15 de maio de 2014

a chegada (a ponta delgada)



providências, atrasos e interstícios à parte, e já (quase, praticamente) "aterrado" nesta pérola atlântica, belo reflexo do Céu em forma de terra (but then again, what else is new? - não era o Jung que apanhava pedras do chão porque o lembravam do céu? Eu também já apanhei muitas pedras, na expectativa de encontrar o Céu... aos dezassete anos, por exemplo, ia para o Bairro Alto sozinho, ao fim-de-semana à noite, escrever e procurar deus no fundo de copos de absinto... nunca o encontrei, pelo menos na forma em que o buscava, e hoje reconheço que sempre lá esteve - mesmo quando eu não estive - mas isso é outro assunto. Não fica para uma lição... fica para uma auto-biografia não autorizada ahahahah)


além de ter sido incrivelmente estimulante o Encontro que o "atraso" proporcionou no aeroporto... e a grata oportunidade de ter "tempo livre", que vai sendo tão raro...

ao aterrar - ao aterrar, não, ao chegar ao aero_posto - sou (tão) gentilmente recebido por uma Irmã de Caminho (se decalcássemos a famosa frase do Orwell, recordaríamos que "todos os Homens são Irmãos. Mas uns são mais Irmãos que outros" - até, digo eu, nos reConhecermos Todos a Nós Próprios e sermos assim capAzes de reConhecermos Todos os Outros em Nós, como Nós, e a Nós nos outros -ai ai tantos nós, ou nozes, qu'inda m'aparece por aí um esquilo - falando de Orwell)

- reconhecemo-nos como Irmãos-mais-conscientemente-afins, por assim dizer, pela Gentileza do Coração em suas várias expressões, incluindo o Cuidado, o Carinho, o Respeito, a Autenticidade, o Olhar, a Atenção, a Fidelidade a Si mesmo e - às vezes -, pela vontade de ficar cinco minutos além do estritamente necessário a "tomar um café" - uma das formas, e pretextos, culturalmente mais habituais de nós portugueses formularmos o nosso desejo de "estar com" - quando dizemos "bora tomar um café" não é do café que se trata, pois não? - a julgar pela quantidade de bicas que tomamos sozinhos diariamente :-) não precisamos de companhia prás bicas - às vezes precisamos de companhia prós bicos, mas isso é outro assunto - mas não prás bicas)

de modo que sou abençoado e nunca me cansarei de o AgradeSer *

- - - agora, agora mesmo, dou por mim instalado num Hotel chamado Talismã (e o sortudo sou eu!), junto ao Jardim Sena Freitas, e de repente - ao ler a inscrição na sua lápide, estátua, ou seja lá o que for que se chame àquilo que lá está(tua), percebo:

que tenho andado a usar um rótulo profundamente inadequado e que estou cheio de inveja do dele: insigne escritor, orador sacro e polemista. Acho que vou trocar.

Seja como for, isto de estar associado com a Astrologia, embora tenha a vantagem de não precisar de ser levado a sério por ninguém, deixa largamente à fantasia - e à ignorância - das representações sociais dos "outros" o que fazemos quando dizemos "Astrologia". Há quem estenda as mãos, vire as costas, fale em tarot, anjos, bolas de cristal, espiritismo, ciência, religião, reiki - e até de previsões para o futuro, vejam lá! ao que uma pessoa associa a Astrologia e pró que um homem está guardado, se alguma vez chegar a ser homem; e também há quem franza o focinho, e em vez de estender as mãos para ca gente lhes leia as linhas das mãos, se agarre à bolsa com quantas forças tem, para não ser roubado. Não é que os governos eleitos por si, e todas as suas escolhas anteriores, lá tenham deixado (na bolsa) grande coisa, mas a última coisa que alguém quer é ser roubado por um astrólogo.

