12 de dezembro de 2013

A, e o, Propósito das Palavras

 É bem como sabemos. As palavras ficam tão aquém daquilo para que servem que apesar de tantas são tontas, logo afinal poucas e barrocas.

E no entanto as palavras podem fazer a diferença entre a miséria e a glória. As palavras construíram pactos, destruíram impérios, conspiraram na sombra contra os agentes da história. As palavras ofendem, defendem, suspiram, criam universos. Abrem corações, exorcisam medos, revigoram, inspiram, formam versos. As palavras entrechocam-se e desfazem-se no silêncio, e doem, e salvam, e curam. Têm tanto poder que ficaríamos paralisados, soterrados, se assumíssemos a responsabilidade pelos seus usos indiscriminados.
 
Vou usá-las com cuidado para contar uma estória.

Esta estória já começou antes, mas porque todas as estórias têm um início, digamos que começou agora mesmo. E quem sabe se, algures neste universo ou em qualquer outra dimensão, esta estória não está a começar exactamente no momento a que chamamos agora.

É uma estória sobre um homem que existe dentro de cada um de nós – mesmo que nenhum de nós saiba que todos o temos cá dentro. Todas as estórias que são sobre um homem têm o poder de contar aos outros, aos que não fazem parte da estória, algo que eles próprios têm dentro e não sabem. Qualquer homenzito pode ser o herói deste mito.

É uma estória sobre um homem confuso. Um homem dividido em dois, dilacerado entre duas bestas que o habitam. Uma que ri, outra que chora. Uma que é calma, a outra frenética. Uma que é boa e no entanto faz esgares de pirraça da outra, que brinca a fazer que é má. E às vezes alternam, como se turnos fizessem para desempenhar o papel uma da outra.

E essas bestas fazem o homem sentir-se dividido. E quando ele se sente dividido, começa a tentar identificar a besta que o faz sentir-se leve, ou terrivelmente deprimido. Solar ou sombrio. Temerário ou  paralisado de medo e soterrado de dúvidas.

E o homem não consegue perceber qual é qual, nem sequer o porquê. Apenas consegue sentir a contradição que o habita, e as bestas que o dilaceram, lenta e permanentemente por dentro. E esse mal-estar fez com que o homem começasse à procura.

E quando procurou, começou a embriagar-se na busca. Tantas eram as respostas que encontrava ou para si atraía, que começou a embriagar-se de respostas e a esquecer-se das dúvidas que o motivaram à partida. Tantas respostas encontrou, tantas mais do que as dúvidas que tinha - porque afinal a dúvida era só uma e era ele próprio -, que se deixou fascinar pela multidão de respostas e começou a aprendê-las, a decorá-las, sentindo que com tantas respostas a dúvida não tinha mais por onde sobreviver e se renderia ao poder declarativo do exército de explicações recém-adquiridas.

Mas a dúvida persistiu. As bestas mantinham-se no seu lugar, fundo fundo dentro do buraco onde se ocultavam e brincavam às escondidas com o olhar introspectivo do homem. Tantas respostas que ele já tinha, e no entanto a divisão interior mantinha-se, intacta, mais decidida até, talvez, porque agora as bestas tinham mais informação ainda com que confundir aquele homem. A cisão interior continuava e a confusão da dualidade simplesmente subsistia, mas sub-reptícia assumia significantes cada vez mais elaborados, fenótipos, genótipos, sintagmas e paradigmas, palavras da religião, da filosofia, da jardinagem, da psicologia, das ciências ocultas, das medicinas alternativas, da tourada, da gastronomia, das luzes azuis percorrendo a espinha, da aprendizagem da tranquilidade, das técnicas de redução do stress, da alimentação light, da nova era dos cristais, da meditação em catarse, do sexo tântrico, do sexto sentido.

Palavras, só palavras, conceitos, ideias, raciocínios, texto cerebral, sinapses de retórica impassível, a indiferença de um sol que se permitia nascer todos os dias trazendo com ele mais vinte e quatro horas de divisão interior, traduzida em arquétipos de ressonância múltipla e holismos perversos que lhe preenchiam a moleirinha e ressoavam nas paredes do cérebro.

Ruído, demasiado ruído.

E o homem começou a escrever no papel, tentando despejar todo o caos linguístico e metafísico, existencial e ontológico, que se apoderava dele invadindo todas as ramificações do seu próprio processo de existir. E não era já simplesmente um homem dividido; o caso tinha piorado à medida que descobrira novas respostas. Afinal, já só conseguia comunicar consigo através de pensamentos compostos por palavras difíceis e vocábulos neologistas, hierofantes de que a hipomania mental não permitia prescindir. Quando se perguntava “onde estou eu, afinal, no meio de tantos pensamentos?”, a resposta ecoava dentro, respondendo e levantando a nova questão: “no meio de tantos pensamentos, no meio de tantos pensamentos, no meio de tantos pensamentos, pensamentos...”.

