9 de maio de 2014

com um olho no burro...


Sentado numa esplanada, tomando um café, com um olho no burro e outro no cigano, que é como quem diz, com a atenção repartida entre o "mundo michaels" e o que se passa à minha volta (e sem necessidade de definir, por enquanto ou para já, se sou eu o burro - ou o cigano).

Noutra mesa está um homem sentado a tomar o pequeno almoço. Aproxima-se um outro, seu conhecido, que se dirige ao mesmo estabelecimento a que pertence a esplanada onde estamos. Quando o reconhece vem cumprimentá-lo e dou por ele a perguntar ao outro, com um ar ligeiramente "preocupado": "está sozinho?", e perante a anuência do primeiro, diz-lhe em jeito de tranquilização (ou será tranquiliza_cão?): "eu venho já para o pé de si", como quem diz "eu trago-lhe já comida" a quem tem fome, ou "a mãe vai já" a um menino que precisa que lhe limpem o rabo.

- e isto, sem sequer perguntar se o outro quer companhia nem lhe dar grande hipótese de resposta, entrando rapidamente no café para ir buscar o seu pedido e regressar, pelo ar, com prontidão para salvar o outro da solidão que provavelmente lhe atribui, fantasia ou imagina - como se nem sequer lhe ocorresse que o outro possa estar bem assim ou até, inclusivamente, preferi-lo.

... e isto independentemente da parte do outro, que é a responsabilidade de expressar a sua verdade, o seu desejo, a sua gratidão, incómodo, ou preferência. Ninguém a não ser o próprio pode saber o que quer no momento, quão fácil ou difícil lhe pode ser o debate entre a "boa-educação", que seria hospedar o outro na sua mesa contra vontade, ou agradecer genuinamente mas dizer "prefiro estar sozinho, obrigado (senhor)", se ter companhia não é o que quer de momento, ou qualquer outra possibilidade. Ninguém, a não ser o próprio, pode saber sequer se existe algum tipo de debate interno desta natureza ou qualquer outro. Ou qualquer outro debate interno que o distraia, ou ensurdeça, daquele - se houver. E ninguém, a não ser o próprio, pode sabê-lo.

Para mim, que sou apenas um observador exterior ainda por cima só com um olho ("o observador zarolho": se eu curtisse mesmo dos rótulos, escolheria este momentaneamente para me definir neste quadro),

Para mim, que não sou mais do que um ignorante opiniático - como qualquer outro ignorante -, mas relativamente treinado a não dar "opiniões" a não ser que mas peçam, e mesmo assim sabe deus,

e não me dando opinião nenhuma,

fico a pensar - por uns momentos, muito menos momentos do que me demora a escrever isto no teclado do tm, e portanto quase já a morrer de tédio e de enjoo com a tarefa que escolhi para mim próprio (se eu soubesse que ia levar este tempo todo se calhar nem o teria começado ahahah mas tá quase, suchard express - mais um esforço, respira fundo, and keep going)

Fiquei portanto a pensar uns instantes, e pensei portanto há já um grande bocado, um bocadinho sobre o que este mini - episódio, que é no fundo a vida, que é uma desmultiplicação de mini - episódios vezes sete ponto dois biliões de seres humanos (e todos os outros) vezes sessenta segundos por minuto, bla bla bla, 168 horas por semana, décadas em média por vida, sete ponto dois biliões de vidas humanas, e entretanto já terão nascido mais uns quantos, imagine-se o número de episódios (é quase pior que as novelas)

... e como este episódio nos (nos, não, não vou usar um plural abusivo) como este episódio me fala das relações entre as pessoas, da maneira como projectam suas próprias crenças sobre os outros (se para mim estar sozinho é mau, e vejo o outro sozinho, vou já a correr salvá-lo, por exemplo, e faltaria perguntarmo-nos "quem" é que eu estou realmente a querer "salvar" da solidão - sem sequer dar espaço ao outro de terminar a frase, por exemplo, "estou sozinho sim, e tão perfeito, que se mexe estraga" - por exemplo),

E de como tende o ser humano a assumir que cada um de todos os outros vive também dentro da sua própria bolha, de uma bolha rigorosamente idêntica em termos de sentimentos, opiniões, necessidades e preferências, - e em absoluta sincronia de momentos internos, o que é ainda menos provável)

... e de como tudo isto seria provavelmente mais fácil para todos, ou pelo menos mais delicado, respeitador, atencioso, amoroso, consciente ou simplesmente - em suma - mais simplesmente humano,

Se quem chega pudesse e soubesse simplesmente perguntar a quem está sentado sozinho na esplanada: vou lá dentro; quer que lhe traga alguma coisa?

... digo eu, mas eu tou a ver só com um olho. Com o outro, vou continuar a ver no facebook post inteligentes, inspiradores, motivadores, frases grandiosas e altamente formativas do carácter, de tal maneira que se eu fosse capaz de ser a todo o instante tudo o que já "aprendi", li e encontrei no Facebook - ou que se encontra todos os dias, 365 dias por ano e às vezes 366 - já seria muito mais do que humano. Além de santo. Estão a ver os mestres ascensos? Eu estaria muito além.

Mas por enquanto sou só esta espécie de zarolho. Mas agradeço a deus ("obrigado Senhor") por ser zarolho em vez de completamente cego, e absolvo-me por ter estado tanto tempo a escrever uma cousa que demorou um segundo a pensar.

Está decidido. O homem na esplanada deve ser o cigano.

porque o burro... sou eu *

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