1 de setembro de 2012

pensamentos taoístas I



« O cozinheiro do príncipe Wen Hui estava a trinchar um boi. Os movimentos da mão, os jeitos de ombro, os movimento dos pés, o atirar do joelho,o som da carne a apartar-se e ser cortada e o zumbido da faca todos estavam num ritmo perfeito, como se fosse uma dança ou uma sinfonia.


- É maravilhoso ver como conseguiste dominar a tua técnica! , comentou o príncipe.


O cozinheiro pousou a sua faca e disse:


- Procuro agir de acordo com o Tao, a ordem natural das coisas. É algo que está para além da mera técnica. Quando comecei a talhar, via à minha frente o boi todo. Mas, depois de três anos de prática, já não o via como um todo. Via as distinções. E, agora, os meus sentidos param de funcionar e é o espírito que me guia livremente. Sem um plano, seguindo o instinto, sigo as fibras naturais deixando a faca encontrar o seu caminho entre as muitas aberturas escondidas, tirando proveito do que lá está, sem tocar nunca num ligamento ou tendão e muito menos numa articulação importante.


Um bom cozinheiro muda de faca uma vez por ano, porque sabe trinchar, enquanto um cozinheiro medíocre tem que mudar de faca cada mês, porque só sabe cortar. Pois eu já tenho esta minha faca há dezanove anos e trinchei milhares de bois com ela. E, no entanto, a lâmina está tão fresca como quando saiu da pedra de afiar. Há espaços entre as articulações. E a lâmina da faca, que quase não tem espessura, tem mais que espaço para passar através desses espaços. E é por isso que, passados dezanove anos, a minha lâmina está tão afiada como sempre.


É verdade que há articulações mais difíceis. Quando as sinto aproximar, avalio bem a articulação que surgiu e olho-a com cuidado, mantendo sempre os olhos no que faço e trabalhando devagar. E então, com um movimento muito suave da faca, trincho todo o boi em dois. E ele desmancha-se como um torrão de terra ao cair no chão. Aí, retiro a faca e fico parado, com a sensação de ter conseguido algo de muito importante. Depois, limpo a lâmina e poiso a faca.


- É isso!, disse o príncipe. O meu cozinheiro mostrou-me como devo viver a minha vida!»


Comentário

Há um modo natural de fazer as coisas, há soluções naturais para os problemas. Se agirmos de acordo com a natureza das coisas - o Tao  -, conseguimos fazer tudo melhor e sem que isso nos crie nenhum problema. Continuaremos sempre frescos e afiados como a lâmina do faca do cozinheiro do príncipe Wen Hui.



Perante qualquer problema, devemos aceitar que as coisas sejam como são sem desejar que a situação fosse outra, diferente do que na realidade é. Porque isso só iria criar resistência e tensão. Devemos prestar atenção à ordem natural das coisas e trabalhar com ela em vez de contra ela.

E veremos que o trabalho prossegue mais rápida e facilmente se pararmos de "tentar", se pararmos de pôr demasiado esforço extra, se pararmos de procurar resultados rápidos mas em vez disso, colaborarmos com as "articulações" que se nos apresentam e lidarmos com elas de modo decidido, irreversível e definitivo como a faca do cozinheiro trinchando o boi em dois.

* textos taoístas de Chuang Tzu