns com os outros. E há trânsitos, particularmente de Saturno e em Escorpião que trazem o sabor de tempos antigos.


Epílogo (mas não se vá já embora)
 
Hoje, enquanto escrevo, todos os planetas lentos (Urano, Neptuno e Plutão) estão retrógrados: Plutão, especificamente, até 26 de Setembro: uma semana depois de Saturno ingressar, em “definitivo”, em Sagitário.

A Vénus retrogradou há poucos dias. Estamos a reavaliar o que é importante, fundamental - e a aprender a simplificar as nossas vidas em função dos nossos valores essenciais - e isso implica tudo o resto, da mesma maneira que tudo o resto também implica isto. Da mesma maneira que isto impacta sobre tudo o resto, mas porque é Vénus, que rege certos assuntos, em particular o dinheiro e os relacionamentos.

Júpiter e Saturno formam uma quadratura exacta nos céus, precisamente no grau 28º, onde também se encontra Vénus, em conjunção exacta com Júpiter no grau 28º de Leão – não tivemos nós em Portugal, agora mesmo (ontem, não foi?) o “casamento magnífico” (Vénus em conjunção com Júpiter em Leão) de Jorge e Sandra Mendes, que pagaram meio milhão de euros para fechar Serralves e reunirem todas as estrelas do nosso futebol para testemunharem a autoridade (Saturno) da Igreja a legitimar uma relação (um casamento, de facto) que já vinha de trás.

Mas isso não é o importante; o importante é a tremenda concentração de energia ao redor deste Saturno. Como os outros se quadraturam uns aos outros é lá com eles.

Nós, precisamos responder a isto.

E a quantidade de amor, determinação, coragem, confiança e força – um verdadeiro “teste de fé” – necessárias para enfrentar, decididamente e de peito aberto, esta “última” fase desta “última” passagem provisória de Saturno em Escorpião...?

Não é que não as tenhas dentro de ti. Tens toda a Luz de que precisas para lidar com as tuas próprias sombras.

És – no que verdadeiramente és – absolutamente digno. Não precisas provar nada. Absolutamente nada. A ninguém. Apenas seres fiel à tua própria consciência.

E colaborar com o teu próprio processo: com dignidade, verdade, coragem, determinação, humildade, e confiança no que se siga.

É que mesmo que pareça um abismo, não é: é só uma curva muito apertada do teu próprio destino.

E encontrarás a saída na tua determinação em enfrentar as tuas próprias sombras, medos, e vícios, e - já agora - aprenderes qualquer coisa com as merdas que fizeste.

Com Amor, Paz e Alegria, porque És

e vives da grandeza da alma.

Eu sei que Tu És, e não É o que tu és.

Que nada se interponha por isso – nada de ti, evidentemente – entre ti e Tu próprio.

Amen.

Eu sei que tu sabes.

Só escrevi para to lembrar *




(e já agora para te dizer,

olha

esquece o próximo retorno de saturno a escorpião, em 2041

e contenta-te com este.

- a não ser que te imagines lá, e nesse caso - estás mesmo em negação :-)

ou então, não.

realmente,

em negação

ou então não.

Ou não; ou não.

Não não, eu não estou em negação.

Estou a usar o Tempo... para aquecer o Coração *


... e de repente é dia 4. Como passa, o Tempo... e como às vezes não passa, o que o Tempo nos faz passar...


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