26 de novembro de 2014

carta aberta a José Sócrates (e qualquer português)

J.S.,

... já dizia a previsão para Virgem, publicada há um mês neste mesmo blogue: “lembra-te de que podes contar com todos aqueles que ajudaste no passado”.

tu por exemplo, J.S., foste ouvido no campus de justiça que inauguraste durante o teu governo, foste alojado a alimentado a cozido à portuguesa na prisão especial que requalificaste durante teu governo, visitado por um amigo e pela mãe dos teus filhos. Não é demasiado mau karma!, e o passado, espero que o reconheças, esteve presente o tempo todo enquanto se te decide o futuro.

e por falar em futuro,
haja o que houver, não ligues aos numerólicos anónimos (nem aos chineses!, que ainda são piores) que insinuam coisas estúpidas como o facto do teu número ser agora o 44 (quatro e quatro oito, que é o número do tás fdddo), e isso ter a ver com a morte, o poder, o fim, e o diabo (a quatro, certo?) - se me permites, pensa antes neste inevitável simbolismo da Vida, sempre presente em tudo, como uma simples alusão ao eterno retorno, what goes around comes around, e tal…

… mas que digo eu, dirigindo-me a um mestre filósofo (e ainda para mais, com nome do filósofo pai disto tudo - e se há um dono disto tudo, com certeza também há um pai, mesmo - ou especialmente - quando parece que não há pai)?

Sabes isto muito melhor do que eu… E até aposto que é durante esta passagem de Saturno por Sagitário que “tiras” o doutoramento (vê lá a quem, e tenta não deixar testemunhas) - afinal, é Saturno em Sagitário: autoridade (Saturno) filosófica (Sagitário). Noutra voltinha da espiral, seria uma autoridade ética - mas isso é para outra voltinha, e para uma sociedade que o mereça e tenha conquistado.

mas pronto. Um homem faz o que pode, e isso é tudo. Por isso mesmo é este, parece-me, o último comentário que farei sobre este nosso assunto, caro J.S.

Tenho a agradecer-te, ironias à parte, as medidas extraordinárias (ou serão, simplesmente, ordinárias?!) que permitiram regularizar fortunas escondidas (eu infelizmente não tenho nenhuma e não pude aproveitar, mas por minha exclusiva responsabilidade; há que estar preparado para as oportunidades - particularmente as novas - e eu confesso que não estava). Também o Magalhães e o Simplex, que fizeram uma diferença extraordinária na minha vida, na minha consciência, na minha educação, e pelo que observo, no mundo à minha volta. E as PPP's, claro. E tudo o resto - do que se sabe, ao que se imagina.

e não voltamos a falar no assunto. Há que separar claramente a metafísica da justiça, quanto mais não seja porque para a justiça não há relação nenhuma necessária entre o perpetrador e a sua “vítima” - e na metafísica reconhecemos que existem fios invisíveis que os atraem inevitavelmente um para o outro.

e já agora, há que separar a política do governo; porque no governo governam-se nações e povos; e na política governam-se os políticos.

e há também, finalmente, que separar o que é Real do que é transitório.

e isto tudo é, claramente, transitório. Mas é que tu hoje estás na moda, na berlinda, és tu hoje o assunto do instante. Daqui por algum tempo, ninguém se vai lembrar. Mas enquanto estás na moda, nós pecadores apedrejamos-te a ti - enquanto nos vamos despindo, porque a seguir somos nós. Ninguém escapa. Mas o momento é teu, basta abrir o Facebook e ver do que toda a gente fala, o que toda a gente recita, aquilo que alimenta o instinto sanguinário, a indignação, e o senso humano de justiça. Foste, de certa maneira, um agente para o renascimento da esperança no meu povo. Desembocaste daquela manga de avião, vindo do estrangeiro e como dizem algumas más-línguas, ainda a assobiar Edith Piaf, para os braços das autoridades portuguesas em simultâneo com a Lua Nova de Sagitário, que assinala o momento de transição do lodo para a luz.

tudo é transitório, mas tu hoje pareces invulgarmente real - e importante.

Daqui a um pouco de tempo, ninguém se vai lembrar; e daqui a um pouco mais ainda, já cá não estará ninguém para lembrar. Entre um e outro bocejo de Brahma, ou mesmo um pestanejar, o que é actual, e importante, passará a ser história - e não valerá senão na medida em que tenha servido como semente para o instante seguinte; e cada vida, a tua e a minha incluídas, não servirão para muito mais a não ser naquilo que tenham servido a vida do colectivo.

e não tarda nada há outra Lua Nova, e a malta sempre se há-de ir entretendo, ou confundindo, com o barulho das Luzes.

de modo que,

mantém-te firme. Recorda que reputação não é carácter; e que de tudo o que é, e é irreal mas nem por isso deixa de parecer ser, o carácter é ligeiramente menos irreal do que a reputação. E que é tua própria consciência, que ninguém tem como conhecer ou alcançar, o único argumento de que disporás nos teus diálogos, ou monólogos, com Deus.

e por fim, que esta carta vai longa e tu tens mais o que fazer (bom, talvez não muito mais, mas seguramente estudar filosofia e agradecer a ti próprio pelo momento em que decidiste requalificar esse hotel, subsidiado pelos contribuintes - foi ou não foi um rasgo, antecipatório e visionário, ou mesmo mais uma das trágicas ironias da Vida?) - agradeço-te a função que desempenhaste perante, em nome, e para benefício, do colectivo - e que não é, necessariamente, aquela que te reconhecem. O teu colega filósofo Hegel falava dos agentes da história, e tu foste - tens sido - e serás - um deles para nós. Que hei-de eu dizer mais, quando és tu quem tem armazenadas dezenas de milhares de cópias de um livro escrito por ti próprio, chamado - ironicamente, quem sabe?  - “A Confiança no Mundo”?

confia, pois então, porque não há como falhar. E não te tortures, nem o permitas. Afinal, há que separar claramente aquilo  que pertence à justiça dos homens, e à justiça de Deus. E ainda que não saibas, tal como pode suceder com qualquer um de nós, o que estás condenado a descobrir (e pelo menos a isso, estamos todos condenados): é que mesmo que uma tarde, a outra não falha *

e o resto... o resto é o tempo. O tempo e o vento. Como dizia o Jorge Amado, são esses os únicos remédios universais para estas e outras, as maleitas temporárias que os homens vão acusando; porque acusar, afinal, ainda parece ser o principal recurso de que a maioria das pessoas dispõe para lidar com a própria dor.

com gratidão, e Confiança no que for,



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