30 de novembro de 2014

deixem-n'opinar

http://www.publico.pt/sociedade/noticia/deixemna-nascer-1670720

uma vez, há muitos anos, quando eu próprio também escrevia para um jornal (enfim, ele há experiências na vida pelas quais temos que passar, nem todos nascemos com o rabo virado para a lua no signo certo )

 
escrevi que basearmo-nos em horóscopos de jornal - tantas vezes escritos por jornalistas estagiários, e um subterfúgio relativamente recente dos responsáveis dos jornais apenas para aumentar a tiragem e ganharem mais uns cobres, explorando assim a crendice das pessoas e alimentando-a perigosamente - e depois apreciar critica e fundamentadamente a Astrologia é como provar um cordon bleu congelado de supermercado e depois pôr-se a arrotar sentenças sobre a gastronomia francesa.

mas isso foi há uns anos.

mas porque as pessoas evoluem (nem todas, ou nem por aí além, como é evidente), se fosse hoje, diria que é como atirar maçãs ao ar para provar cientificamente as teorias do Newton sobre a gravidade.

e para as pessoas evoluírem é preciso tempo, disponibilidade, vontade, e humildade - independentemente, pasme-se!, do seu signo.

por mim vejo: quando tinha quinze anos, tinha bastante admiração pelo MEC. Mais tarde, passei a ter apenas respeito intelectual. Hoje, por motivos vários do qual a crónica anexa é apenas o mais recente, tenho “apenas” compaixão.

ser um homem inteligente não faz dele necessariamente um ser consciente. A prova disso é o mundo actual, tão bem captado na frase “não adianta ter um doutoramento e não cumprimentar o porteiro”. Ser consciente implica - além de tudo o resto, que não é chamado ao caso - chegar às suas próprias conclusões, pela experiência vivida e pela salutar curiosidade sem preconceitos rígidos que faz avançar o conhecimento e assim, o mundo. E depois, com alguns outros ingredientes fundamentais, talvez esse conhecimento se transforme em compreensão e, eventualmente, sabedoria.

repetir bovinamente “verdades” que nunca se questionaram, investigaram, experimentaram, experienciaram ou viveram não é, sequer, sinal de inteligência - mas vá, já nem vamos por aí. É certamente sintoma de ser uma extensão acrítica, não individualizada, da cultura e da consciência de massa presa, a cada momento, do paradigma dominante e que dispensa - para não dizer, exige não - pensar por si próprio. Repetir o que se acha que se sabe não é, em definitivo, caminho para a individuação - mas isso não tem como preocupar quem nem sequer tem ideia do que isso significa.

escrevo isto a pretexto, mas não especificamente, da crónica (até bastante engraçada e bem-esgalhada, conquista natural de qualquer intelecto bem desenvolvido) do sr. MEC sobre a Astrologia e que depois de Public_ada começou a correr o Facebook (e outros locais suspeitos, imagino) e a despertar, como qualquer outro tema importante para o Homem, particularmente no domínio das suas crenças particulares, aceso debate. O problema, além da polarização evidente e evidentemente desnecessária que em vez de trazer luz para a discussão, radicaliza e subjectiviza emocionalmente os argumentos, é que não se encontra naquela crónica nenhuma referência à Astrologia - apenas a horóscopos de jornal, que não o são.

e escrevo isto, também, no meio de uma conferência internacional de Astrologia que reúne centenas de astrólogos de quase todo o mundo, e que nem sequer é das maiores. Recordo uma outra recente, em New Orleans, que reuniu 1600 astrólogos de todo o mundo e que - quanto mais não seja, teve isto de positivo - levou milhão e meio de dólares para a economia depauperada de um estado profundamente afectado pela destruição das cheias recentes e contribuiu assim para a economia local e para os habitantes daquela cidade.

mas recordo também, o que é fácil porque aconteceu há meia dúzia de horas, as palavras de um colega americano que dizia, a meio da sua palestra: quando decidiste tornar-te astrólogo, decidiste abandonar a cultura dominante da tua sociedade e compreender o mundo por outras perspectivas que fazem de ti um outsider.

evidentemente, outsider.

mas lá porque uma imensa maioria concorda com explicações e versões pobrezinhas da “realidade”, não significa que esteja “certa” - ou que não haja, no mínimo, outras perspectivas diferentes sobre a mesma realidade. Afinal, como dizia o Freud, quando Pedro fala sobre Paulo, ficamos a saber mais sobre o Pedro do que sobre o Paulo.

lá porque existem milhões de católicos, isso não significa que a igreja católica esteja “certa” ou seja a “verdade”. O mesmo se aplica aos muçulmanos, aos capitalistas, aos fanáticos do futebol, aos hedonistas, e a todas as outras formas de cegueira, miopia, e exclusividade - quero dizer, exclusão de todas as outras verdades: daquelas que não têm como ser aceites, compreendidas, por ignorância, prepotência, incapacidade, ou simplesmente (e mais habitualmente) medo.

quero dizer, olha em volta.