... mas o que me fascinou, mesmo, foi a inscrição na lápide do Sena Freitas: "insigne escritor, orador sacro e polemista".

eu nunca serei um Sena Freitas - o máximo que conseguiria parecer, se quisesse ou precisasse de mimetizar alguém, seria um "Cenas Feitas" (ou quanto muito um "Cenas Fritas", e é melhor parar por aqui com as translineações, aliterações, ou lá o que é isto de ir mudando letrinhas e saltitando assim (daqui a pouco estou a falar de Canas, Canas Fritas), de palavra em palavra, mudando-lhes completamente o sentido e o horizonte da original, da original não, da anterior, embora - o original seja sempre anterior, o anterior nem sempre é original (é por isso que o Universo precisa de cada Um de Nós - e tu páh!, caso não saibas, também tás convocado - mas não é para torcer pela selecção, é mesmo para jogares o teu próprio jogo mesmo que ninguém te ponha cachecóis à varanda nem dê grande bandeira)

... e de repente o rótulo que lhe foi aplicado (ao original, ao Senas Freitas) - e que aparentemente perdurou até hoje, menos ficou escrito na pedra - soa-me extraordinariamente bem: e é muito mais parecido com o que gosto, e dou por mim, a fazer uma parte significativa do tempo, pelo menos, para o "público" - porque além dos vícios públicos, também há as virtudes privadas - e as depravadas - se é que isto algum dia tem fim...

de modes que,

se eu "fosse" (quero eu dizer, adoptasse um rótulo assim - porque os nomes não falam das coisas, os rótulos não dizem o que somos, apenas dizem qual é o rótulo que usamos - e se às vezes os rótulos esclarecem, outras vezes confundem - às vezes levam-nos mais longe, outras vezes deixam-nos aquém - e deve ser esse um dos poucos aspectos comuns entre rótulos e rótulas, embora, ninguém fique coxo se apanhar um pontapé no rótulo)

- - - e assim, "fosse eu" um "insigne escritor, orador sacro e polemista", até os meus anfitriões "não astrológicos" - estes, aqui, e todos os outros em todos os outros lugares, os que não pertencem à comunidade astrológica internacional quero eu dizer, poderiam apresentar, quando me convidam para falar, um "insigne escritor, orador sacro e polemista" em vez de um perigoso, ridículo, descarado, ladrão e tonto "apenas astrólogo" que o que anda a fazer, na verdade, é a enredar as pessoas nas malhas da otarice - tal como as aranhas segregam teias magníficas - com a subtileza própria dos intuitos - para apanharem as mosquinhas rechonchudas que voam tontinhas, de carnes negras e estaladiças zumbindo da mosquice toda à mostra *

de modo que me sinto abençoado - por falar em mosca a zumbir - e o confirmo a cada passo, instante, olhar, respiração, e pepita de Vida. Cada momento, inspiração. Então, vi o jardim do Senas Fritas, a Alfândega, o mar, o supermercado das Poupadinhas, uma embarcação Transinsular, e tantas, tantas outras coisas - cores, ideias, sentimentos, auras e, a disfarçar tudo isto, pessoas - que nunca terei como delas... falar *

(felizmente ele há gente que sabe, quando se fala de um grão de poeira, que todo o Universo lá cabe dentro - porque esse único grão de poeira é, para cada um, do tamanho de cada um de Nós, e função da sua própria grandeza de Espírito - e pensar que, ao contrário das roupas, no caso dos grãos de poeira afinal, one-size-fits-all - - - é cada um destes "all" que se redimensiona a si mesmo para caber, ou ampliar, e nunca saberemos o que cabe num grão-de-areia, e muito menos, quantos lá dentro caberão, no cabrão do grão-de-areia e já não se percebe, de repente, como é que o grão de areia já ocupa tanto espaço, e como é que começou por ser uma poeira e agora já se transformou em grão... será de bico?)

bem, e por falar em bico, tudo isto para dizer o quão bem-vindo, bem-chegado, e agora sim, já aterrado, me sinto.

e por falar em grão... Gratidão! Gratidão! Gratidão!

(e isto é na Ponta Delgada... imagine-se se fosse outra "ponta")

polemista, quem?

naaaa!... insigne escritor! Pelo menos a pomposidade do título é imbatível!

e quando voltar a morrer, mas desta vez, deixem-me pelo menos uma última pedra. Inscrita :-) a dizer: "pelo menos divertiu-se e viu se serviu"

... e depois há-de ter ido polemizar... para outra freguesia

(funny, como há padrões que se repetem... repetem... repetem... repetem...)

é um prazer ter chegado a esta... freguesia *

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