22 de setembro de 2016

Espelho


O Dom de Balança
A Vida é mágica. Está sempre a revelar-nos pistas e sinais que nos ajudam a tornar mais conscientes, a detectar o que não estavamos a conseguir ver, e a viver de forma cada vez mais fluida e desperta para a ordem oculta do Universo. Basta saber “ler”, ou descodificar, os seus sinais.

Quando descodificamos o significado dos sinais, ou lhes atribuímos sentido através da sabedoria intuitiva de que  dispomos, a sensação é genial. Insights. Revelações. Rasgos de simbolismo surpreendente e claro. Iluminações. Epifanias. E a visão interna que se ilumina, e ilumina como um farol o caminho e os desafios do momento, independentemente do que seriam as nossas preferências, medos, gostos ou desejos.

É fácil ver claramente nestes momentos de insight, e mesmo que sejam instantes passageiros, a evidência e a força com que o seu significado se impõe à nossa consciência são suficientes para um salto na consciência e um enquadramento diferente das experiências. Uma epifania, um insight, e a percepção das situações muda para sempre.

No entanto, nem tudo são insights súbitos, nem nós dependemos exclusivamente da intuição para ampliar a nossa consciência. Às vezes as respostas estão mesmo à frente dos nossos olhos, desde que estejamos dispostos a aceitar que o que atraímos como experiência “de fora” tem algo a mostrar-nos sobre nós próprios.

Por que é que nos vemos ao espelho antes de sair de casa? Porque só um olhar “de fora” nos mostra como estamos e aparecemos perante o mundo. Sem um espelho, ou o reparo do outro, é difícil – para não dizer impossível – ver o cabelo desgrenhado, o resquício de chocolate junto ao lábio, a remela ao canto do olho.

Esta é uma das aprendizagens que propõe a energia de Balança: que aprenda sobre si mesmo observando, e aceitando – ao menos como hipótese temporária – as circunstâncias da sua vida como um reflexo especular de si mesmo, especialmente daquelas partes menos conscientes de si.

A ideia de que o inconsciente pessoal encontra maneira de se manifestar na vida, através das circunstâncias e das pessoas que atraímos para o nosso campo de experiência, não é exclusiva de uma visão mística da Vida; a própria Psicologia o reconhece e admite, através do conceito psicanalítico de projecção ou do conceito de Carl Jung de Sombra, por exemplo.

Diz Jung: “A psique sempre luta pela totalidade” e “o Destino é o retorno do recalcado”. O que isto significa é que, de certa forma, estamos “condenados” a estar em contacto com a totalidade do que somos; e enquanto não reconhecemos “dentro” a complexidade paradoxal e contraditória de tudo o que somos, atraímos “de fora” o que não reconhecemos “dentro”.

Se não reconheço a minha agressividade, ou não a aceito em mim, é provável atrair situações ou pessoas agressivas que rejeitarei com a mesma veemência com que rejeito a minha própria; mas curiosa e ironicamente, posso – em simultâneo, ou paralelo - encantar-me com aqueles que expressam os atributos dea coragem, combatividade, e audácia. Ou seja, com as expressões “positivas” da mesma qualidade fundamental.

Neste sentido, um “defeito” não é mais do que a expressão exagerada, distorcida ou descontextualizada de uma “qualidade”. E na medida em que eu não tenha ainda integrado essa qualidade – e eu não posso integrar nenhuma qualidade que rejeite -, é o próprio movimento psíquico de recusa em aceitar à consciência esse “defeito” que faz com ele apareça espelhado nos, ou pelos, outros e nos incomode. É o lado obscuro daquilo a que Jung chamou de “Sombra”.

Mas a “Sombra” tem também um lado luminoso que consiste em todas aquelas qualidades que, não as tendo eu desenvolvido ainda em mim mesmo, dou por mim a admirar nos outros:  a sensibilidade poética que eu próprio tenho, mais ou – provavelmente - menos desenvolvida (ou não a valorizaria nos outros quando a encontro); a coragem e a capacidade de auto-afirmação (perante a repressão da minha própria agressividade); a imaginação e a fantasia (quando não me permito, eu próprio, sonhar). E esse é o lado apaixonante da Sombra.

E essa é precisamente uma das características fulcrais da Sombra: não nos deixa indiferentes, existe sempre uma reacção emocional forte, positiva ou negativa. No extremo, paixão ou ódio. Isto sugere que, perante uma emoção forte perante o exterior, podemos estar na presença da nossa própria Sombra.

