22 de dezembro de 2016

Feliz Natalidade

Este é um tempo de culminar.


todos os anos, ao redor do 21 de Dezembro, o Sol estícia-se; e as trevas distendem-se. É a noite mais longa do ano no nosso hemisfério.

O Sol aparentemente estaca durante três dias - e não deixa de ser irónica a sua paragem aparente, já que começa por ser o seu movimento a primeira ilusão -



e a noite parece durar mais do que nunca.




mas é precisamente nesse momento e no dia - na noite - das trevas mais longas do ano,

é precisamente nesse instante que as Trevas atingem o seu limite e por isso a Luz ganha novo impulso, e recomeça gradual, quase imperceptivelmente, dia após dia, a brilhar cada vez mais,

e a iluminar, durante cada vez mais minutos até que se tornem horas, a experiência dos homens, até vir

a tingir o seu auge no dia mais longo do ano, o solstício do Sol no Verão. E é, então, a loucura :-) a estultícia do solstício no verão. Como? Veremos.

  

mas por enquanto ainda é frio, e restrição. A sabedoria de tirar muito muito de muito pouco, a hibernação / invernação, a escassez de recursos e de Vida, a vitalidade limitada, a necessidade de administrar sabiamente os recursos limitados.

A aprendizagem através da dificuldade e da limitação: a limitação da matéria e dos recursos naturalmente à disposição.

A irreversibilidade do tempo.

A inata consciência da escassez, e de Cronos (o tempo), a necessidade da auto-fiscalização e do auto-controlo, a responsabilidade perante a própria existência - a ambição de ter o maior sucesso possível no processo de não só sobreviver, mas de aprender com a experiência e transformá-la, gradualmente, em sabedoria, para que se trate de sobreviver cada vez menos e cada vez mais de viver...

aprender com o passado, confiar no já conhecido para guiar o futuro construído a pulso e a escolhas no presente,

o capitão do navio, o mestre hábil e experiente, o sábio ancião, o velho lobo do mar



meet Capricorn.



esta é a altura do confronto, sem filtros e sem véus, com a realidade, com o peso das circunstâncias concretas, com o que está instituído, com a consequência de todas as causas anteriores. Altura de reconhecer as circunstâncias, fazer um assessment, um balanço, um levantamento, um diagnóstico, um reconhecimento, uma 'vestoria' :-)



e aceitar as limitações.



e aceitar também a tristeza.



não cabe falar aqui das depressões sazonais recorrentes, tão previsivelmente recorrentes, e tão reconhecíveis - facilmente reconhecíveis (mesmo que se disfarcem de raiva, ou de culpa) - nos consultórios de psicoterapia, se não nas ruas, aos volantes dos automóveis, nas filas para o pagamento nas caixas dos mercados: dos de mercearias, dos de roupa, dos de cultura, dos de tecnologia;
 

não cabe aqui falar do poder que o Natal tem de evocar as reminiscências infantis do Natal em família, do sentimento de pertença ou orfandade, da grande reunião anual da família, da memória inevitável dos familiares falecidos, evocados ou omnipresentes, dos sonhos de abóbora e dos sonhos desfeitos, dos netos, dos filhos e das filhoses, dos antepassados, da tradição, dos cheiros e dos rituais da infância entretanto perdida nas brumas do tempo, no frenesim da vida adulta ou no egoísmo da memória: da magia dos presentes e do encantamento da infância, da inocência com que o Natal era vivido uma vez e que tornava possível sonhar -



não cabe aqui falar de Caranguejo como o pólo oposto e complementar de Capricórnio, da reminiscência infantil como resposta inevitável à necessidade de "crescer" e ser adulto, de perder a inocência, de aceitar a passagem do tempo, de ter de ser pai e provedor quando a memória de ser filho e provido é ainda tão viva, e tão presente sob a pele - embora aparentemente distante, afastada da superfície da consciência por um dia-a-dia de tarefas, ocupações, preocupações e responsabilidades: a "vida de adulto" que se leva, e na mor das vezes com alguma impunidade e esquecimento da outra, dia após dia, mês após mês, ano após ano, década após década, até à morte - menos quando é Natal.



o que cabe aqui dizer, sim, é que este é um tempo de culminar



que todos os anos, ao redor do 21 de Dezembro, o Sol estícia-se; e que as trevas se distendem. Que é essa a noite mais longa do ano no nosso hemisfério. Que o Sol aparentemente estaca durante três dias - e que não deixa de ser irónica a sua paragem aparente, já que começa por ser o seu movimento a primeira ilusão -



e que nesse momento em que a noite parece durar mais do que nunca

  

precisamente nesse momento e no dia - na noite - das trevas mais longas do ano, é esse o instante preciso em que a Luz ganha novo impulso, e recomeça gradualmente a brilhar, mais e mais, até atingir o seu auge no dia mais longo do ano, o do solstício de Verão



e que se, como Lao-Tzu ensinou há milhares de anos,

"qualquer coisa nasce sempre do seu contrário.

Se o verão dá lugar ao inverno, a noite ao dia, o frio ao calor, se o claro pressupõe a existência do escuro, o branco a existência do preto e assim indefinidamente, então a realidade tem como complemento a não-realidade.

Ser e não-ser são os dois pólos de uma mesma curva",



então este é um tempo de início apesar do culminar



um tempo de Luz e Calor apesar de fazer frio,



que muito pode nascer dentro enquanto muito morre por fora



que este é um tempo de liberdade absoluta na aceitação das restrições intransponíveis,



um tempo de alegria na aceitação da tristeza



o momento preciso de fazer o balanço do percurso percorrido,



o momento de processar toda a memória,



o momento de cessar a expectativa.



o momento de concluir uma caminhada



mas acima de tudo, o momento de recordar



que o Caminho apenas começou.



*



com um abraço de Luz e enCorajamento; senão na pele, no âmago da Consciência; que se estenda e estenda e estenda até ao mais íntimo do verão; senão como aconchego na caminhada pelas mais frias e desertas ruas, na ante-câmara do Coração onde todas as Almas, despidas de capas e memórias e defesas e dores, se revelam: nuas.


Apesar do frio. A atmosfera.

O Calor. Humano.


Feliz Natal idade,



nUno Michaels

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