22 de junho de 2017

Hospitalidade

O Dom de Caranguejo

Qual é a primeira coisa que lhe ocorre quando pensa em Hospitalidade?
 
Possivelmente em qualquer coisa parecida com a actividade de receber outros, como hóspedes ou visitantes, proporcionar-lhes alojamento e alimentação, atender às necessidades específicas de quem está deslocado do seu próprio lar e tem necessidade de se sentir confortável e acolhido; ou ocorre-lhe o conceito da capacidade relativa de um indivíduo, organização ou país de bem receber quem o visita, e nesse sentido falaríamos de um povo, ou de um local, ou de uns amigos, hospitaleiros.

Levando um pouco mais longe a ideia, talvez possamos associar Hospitalidade com partilha (de espaços, recursos ou comodidades), com a oferta de segurança, conforto e protecção, com generosidade ou carinho a quem precisa.

Abstraindo-nos das especificidades inerentes a cada exemplo possível de Hospitalidade, poderíamos formulá-la, de forma genérica, como uma atitude atenta, disponível e aceitante das necessidades alheias e o poder de as atender, preencher, ou cuidar.

É evidente e sugestiva a raíz etimológica de hospitalidade, hospital e hospício, já que partilham da propriedade comum de atender a outros e às suas necessidades. E da mesma raíz também derivam hospedagem, hotel, hostel, hóspede e hospedeiro (de bordo), ou hospedeiro (de um parasita) - sendo que aquele também recebe este “em casa” e o alimenta, mas não propriamente por escolha ou generosidade. Alberga-o mas não o acolhe.

Menos evidente, ou conhecido, é que etimologicamente hóspede significava quer aquele que recebia, quer aquele que era recebido – a mesma palavra era indistintamente usada para ambos.

E que a mesma raíz também deu origem a hóstia – originalmente a vítima sacrificada para apaziguar a ira dos deuses, depois o pão considerado na eucaristia o corpo de Cristo. Maná, alimento, pão. O hospedeiro é hóspede e hóstia, oferece o pão oferecendo a si mesmo. É de si próprio que o hospedeiro alimenta o hóspede. Aquele que alimenta, o que é alimentado, e alimento em si mesmo – as três dimensões aparentemente separadas de um único processo.

É este o significado profundo do Dom da Hospitalidade: ser capaz de se receber, a si mesmo e aos outros, em “casa”, e dar de si mesmo como alimento para alimentar a si próprio. 

Casa, aqui, significa interioridade, o “sítio” onde vivo dentro de mim, onde sinto e me sinto, onde reajo às emoções e às minhas próprias necessidades, seja no centro do peito ou na boca do estômago, o sítio para onde aponto quando digo “eu”. Casa, antes de ser o lar físico ou o sítio onde vivo, é a evidência de que cada um vive dentro de si próprio – ou tenta -, cada um está mais ou menos confortável consigo próprio, sente-se mais ou menos em paz consigo mesmo, sente-se (como diz o povo) melhor ou pior na sua pele. 

Quanto mais seguro, enraizado e confortável está alguém consigo mesmo, mais em contacto com o que sente e precisa, mais aceitante das suas próprias necessidades e oscilações e reacções, mais familiarizado consigo próprio, mais seguro no manejo emocional de si mesmo.

Ao mesmo tempo, menos dependente dos outros para preencher o seu vazio e tomar conta das suas necessidades, menos sujeito à criação de dependências psíquicas dos outros para se sentir seguro, e por isso mesmo – misteriosamente, para algumas pessoas – com maior capacidade de partilhar a sua vulnerabilidade e necessidades mais abertamente com os outros, e mais capaz também de atender e respeitar as necessidades alheias.

É que todo homem precisa de alimento, protecção, segurança, tranquilização, pertença, calor, companhia, presença, amor, humanidade. Todo homem transporta uma parte carente, emocional, receptiva, vulnerável, impotente, necessitada, completamente exposta, nos primeiros anos de vida, à dependência dos outros e marcada pela qualidade essencial da nutrição física e emocional que recebeu. Uma “criança interior”.

Por nascer completamente exposto, vulnerável, carente, desprotegido, e numa condição de impotência atroz para cuidar de si mesmo, o ser humano depende totalmente, e durante muito tempo, do cuidado do outro para sobreviver; e quando o ambiente não é suficientemente hospitaleiro, securizante ou emocionalmente saudável, a criança não se sente confiante na vida ou segura na sua própria pele. Não confia que a vida seja suficientemente boa para cuidar das suas necessidades, nem sequer no que vem de dentro de si.

A “criança interior” aprende a desconfiar, ou defender-se, do facto de ter necessidades por estas a fazerem sofrer – distorce-as, esconde-as ou nega-as; mas não se livra delas. E enquanto o adulto não for hospitaleiro para si mesmo, sem espaço para a criança necessitada em si, vai procurar quem a contenha, a atenda, a cuide, a nutra, vai tornar-se dependente e orbitar em redor de quem a possa nutrir. E às vezes – haja ironia – encarregando-se precisamente de tomar conta das necessidades do outro, para se manter no controlo da relação, evitar o abandono, e perpetuar a dependência.

Mas porque a vida é Espelho, como reflectiremos em Balança, o outro vai devolver-me à minha própria carência e mais tarde ou mais cedo ao meu próprio vazio, e à evidência de que ninguém, antes de mim, pode conter-me e tomar conta de mim como preciso. Enquanto não aprendo a cuidar-me e conter-me, não posso ter relações adultas, livres, com outros adultos responsáveis por si mesmos e psiquicamente livres, também eles, de dependências.

Aquilo que define um adulto”, afirmou o psicanalista português Prof. Carlos Amaral Dias, “é a capacidade de ser o seu próprio pai e mãe, e a capacidade de ser íntimo com alguém”. E o método para o conseguir, dizemos nós, é o Dom da Hospitalidade.

Quantas vezes dá por si a pensar: “eu não deveria sentir isto”, “terei direito a sentir-me zangado?”, e tantas outras formas que denunciam a sua falta de hospitalidade, tolerância ou gentileza para o que emerge de dentro? E quantas vezes dá por si a corrigir os sentimentos dos outros, em vez de os aceitar e validar, através de comentários como “não faz sentido sentires isso”, “não tens razão nenhuma para te sentires assim”, “não podes ter fome. Ainda há meia hora comeste!” e tantas outras formas, mais ou menos explícitas, de invalidar o sentir e as necessidades alheias?

Repita para si mesmo o mantra da Hospitalidade “aceito o que sinto. Sim. Aceito que sintas. Sim. Sinto que aceito. Sim. Aceito o que sinto.”

Sim?

E sim, sinta um espaço imenso a abrir dentro de si. É a sua nova casa interna a preparar-se para o receber e às suas próprias multidões - e ao mundo inteiro a seguir.


« O ser humano é uma casa de hóspedes.
Toda manhã uma nova chegada.
A alegria, a depressão, a falta de sentido, como visitantes inesperados.
Receba e entretenha a todos
Mesmo que seja uma multidão de dores
Que violentamente varrem sua casa e tira seus móveis.
Ainda assim trate seus hóspedes honradamente.
Eles podem estar te limpando
para um novo prazer.
O pensamento escuro, a vergonha, a malícia,
encontre-os à porta rindo.
Agradeça a quem vem,
porque cada um foi enviado
como um guardião do além. »
 
 — Rumi (Mestre sufi do sec. XII)