Mas esta não é a única expressão das dinâmicas que fazem da Vida um Espelho.

Já pensou, por exemplo, que a sua relação com figuras de autoridade espelha a sua relação com a sua própria autoridade interna, e eventualmente a sua experiência com o seu pai ou as primeiras figuras de autoridade na vida? E que o seu relacionamento com mulheres, de uma forma geral, pode espelhar o seu relacionamento precoce com as mulheres mais significativas do início da sua vida (a mãe ou uma avó, por exemplo), e que até os seus sintomas físicos podem espelhar dinâmicas emocionais, espirituais e psíquicas – conforme estudado, por exemplo, pela disciplina da Psicossomática?

A Vida é um enorme Espelho se estivermos dispostos a olhar para ela como tal, e tivermos a humildade para nos pormos em causa e aprender com ela. A máxima é: o que está fora é como o que está dentro.
- para consciencializar estas dinâmicas na sua vida, e perante qualquer situação - especialmente aquelas onde se observe a reagir emocionalmente - pergunte a si próprio: o que é que esta situação pode estar a espelhar de mim?


(não para cair na fantasia narcísica e egocêntrica de que "é tudo eu!", nem na neurose fragmentadora que insiste em dividir o Self em partes sem ser capaz de recuperar, ou reconhecer, a Unidade fundamental que sustenta, e permite, que procedamos a uma certa divisão temporária apenas para lhe reconhecer os ingredientes - e sem esquecer que um monte de ingredientes - farinha, açucar, ovos, raspas de chocolate, etc - acumulados uns ao lado dos outros não são ainda um bolo), mas...

... ainda assim...: pergunte-se: "o que é que esta situação me pode estar a espelhar de fora o que eu "dentro" não reconheço?"


Por exemplo,

Se os outros me criticam, talvez eu me critique, ou critique os outros, ou não esteja para ouvir a voz da minha própria consciência nem agir de acordo com ela; é certo e sabido que o que vier de fora como reminder interpretarei eu como censura.


Alguém me agride – talvez eu próprio me esteja a agredir, ou agrida outros por formas de que não me dou conta.


Atraio pessoas dependentes. Talvez eu seja mais dependente do que admito, ou tenha negado a minha própria dependência em nome de uma suposta auto-suficiência. Atraio para a minha vida um adulto emocionalmente desequilibrado, infantilizado, frágil, impotente, que precisa que "tomem conta" dele. Onde estará a primeira das crianças negligenciadas - fora, ou dentro?


Apaixono-me por um poeta místico e músico, inspirado e alcoólatra. É encantador no que cria, escreve, compõe e declama - mas também não faz mais nada. Começa a tirar-me do sério quando deixa a secretária cheia de marcas de copos e os sofás todos queimados das pontas do charros, e dorme até ao meio-dia - nos dias em que se levanta cedo - enquanto eu me levanto às seis da manhã para ganhar a vida pelos dois. Onde é que está o criador, o sonhador, o escapista (meu) não-vivido-por-mim? A ressacar no sofá da sala? Não creio. É que o outro, o de "fora", só quando este - o de "dentro"- for reconhecido, é que pode ser despejado ;-)


Os outros reagem com medo e cautela, tentam dissuadir-me – ou castrar-me, no limite - quando lhes comunico o meu novo plano para mudar de casa, de trabalho, ou de vida. Talvez estejam a espelhar a parte de mim, preocupada mas negligenciada, que quer ter a certeza de que não dou passos em falso. Escondo o meu medo de mim próprio e os outros espelham-no de volta para mim.


Fácil de perceber, não é?

Pois se até o corpo físico é espelho da sua consciência, e a sua vida espelho das suas tensões interiores...

Experimente pensar as suas circunstâncias e relações como Espelho de partes “cegas” de si, e dará por si a ver, de si mesmo, muito mais do que via antes. Não tudo, mas caramba!, ainda vamos só na sétima de doze etapas... *


... se metade de mim é Amor, e a outra também, como diz o outro; metade de mim sou eu - e outra metade - como dizia Ortega y Gasset, é a minha circunstância. E eu, sou eu e a minha circunstância.


A circunstância é meu espelho.

Devolve-me totalidade do que Sou.

Abraça, pois, a circunstância como teu reflexo - afinal, é a Ti mesmo que Abraças *

 "espelho meu, espelho meu? Há algo da minha vida que não seja expressão do mesmo Eu?")