8 de outubro de 2017

Preenchimento e Gratificação


" É fácil amar o outro na mesa de bar, quando o papo é leve, o riso é farto, e o chope é gelado. É fácil amar o outro nas férias de verão, no churrasco de domingo, nas festas agendadas no calendário do de vez em quando.

Difícil é amar quando o outro desaba. Quando não acredita em mais nada. E entende tudo errado. E paralisa. E se vitimiza. E perde o charme. O prazo. A identidade. A coerência. O rebolado.


Difícil amar quando o outro fica cada vez mais diferente do que habitualmente ele se mostra ou mais parecido com alguém que não aceitamos que ele esteja.

Difícil é permanecer ao seu lado quando parece que todos já foram embora. Quando as cortinas se abrem e ele não vê mais ninguém na plateia. Quando o seu pedido de ajuda, verbalizado ou não, exige que a gente saia do nosso egoísmo, do nosso sossego, da nossa rigidez, do nosso faz-de-conta, para caminhar humanamente ao seu encontro.

Difícil é amar quem não está se amando.

Mas esse talvez seja, sim, o tempo em que o outro mais precisa se sentir amado. Eu não acredito na existência de botões, alavancas, recursos afins, que façam as dores mais abissais desaparecerem, nos tempos mais devastadores, por pura mágica. Mas eu acredito na fé, na vontade essencial de transformação, no gesto aliado à vontade, e, especialmente, no amor que recebemos, nas temporadas difíceis, de quem não desiste da gente."

autor e modelos desconhecidos

... e digo eu,

gostei muito deste texto, onde está tão bem explicada a diferença, e sem recorrer sequer aos próprios termos, entre gratificação e preenchimento

e explico o que quero dizer:

para mim - e é só a minha miopia - o preenchimento começa onde se acaba a gratificação: porque enquanto a gratificação procura retirar do exterior os combustíveis efémeros que vão alimentando, precaria e transitoriamente, a fogueira da insatisfação e do vazio pessoais,

o preenchimento por seu lado, consiste em retirar de dentro de Si próprio os materiais amorosos com que se constroem as pontes que unem o Amor ao Amor (o Amor que já Sou ao Amor que ainda me estou a Tornar) - e é, por isso e sempre, auto-preenchimento.

e talvez seja assim que preenchemos também o mundo - preenchendo-nos de nós próprios e actualizando-nos, fazendo-nos com nosso próprio potencial amoroso ilimitado, indo - contrariando o conforto de nosso próprio egoísmo auto-referencial - mais e mais além dos próprios limites.

... e sob o pretexto, ou a aparência, de ir ao encontro do outro, caminhar assim ao encontro de Si mesmo ♥

afinal, é Tudo o mesmo Amor... do verdadeiro, daquele que não se "encontra".

... mas daquele que se Faz - momento a momento, escolha a escolha, poc a poc, por puro egoísmo - tirando das arestas provisórias de nossos próprios limites a matéria prima, da mesma maneira que a aranha tece a teia com substância do seu próprio ventre, com que nos Fazemos Tornamos Unificamos Transcendemos... e Saciamos *

(e nestes tempos Júpiter entrando em Escorpião, deixa-me fazer-te só mais esta pergunta: estás focad@ na gratificação ou no preenchimento?)

é que sabes... gratificação é temporária... devolve-te inevitavelmente à frustração, nasce da tua própria biografia emocional e alimenta tua compulsão para re-experienciares as tuas dores passadas, para que te confrontes uma e outra vez com teu próprio sofrimento oculto por detrás da tua compulsão - é essa a tirania das tuas comichões antigas; e estás tão condenado ao sucesso quanto um hamster - a correr numa roda - a chegar a algum lado antes de atingir a exaustão, o colapso, e a síncope que glorifica toda a sua existência previsível.

Preenchimento é futuro e incerto, porque te empurra mais além de ti próprio e em direcção a Ti Mesmo... e além disso, porque Tu és Tudo, empurra-te inevitavelmente em direcção ao Todo.

de cada vez que escolhes vencer, por força de tua Vontade Amorosa, o abismo da tua própria boca faminta ligada a um esófago sem fundo nem fim - e que presa alguma saciará por muito tempo, evidentemente - e escolhes tornar-Te Tu a fonte do Amor de que acreditavas carecer.

(caraças!, só aqui vinha dizer que gostei muito deste texto - onde está tão bem explicada, e sem nunca recorrer aos próprios termos, a diferença entre gratificação e preenchimento...)

... e se, no limite, E SE: o que te gratifica não te preenche, e o que te preenche não te gratifica?

serias capaz de escolher entre ObTer e ObSer?

e sabes identificar, em Ti, a tua própria compulsão para a satisfação, que "coisas" representam neste momento na tua vida "gratificação" (desejada, experienciada ou buscada) - e, por consequência, consegues ver claramente de onde está condenada a vira a frustração aparente exterior que te empurrará, por Amor, à inevitabilidade de te Tornares ainda mais...?

obTer é tão efémero. E ObSer... tão, tão mais (e)Terno ♥

ah, o texto, sim, o texto é muito bom. Não me preencheu, porque nada que venha do exterior tem esse poder, essa capacidade, ou essa responsabilidade sequer.

Mas gratificou-me... temporariamente. Por isso quis partilhá-lo e o fiz tão prontamente (as gratificações são assim, fáceis de oferecer de bandeja, porque na realidade, não são nossas, nem feitas de nós).

Mas eu, egoísta que só eu, decidi acrescentar de mim próprio, por via desta mesma nota, ou legenda (da minha miopia) antes de partilhar este texto - e aposto que sabem por quê: só para me preencher.

haja egoísmo e capacidade de Amar. Haja o egoísmo de Amar. Haja a coragem de ser egoísta e o egoísmo de usar o Amor para a manter a Coragem * não de ser, mas de se tornar.

("se fazes és; se não fazes, serias" Agostinho da Silva)


... e depois queixamo-nos das insatisfações com a Vida (que não preenchemos de Nós...)
 
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