15 de maio de 2014

Siddharta na sanita




(Wesak 2014, Lua Cheia de Touro em 14 de Maio de 2014)

Deus é Grande:

Eu, que sou um invejoso que não pode ver nada,
também já tive direito hoje, por sua Obra e Graça,
à minha própria (aaaah "minha"... a ilusão continua....) experiência de Siddharta Gautama.


Sento-me na sanita de um café a obrar (how Scorpio is that?) resquícios do que o aquisitivo Touro em mim tinha ingerido e adquirido temporariamente para honrar a dimensão que de mim é matéria e dela se alimenta também.

Não está escuro, mas também ainda nem tudo é luz
naquela casa-de-banho

... e à medida que os olhos se habituam à escuridão, na sanita como na vida,

começa a ficar mais fácil distinguir o que sempre ali esteve - pelo menos desde que entrei - e que antes não podia ser visto.

... e subitamente apercebo-me (como tudo o que é súbito, levou o seu tempo de preparação)

de uma barata morta, tombada de patas para o ar e ventre estaladiço à mostra,

assim já sem réstia de ânimo,

junto ao balde do lixo.

recordo ou imagino (sabe deus de onde vem a imaginação, e se não será da memória)

a experiência do príncipe Siddharta quando escapou das muralhas do castelo de seu pai, dentro das quais tudo era convenientemente belo, perfeito, e mantido artificialmente jovem, sem sombra de dor, morte, feiúra ou decadência

(e como descreveria o ser humano sua experiência sem a miopia redutora dos adjectivos?)

- e descobriu assim que por uma espécie de amor feito protecção infantilizante, -

Estava a ser roubado à experiência de tudo quanto se passava fora de portas, das portas do paraíso artificial onde por "amor" seu Pai queria que o príncipe vivesse para "sempre" - fosse isso possível, e não apenas a pretensão de um rei, que por ser rei e ignorante, achava que poderia ser como ele queria -

de modes que,

a obrar na casa-de-banho de um café pouco iluminado,
por obra e graça do Santo Espírito reconheço a barata morta a brilhar, no meio da escuridão,

e constato
outra vez - mas hoje que é Wesak tem um cheirinho especial -

como Tudo está em Tudo

como é indissociável um eixo (como é que eu estaria ali a escorpiar se não tivesse taurado antes?)

e que embora não seja sempre indispensável,
às vezes é nos locais mais escuros e mal-cheirosos
que temos as mais belas revelações da Luz

e que talvez se a Luz fosse tudo, e portanto excessiva desde o início, ter-me-ia provavelmente encadeado e impedido de ver a vida e a morte nesta dança

- e provavelmente inibido de fazer a minha obra, deixando-me entupido (afinal, quem é que quer, especialmente num dia como este, cagar na Luz?)

... e não estou a falar do benfica.

Deus sabe que não estou
a falar do benfica *

FeLuz Wesak e Universário, Querid@s Tod@s,

possa a Luz Tudo Penetrar

possa o Olho Tudo Ver

possa a Obra cumprir-se *

... não há nada como ter um olho que por seus próprios desígnios

nos leva a ver a Luz *


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