a tua sociedade não quer que contemples a imensidão do espaço à tua volta. Não quer sequer que penses na dimensão microscópica da terra, que é um planeta entre vários outros ao redor de um sol entre vários outros num sistema solar entre vários outros numa galáxia entre muitas outras. Cem biliões de anos-luz é muito espaço para pensar, para considerar, e muito perigoso para a existência assustada da maioria dos homens.

a tua sociedade não quer que contemples, nem sequer que penses. A tua sociedade quer é que compres jornais, de preferência desportivos, que ligues a televisão, e que compres. Acima de tudo, que compres - senão, como é que vais manter a máquina, pagar aos jornalistas, aos repositores de iogurtes, aos administradores da plutocracia?

a tua sociedade não quer que penses, e uma das maneiras de o fazer é ameaçar-te com o fantasma de seres “fora”, diferente, ignorante, pouco “científico”, e com isso, manipula o teu medo de pensares por ti próprio. Ah!, Iluminismo, onde não vai a tua proposta do “Sapere Aude!”. “Ousa saber”, sim, mas nada de inconveniente. Bebe o leitinho. É de ti que depende este admirável mundo novo… Oh Iluminismo, onde não vai a tua proposta… ou melhor, por onde foi a tua proposta: pelo cano abaixo, e tudo em nome dos privilégios instalados dos césares deste mundo.

nada de novo. É assim desde os tempos feudais.

nada de novo. Apesar disso sempre houve Homens que se destacaram da mediocridade, da conveniente maioria, e que ousaram ir além da segurança proporcionada pelo rebanho.
esses foram excomungados. Queimados na fogueira. Envenenados. Destruídos. Obrigados a retractarem-se. Desde o Sócrates ao Galileu, passando pelo Tesla e tantos, mas tantos, tantos outros, e tudo isso em nome de quê? de uma ordem estabelecida que o livre-pensamento está condenado a pôr em questão. Não é necessariamente a destruir - apenas na medida em que essa ordem careça de Luz, de Liberdade, de Dignidade, e de todas as outras qualidades que compõem a grandeza autêntica e real, e nossa por direito inalienável, do Ser Humano. E por aí se vê, por essa aflita sofreguidão em silenciar os Livres, e roubá-los de quaisquer possibilidades de prosperarem ou sequer sobreviverem, num sistema que glorifica a ignorância, a separação (seja do Cosmos, seja do Irmão), o medo, a cobardia, e a doce aquiescência perante o que a televisão (como arquétipo do órgão oficial de manipulação do pensamento das massas) quer que todos pensemos.

não penses.

liga a televisão.

lê o jornal.

toma a bica, enquanto tiveres dinheiro e coronárias.

lê e obedece ao que te dizem os ministros (curioso, magister e minister - o “mestre” e o “inferior ao mestre”, sendo que os ministers é que chegaram a titereiros deste mundo - enquanto não forem de lá corridos pela própria Evolução do Homem, inevitável com o tempo, por muito que as forças no poder lhe resistam e tentem controlá-la)

não leias Noam Chomsky. Vota mas é no mais sexy.

não penses no teu lugar na imensidão do Cosmos. Liga a televisão e aprende a rir-te à força de programas sem graça nenhuma, porque são esses os que vendem detergentes e mitos à medida do que é tolerável para as donas-de-casa e demais consumidores.

lê as crónicas articuladas dos nossos cronistas da moda; são tão engraçadas. E dão-te tanta mais segurança, e argumentos, contra os perigos que ser Livre poderia comportar para ti.

não leias Aldous Huxley, nem Orwell.

bebe a soma, sê um cidadão classe A (aproveita e compra o mercedes correspondente, que temos que alimentar a indústria dos perecíveis inúteis e rapidamente obsoletos), casa-te com outro cidadão classe A e acasala, faz 2.4 filhos que é a média conveniente, a não ser que sejas de família bem e queiras sair na caras ou no correio de domingo, nesse caso, quantos mais clonezinhos teus fizeres, maior a panorâmica da fotografia e as pessoas vão ter que deitar a revista de lado para vos poder ver todos alinhados, uns ao lado dos outros, os orgulhosos herdeiros da 3D - e fundadores da ronda seguinte.

e faz férias na neve. Compra Gucci, e todas as outras marcas que toda a gente que é gente deve usar. Nem que seja da feira de Carcavelos.

isso sim, fará de ti alguém.

agora, pensar?!

não te dês ao trabalho.

nós temos aqui uns senhores muito articulados e inteligentes que são pagos para pensarem por ti e te ajudarem a acreditar naquilo que nós precisamos.

e não os leves a mal. Eles provavelmente também não sabem que são usados por nós, como pilhas Duracell, para manter os nossos brinquedos a girar - e depois serem deitados fora, como tudo o resto que não tenha encontrado em Si nenhum valor mais real, profundo, ou eterno.

e não te esqueças, já agora, de jogar no euro-milhões. Porque é essa, afinal, a única maneira que tens para poder mudar de vida, da tua vida miserável.

… é evidente que sem mudares tua consciência, por muito dinheiro que tenhas, ou fama, nunca nada mudará qualitativamente na tua vida. Mas isso a gente não escreve.

isso é para tu descobrires, se fores capaz de ir além do que te é enfiado pela goela abaixo,
e não estamos a falar de gastronomia. A gastronomia é na página seguinte *

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