25 de dezembro de 2013

desabafos

Confissão: estou num choping centro, aka "maal".

Localização: na "zona" da restauração (antes fosse).

Constatação: aqui ninguém diria que há crise e gente com fome; assim como assim, pelo menos aqui inda há muita gente que come.
 

(Interregno: e sapatos... extra, não, infraordinários. E meias, meias inteiras de choque, como as brigadas. E expressões. As expressões é que pontuam tudo. Tédio: trois points. Alienação: six points. Ausência: sans points. Olhar de esguelha para o lado, mas para todos os lados, para as pessoas que passam ao lado entre apreciar comparar e depreciar: mille punti. Whatever: dix points.And soi on and soi on and so forte)

Lamento/inquietação: para onde irão os restos - refeições quase inteiras por vezes - que ficam esquecidas, abandonadas, negligenciadas, pelo enfado, a saciedade, o fastio, as birras insaciáveis, a próxima compra ou a espera pelo horário do cinema, nas centenas e milhares de tabuleiros plásticos que são recolhidos frenética e continuamente por demasiado poucas senhoras da limpeza de modo a que regressem aos seus lugares, os lugares dos tabuleiros, para estarem de volta às mesas in no time? Inglória tarefa, e de limpeza - fica a intenção. É a recolha primordial que antecede o caos - ou o evita por um triz.

 Momento alto: a senhora dos tabuleiros sorriu, apesar do frenesim, do número de horas a pé a que já deve andar a fazer isto - hoje, porque possivelmente se contarmos com ontem e no passado e se pensarmos no desemprego e no dinheiro e nos desempregados que tenha em casa a quem dar de comer já deve ir em anos, séculos, eternidades, demasiadas eternidades, o tempo a que aqui anda de pé a recolher tabuleiros que toda a gente enche de prato mais bebida mais meia sopa por cinco euros e noventa e cinco. E por mais dois euros pudim.

Ele há quem já não possa ("menina, posso poisar aqui?" E aterram mais quatro tabuleiros. Será isto a procissão da nossa senhora dos tabuleiros? Penitência: certamente) mas all of the sudden o mais surpreendente: ela reage à provocação sorridente, estaca num segundo de hesitação a antecipar mais tabuleiro escondido para lhe ser enfiado nalgum sítio esquisito, e quando se apercebe a salvo sorri. E descontrai. E quem sabe ganha fôlego para mais um pouco do turno. E parte, empurrando um carrinho gigantesco onde desfilam, por entre os magotes de gente, mais uma cáfila de tabuleiros de volta ao seu lar original. E pendurados no carrinho sacos, muitos sacos plásticos imensos cheios de dejectos que ainda agora eram comida a brilhar nas retinas. Antes da garfada - ou será estocada - final - ou será da primeira - tanto faz, qualquer delas, das garfadas, faz com que a comida tenha a sina lida.

Retoma. Retomo. O pensamento original, o pretexto desta divagaga questionação escrita e que era o paradoxo. O paradoxo desta festa quase litúrgica que é procissão, cheira-me, que não só domingueira mas quase natalícia:

E o paradoxo é este: são centenas e centenas. Milhares de gente a passear no shupping. Deslocam-se lentamente, como se isolados de tudo o que se passa em redor, quando vão a passear. Desfilam numa bolha auto-referente enquanto se arrastam, aos magotes, por corredores em que nada corre. Muito menos se apressa. E não existe mais nada nesse triste passeio dos alegres. Não há gente atrás, nem grávidas em contramão, nada - mas absolutamente nada- que os obrigue a parar, a dar a vez, a encolher a barriga ou fechar os gestos, a um golpe de anca, a um passo ao lado ou atrás, a um faxavor ou obrigado a quem, diferentemente deles, repara neles e engole um pouco do seu próprio ritmo natural para facilitar o fluxo, ou simplesmente o embate. Indiferentes a tudo, os ruminantes envolvidos em suas próprias bolhas continuam. E movem-se assim infinitamente até que algo os pare. E só uma coisa os parece acordar para a existência de outros, dos outros à volta: o cumuer!

Então, de repente, o mundo vazio em volta fica cheio de ameaças e perigos: nomeadamente os que lhes podem roubar o lugar na fila pró comer, os que lhes querem roubar as mesas e os poucos milhares de lugares sentados que existem aqui na catedral, e os outros, os mais perigosos: os que lhes sorriem porque lhes querem roubar a mala. Ou o homem. Ou apalpar-lhe o cu à mulher.

E aí os auto-envolvidos autistas entram noutro modo, o modo mais glorioso para que o criador os concebeu, que se chama sobrevivência medo e hiper-vigilância.

E se há pouco não existia mais ninguém, enquanto arrastavam lentamente a peida como se caminhassem para a forca, mas sob protesto e quisessem puxar o lustro a cada milímetro de espaço até lá - e ocupá-lo a todo, natural_mente, com a família e os egos e os gestos e as 33 rotações a que vivem - de repente o milagre: despertam para a luta com os temíveis "roubadores do que é pramim". Nas mesas, nas filas, ao balcão e em todas as outras plateias.

O neanderthal acordou e está com fome. Pelo menos com medo. A barriga e os instintos tomam conta. Power mode on.

Isto pra mim é uma raça muita esquisita. Retomo o que vim cá fazer e tiro os olhos do meu próprio telemóvel. Aposto que alguém me poderia descrever nos mesmos termos se me esteve a observar na última meia hora.

Procuro um lugar mais seguro. Quem sabe normal. Já sei. Vou ver o Hobbit *

E ainda hoje me pergunto o que é que na altura do Natal, me arrasta a mim também tão magneticamente para a catedral do con_sumo. E pudim, por mais dois euros *

* * *

Epílogo: acabei por não ir ver o Hobbit. O placard dizia que era 3D, e eu já tinha tido a minha dose semanal.

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