27 de dezembro de 2014

passagem de nível (II)

... Depois de uma das noites mais repousantes, e do sono mais profundo de que tenho memória (tanto, que me lembro de ter "sonhado" mas de absolutamente nada, como se tivesse sido uma gestalt perfeita, daquelas em que não ficam nem pozinhos por evocar),

Acordei com o Maninho aos pés, e o éter cheio de Irmãos,

Para um magnífico dia de sol, irradiante com a inconfundível luminosidade e calor do Algarve, ou pelo menos de Faro

- mas isto sou eu, que ando sempre encalorado, e não são afrontamentos - e além disso, tenho uma termotebe -



A casa estava em paz, e eu também, e até o gato

Ao café, o Bobby Mc ferrin cantava na rádio "don't worry, be happy"



E a senhora da funerária ligou no instante perfeito - e também a Amiga que combinou vir a juntar-se-me mais tarde só porque sim, e eu queria mesmo Aquele Abraço.

Inteirei-me, durante a reunião de negócios, do quanto custa morrer, dos apoios estatais a quem fez descontos em vida, da quantidade de indigentes que não são reclamados pelas famílias, por não terem dinheiro para os enterrar, e que ficam esquecidos nas câmaras frigoríficas dos hospitais - que os enterram, ao fim de seis meses, dando-lhes pelo menos a dignidade de um "funeral social"

Não folheei por escolha própria o catálogo luxuoso dos lugares arquite_tónicos mais inspiradores e supostamente sagrados onde enterrar a massa dos corpos dos que partiram, mas escolhi uma urna em forma de pérola, e hidrossolúvel, na qual devolver as cinzas da minha mãe ao oceano mais à frente, ou caso a polícia marítima esteja a ler isto, da qual despejar as cinzas à terra, e não deixa de ser irónico ainda poder vir a tirar uma ostra de dentro da pérola, e inacreditavelmente simbólico poder vir a tirar essa pérola já conhecida por Olga de dentro de uma concha,

... Mas isso será só mais à frente * porque conchas, ostras e pérolas, já tantas foram paridas e dadas à Luz que o que vier a seguir é só mesmo um extra (ostras atormentadas é que dão pérolas, era o título de um dos capítulos dos vários livros que venho escrevendo no éter mesmo que nunca cheguem ao chão, que é como quem diz, à tipografia, que é tipo a grafia daqueles tipos. E para um gajo como eu, interessa lá que fique plasmado, alimentando ainda por cima a ilusão da autoria, aquilo que mesmo sem forma é tão claro, evidente, e por isso mesmo, suficiente. Livro no papel e o preto no branco, embora eu prefira o branco no preto, é só mais uma das coisas que se acontecer, será só mais um extra - como o queijo a mais, que na verdade ninguém distingue depois de pedir a mais gulosa das pizzas) 

Fiquei também relativamente feliz por saber que pagando o suficiente, se pode ter Wi-Fi no velório, e uma série de outras comodidades evidentes que são vantagens claras para quem precisa de comunicar e não pode. Assim que, enquanto uns encomendam Almas, outros enviam e-mails. Esperemos apenas que os corpos dos defuntos não se indignem quando os vivos desviarem o olho pró ecrã e não lhes estiverem a dar o exclusivo da sua atenção.

Fiquei, também, as_soberba_do com a exploração que se faz do sentimento de culpa dos vivos, e da Relação que aparentemente se tem com o aspecto formal, aparente e material da vida, em vez da essência; só isso explica que se gastem fortunas em caixões e caganças para enviar para debaixo da terra mognos do carvalho que podiam matar a fome a tantos vivos *

E a reunião de negócios lá acabou, comigo assinando os termos - e o orçamento - do nosso acordo.

Ficámos de cremar o corpo que aqui deixaste, Amada mãe Olga, no domingo ao meio-dia, no Alto de São João. Reservámos uma capela (não há missa, be cool, e aceito que mo agradeças - nunca nenhum de nós alguma vez precisou de intermediários na nossa relação com o sagrado, e além disso ainda me lembro bem - é natural, foi há menos de um mês - como, nas tuas palavras, eu te "metia nojo" por parecer um "padre a perorar". )

Então ficámos assim, e eu fui escolher a tua roupa para o dia de gala (também sei que preferias a noite, mas Deus quis assim, domingo com o Sol a pino - deve ser para te ver Bem, e com o mínimo de sombras, e no Seu dia de relax. Acho bem. Que piada teria se fosses apenas mais um assunto de expediente?!)

Então fui escolher a tua roupa; és africana de alma e coração, então escolhi-te um dos teus "panos" favoritos, em laranja e tons de terra. Dois colares a condizer, e roupa interior preta, nunca sabemos no que dão estas galas, e eu quero que continues a sentir-te sexy e pronta para tudo.

Depois fui à morgue reconhecer o teu corpo e poisar, finalmente e quem sabe até quando, uma vez mais a minha mão em teu peito.

E fiquei tão feliz por ver a tua expressão. Era um sorriso de Paz encontrada, de alívio finalmente, e deixa-me que te diga, quase de troça. Não sei se por teres finalmente levado a tua avante (tal filho, tal mãe - ou como nos diziam as pessoas quando eu era pequenino, "tirados a papel químico" - a tua expressão era, deturpando o provérbio, "quem sai aos seus não é de Genebra") ou por quereres deixar-nos um último conselho (" quem venha atrás que feche a porta"), ou por teres encontrado uma passagem secreta para junto do Lucky Michaels, o grande amor da tua vida - o outro além de mim, digo - e já estivesses, por essa altura, a passear, a dançar ou a fazer Amor com ele de mãos dadas, nalguma planície da tua África Negra, que sempre transportaste no Coração e onde nunca conseguiras regressar, pelo menos até hoje).

Sinto-te Feliz e em Paz, minha mãe, e finalmente. E quando olho em volta, para este mundo a que me permitiste vir para ajudar a Amar, Cuidar e Curar, prenda pela qual te sou, e serei, eTernaMente grato, não deixo de pensar que tu realmente sabias Bem, venceste tu, mesmo e afinal, a Batalha, e ainda tens a coragem, cabrona, de te ir daqui embora a gozar com isto tudo, enquanto uns ainda ficam com o trabalho de lidar com os vivos, e tu te pões ao fresco.

Can't blame you*

Mas não penses que isto fica assim: goza, goza, mas sabe que por ires à frente,... Eu já te apanho

(e se tiveres vontade, e utensílios, faz empadão ou fricassé: sabes que é, da tua comida, a que mais gosto. E só não te peço feijoada porque desde ontem comecei num regime novo).
Ah!, é ok chegarmos - com o nosso amor e a nossa Alegria - a partir das 10am, no domingo? Eu sei que não gostas de acordar cedo mas minha mãe...

... Um dia não são dias

Feliz Natal, meu Amor. E obrigado, muito e sempre, por todos os natais que organizaste para mim até hoje. Foi uma Bênção sem fim, digo-te, ser Filho e Criança em tuas Mãos
Abençoada Sejas * Abençoada És * Abençoado... Sou *

e sabes,

hoje

olho para a minha vida em retrospectiva... e sei - hoje sei - que tudo - Tudo - foi, é - e será - uma Benção sem Fim * 



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