11 de junho de 2013

momento a momento


... ao espreitar o Céu do momento imagino – e acredito compreender melhor, dentro da ilusão de que alguma vez compreenderemos efectivamente alguma coisa, e se não é que tudo o que é possível é ter, por um instante, um rasgo de tranquila e luminosa aceitação daquilo que É – e que se esgota num piscar aquilo a que chamamos compreensão, enquanto a Vida se reflui, reveste e mostra para se apresentar como uma nova possibilidade no momento imediatamente a seguir, no momento imediatamente anterior a um novo momento de estupefacção.

Iludo-me a imaginar e entretenho-me, à falta de responsabilidade momentânea maior, a supor que estejamos alguns, para não dizer muitos, para não dizer todos, a ter que lidar com um certo tipo de coisa.

Um certo tipo de desafio com aquilo que nos é valioso, um certo tipo de conquista para dentro do que nos é familiar, um certo tipo de perda daquilo que nos é querido.

Um certo tipo de ganho – daqueles ganhos que só temos quando aceitamos perder, daqueles ganhos que só fluem em direcção a nós quando nos dispomos a aceitar que toda a réstia de vida em forma se nos abandone, nos perturbe, e nos sacuda sem nos sacudir na essência, nem nos perturbar no silêncio.

Um certo tipo de desafio – e tensão, que é apenas outro nome para a mesma irrealidade momentânea – ligado com os nossos afectos, as nossas famílias, os nossos apegos, as nossas dependências, as nossas mascotes, os nossos “mais-que tudo” – poderemos, ao menos, reparar na perversão da expressão "mais-que-tudo", e reconhecer a imposibilidade, que nada pode ser mais do que tudo? E que ao aceitar esse nada instituímos o tudo a que nada falta?

Poderemos aceitar os desafios, as circunstâncias surpreendentes que nos assaltem ou assustem, as perdas imprevistas e as reuniões de emergência, como um passo importante de aprender a dançar enquanto aprendemos a equilibrar-nos sobre o nosso próprio destino sem varetas, nem varões, nem pais nem mães nem muletas almofadas ou ventiladores, enquanto – helàs! Por aqui se vê a ironia da coisa – teremos, provavelmente, de nos tornarmos nós isso para eles?

Poderemos nós aceitar, de uma vez por todas – temporariamente, claro está – que nos tirem o que quiserem, nos dêem o que deixarem, e que nos deixem apenas com o importante – pese embora nosso julgamento, vão e mesquinho sobre isso – e que o mais importante de fazermos, cada um de nós, é abençoar o tempo passado, o tempo perdido, e aceitar que todo o amor ainda encaixilhado na moldura só ainda lá está porque não soubemos soltá-lo de detrás do vidro?

Poderemos nós aprender a dançar aos saltinhos, fazendo de nosso próprio equilíbrio a tarefa principal, e não do chão de suporte o apoio que esperamos, exigimos, dependemos ou procuramos? É que o chão não estará lá – a não ser que tu estejas. Para o chão e para os outros.

E a não ser que te tornes, e largues, e tornes, e largues, e te tornes, e te alargues, te sentirás cada vez mais sozinho, cada vez mais abandonado, cada vez mais entregue, cada vez mais assustado, cada vez mais inarticuladamente zangado, que é como quem diz todo cagado de medo, que é como quem diz, todo triste mais ainda de dedo em riste.

E se visitares o passado, que o faças com Amor no Coração e a Coragem de ser adulto. Se abrires o baú, que não seja para o saqueares ou esconder lá dentro.
 

Rasga ou resgata o teu enxoval, é teu – faz o que quiseres mas faz-te um adulto, e se queres saber mais – abre a goela ao amor, os olhos à dor, e o teu ser ao que for.
Partilha o que sentes – mas não pendures projecções nem faças dos outros cabides indecentes. Há sempre alguém para te amar, se permitires que te vão caindo pelo caminho os desamores, ou perdão, os teus medos decadentes.

E se lá chegares todo nú... alegra-te. Alegra-te, pelo menos temporariamente, com a ilusão de que chegaste.

Porque à partida... não há chegada. Há apenas este mister, humano e dolente, de caminhar... a caminhada.


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