27 de dezembro de 2014

passagem de nível (I)

... e cumprindo os desígnios próprios dos intuitos,

e depois de ter anunciado (no Facebook) que era tempo de nos fazermos à estrada, porque a Vida ia retomar um certo ritmo que há que aCompanhAmar,

e de ter postado o "Hit the Road", Jack,


logo a seguir

este jack saiu de casa inesperadamente, ainda não eram duas da tarde, depois de receber o telefonema - e pôs-se a caminho.

uma legião de anjos, humanos e etéreos, acompanharam-no todo o caminho até Faro, facilitaram-lhe os movimentos e a vida, contribuíram para que a viagem fosse leve, amorosa, sorridente, e sem sobressaltos. Fizeram de tudo: levaram-no à estação de comboios, ofereceram-lhe pães de deus e croissants para a viagem, deixaram-no passar à frente na bicha da bilheteira para comprar um bilhete à queima-roupa, à última da hora, em cima do prazo; depois, fizeram-lhe perguntas para se orientarem melhor, deixaram-no pegar em bagagens pesadas, agradeceram-lhe com estranheza, suspeição e gratidão ainda assim, aquilo que acreditavam ser uma rara boa-vontade no mundo, e deixaram-no assim sentir-se útil também ao fazer estas pequenas diferenças, ainda que ínfimas, nas suas vidas ou pelo menos no seu dia, e fizeram assim uma diferença enorme na sua.

na minha, digo.

e depois de chegar ao hospital de Faro a notícia sem adjectivos: a sua mãe partiu. Sem sofrimento, diz o médico, e eu agradeço-lhe em particular dizer-mo assim, porque mesmo que não seja a verdade, talvez por egoísmo, imagino assim mitigada a tua dor que se arrastava há tantos anos.

Ainda me lembro do primeiro momento em que a notícia da tua dôr subitamente me despertou de uma qualquer letargia e para uma realidade nova que não viria a mudar até hoje, apenas mais e mais complexa, mais e mais dolorosa, mais e mais desesperante, mais e mais amorosa, mais e mais generosa na sua capacidade de me dar Vida, e espaço no Coração para lidar com a dor, e com o Amor que se produziu graças a tudo isto, em ritmos diferentes, ao longo dos anos e do correr dos dias, e essa realidade nunca mais mudou, embora tenha passado por muitas fases e atingido hoje mais um dos seus pontos altos: eu teria uns vinte e picos anos, talvez vinte e quatro ou vinte e cinco, tu convidaste-me para almoçarmos juntos no Carrefour de Telheiras - tu vinhas de Faro, onde vivias, e estavas com um ar solene. Começaste por me dizer: "meu filho, não quero que te preocupes, porque isto não é nada", e depois, subitamente, jorraste num pranto que só te permitiu dizer, entre soluços e lágrimas "eu tenho um cancro".

hoje foi a um homem que o médico deu a notícia: lamento, mas a sua mãe faleceu. A doença já estava muito avançada, você sabia?

- é claro que eu sabia - eu tenho sido o espectador, o cúmplice, às vezes o enfermeiro, outras vezes o algoz, em tantas e tantas cenas e actos desta tragicomédia de amor e redenção que vivemos os dois ao longo de quase duas décadas. É claro que eu sabia: fui eu quem mais de perto testemunhei a transformação, gradual e implacável, da mulher que era a minha heroína na infância, linda, cheia de vida e garra, louca, inteligente, decidida, com um par de tomates maior (maior? muito maior!) do que a maior parte dos homens e aspirantes que já conheci ao longo da vida, com uma força inata, um génio incomparável que nunca encontrei em mais lugar nenhum, e minha amiga, e confidente, generosa de uma generosidade sem fim e sem par, disposta sempre para me ajudar e apoiar nos desejos e nos caprichos, desde as calças Soviet aos jogos de computador, aos ténis da nike, aos almoços no centro comercial (e que alegria era quando combinavas acompanhar-me nalguns desses almoços, eu mostrava-te os sítios onde gostava de comer crepes e saladas e hamburguers e tu parecias gostar, e eu era absolutamente redondo e feliz nos momentos em que te sentia ter, minha mãe, totalmente comigo, disponível, interessada nas minhas coisas, e presente para mim - o que era a excepção, e não a regra, e talvez mesmo por isso tão, tão especial)

e depois também tudo o resto, sempre me deste tudo quanto eu precisava, queria, e tinhas o dom de antecipar as minhas necessidades dando mesmo sem eu pedir, para que eu não tivesse de enfrentar o meu próprio constrangimento em pedir.

mas isto tudo para agradecer, de todo o Coração, por Tudo quanto me deste e se tornou, assim, tua herança de Ti para o Mundo, através também de mim *

pelo teu exemplo de Força e Generosidade, e Rebeldia, e Loucura, e agradecer-te os momentos - e foram sempre especiais para mim - de Cumplicidade. E o apoio, incondicional, a todos os meus projectos, sonhos, e fantasias.

tinhas na mesa de cabeceira um dos postais que te escrevi num Dia da Mãe - talvez fosse "o" postal, imagino - sinto - eu. Diz assim:

"Para a Mãe mais especial do Mundo: a Minha! Com muito amor, hoje e sempre. Obrigado, Querida Mãe Olga, pelo Amor e Generosidade sem fim, sem par. Amo-te. Nuno"

Obrigado, Querida Mãe Olga: Obrigado por Tudo.

e Descansa (finalmente!) em Paz, meu Amor, depois da tua looooonga batalha. És, e serás sempre para mim, uma inspiração, um exemplo, e um dos seres mais magníficos que Deus pôs na Terra sob a forma de Mulher

(há pouco olhei para o teu gato, o Maninho, fiz-lhe das nossas festas cúmplices na cabeça, e sussurei-lhe durante a nossa troca de olhares: "Maninho!, a mãe agora já não está aqui, mas continua a amar-nos, não é?, e nós a ela, não é, Maninho?" e percebi, finalmente, o nome do gato: o teu gato, mãe, Olga  - gatixo, como lhe chamavas -, é mesmo o meu Maninho) * 

... e nem somos orfãos, os dois, porque o Amor não tem fim... 

 
in memoriam, com Amor

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