12 de março de 2012

Autonomia

O Dom de Carneiro

Autonomia: a qualidade de se nomear a si próprio. A capacidade de se definir, afirmar e fazer vingar quem se é. Auto-nomos: nomear a sua própria regra, definir-se, depender de si mesmo. Ser independente.

Ser independente, ou autónomo, é fundamental - não só como condição da dignidade e auto-respeito pela própria existência, mas também para que quaisquer relacionamentos, acordos, negociações ou parcerias possam funcionar na sua vida.


Eu só posso ceder, negociar, fazer concessões, ir ao encontro da necessidade do outro em respeito pela minha própria, depois de aprender a afirmar, salvaguardar e defender o meu próprio território e interesse egoístico. Uma relação – seja de natureza pessoal ou profissional - é uma dança entre dois indivíduos, isto é, entre dois seres conscientes dos seus próprios interesses e necessidades e capazes de as afirmar e lutar por elas.

O meu “sim” ao Outro só começa a ter valor quando eu sou capaz de dizer “sim” a mim próprio primeiro - mesmo que isso implique dizer “não” ao outro. Antes de ser capaz de dizer “não”, o meu “sim” na verdade ainda não tem valor.

Independência e autonomia são, assim, condições fundamentais para aprender a ser interdependente, isto é, aprender a partilhar, cooperar, trocar com benefício de todos os envolvidos. Mas não à custa do sacrifício da própria verdade – isso degenera em opressão, dependência, ressentimento, agressividade mal-resolvida, e resulta inevitavelmente em conflito, aberto ou dissimulado, e todos perdem com isso.

O direito individual à existência precisa ser defendido e afirmado, em nome da força de vida que se expressa e cumpre através de cada um de nós. Todos precisamos ser capazes de desbravar por nós mesmos o nosso próprio caminho, estar em paz com o facto fundamental de que em última análise estamos sós, e sobre os nossos próprios pés, frente à nossa própria vida, e que cada alma tem o seu próprio caminho.

Apesar de nascermos de uma relação, em relação e para as relações, também é verdade que chegamos, e partimos, essencialmente sós – e até quando somos gémeos homozigóticos precisamos descobrir a nossa própria separação, individualidade, e existência independente.

Isto exige o desenvolvimento de uma espécie de “guerreiro” interno que dispõe de coragem, ousadia, e da auto-confiança que nos permite avançar e afirmarmo-nos a cada passo do caminho, é a condição do desenvolvimento do egoísmo saudável e da autenticidade nas relações.

Cada um de nós precisa, por isso, de honrar esse guerreiro interior que tem como funções devolver-nos auto-consciência de quem somos antes dos outros nos definirem, abrir caminho para novas áreas de experiência, e permitir-nos desenvolver a capacidade de travar as batalhas do nosso próprio destino.

Na medida em que este dom esteja menos bem integrado, por excesso ou por carência, tende a expressar-se de formas desequilibradas: como cólera, impulsividade, auto-afirmação egoísta sem nenhum respeito ou contemplação pelos outros à nossa volta, ou, no outro extremo, como desmotivação, depressão, medo, carência de energia para dar continuidade à vida; às vezes, como tendência à dependência excessiva dos outros, à incapacidade de lutar sozinho ou por si mesmo, e a atrair do exterior pessoas agressivas e/ou situações em que nos sentimos agredidos.

Outras vezes, a não-integração deste egoísmo saudável manifesta-se como uma tendência a acidentes, a enxaquecas, ou a um forte sentimento de culpabilidade que oculta muitas vezes um ressentimento inadmissível perante nós mesmos contra aqueles que - acreditamos - nos impedem de ser (saudavelmente) egoístas.