E o homem pôs-se a olhar para si do ponto de vista dum psicanalista. O problema estaria certamente na infância, entre a pilinha do papá e as maminhas da mamã. Como mitólogo era uma loba alimentando Rómulo e Remo com leite e alteia e mel de loucura. E do ponto de vista dum padre era o demo, oremos ao Senhor, palavra da salvação. E como cientista era uma disfunção na glândula preponderatória. E como esoterista era uma fragilidade na aura, denunciada pela quadratura sol-neptuno do astrólogo, nada que um mecânico não trocasse no carburador. E como ignorante era apenas um homem, e como homem era um homem dividido.

O problema regressava a si próprio, como Ouroboros mordendo a própria cauda. O homem regressava a si próprio, lançado com violência pelas ideias para a sua divisão interior depois de arremeter com igual violência para fora de si, a ver se rachava a cápsula mental que o mantinha cativo. Mas também aprendera que não se racham dendrites com o pensamento, e a prisão de que era feita a sua angústia não podia dissolver-se a si própria.

Com que palavras vou eu conhecer-me?”, perguntou-se então o homem, rendido pois à evidência de que apenas através de palavras se poderia talvez conhecer. Tratar-se-ia, pois e apenas, de escolher com afinco as palavras que lhe diriam quem é – um tratado de estilo.


Como faria para deixar de ser dois, como deixaria de ser quem fora até ali ou ele próprio. 


A esperança nasceria do  critério, a metodologia na escolha, tudo começava a tomar forma.

Mas como dizer a mim próprio que eu não sou este que sou, mas outro que está aprisionado por mim?”, interrogava-se o homem.

E as perguntas repetiam-se, ecoavam, chocavam com estrondo umas com as outras, e dessas colisões nasciam apenas mais palavras, mais ideias, mais formas mentais entrechocando-se e fazendo ainda mais estrondo, borbulhando, reproduzindo-se infinitamente.

E de repente, quando passava numa rua qualquer, numa rua tão apagada e discreta que poderia até nem existir, as palavras num cartaz fora da casa se tornaram menos latentes e mais pregantes depois de evidentes. “Somos seres redondos. A vida move-se em espirais. O percurso mais próximo entre dois pontos não é uma linha recta. Não se descontrole nas curvas apertadas, mas sempre circule”. Era uma mensagem redonda.

Entrou naquela casa do cartaz afixado. Deram-lhe as boas-vindas e estenderam-lhe papel e lápis. O homem soube instintivamente que chegara ao sítio certo. Que estava exactamente onde deveria estar naquele momento.

Disseram-lhe assim: “escreva sobre todos os ‘eu’s que existem dentro de si e não opte por nenhum. E não termine enquanto não terminar.”

E aquele prazo, tão vasto e naturalmente indefinido, de não terminar enquanto não terminasse, trouxe-lhe uma grande tranquilidade, uma sensação beatífica e súbita de aceitação das coisas tal como são; era como se tivessem dito ao seu bebé interior para não nascer enquanto não nascesse, ou ao seu velho sábio para não morrer enquanto não morresse, ou à sua mente para não falar enquanto não falasse. Eheheheh! Para não se rir enquanto não sorrisse.

Que descoberta fantástica! Uma revelação!

Uma revelação que não se revelou enquanto não se revelou, naturalmente, e ele não escreveria sobre isso enquanto não escrevesse, e doravante não seria possuído por uma das bestas enquanto não o fosse, e não estaria dividido enquanto não o estivesse.

E de repente começou a dar-se conta de que ele afinal não estava louco, como chegara a pensar quando o pensou. E já nem sabia sequer ao certo o que era ser louco, porque esse era apenas um juízo enquanto outro não chegava, e de repente percebeu que era um homem dividido porque tudo é dividido enquanto não se une, porque tudo é fluxo e refluxo como um mar que se afoga a si próprio e as próprias ideias podem todas coexistir se não se opuserem ao seu oposto.

Porque ideias que não se opõem ao seu oposto, afinal, são apenas mais uma contradição e essa contradição é necessária enquanto é.

Aceitando-se e absolvendo-se por ser dividido nesse momento, o homem começou então a escrever sobre si próprio, sobre as suas bestas e as suas contradições interiores e as suas respostas e as suas dúvidas e o barulho disso tudo chocando-se dentro.

O homem começou a nomear-se. Não para se tentar entender a meio da divisão, mas porque percebeu que a divisão era o que fazia dele ele próprio, enquanto não fazia dele outra coisa.

E então, muito lentamente, o homem começou a escrever.

E descobriu que escrever é uma celebração, e nada mais do que isso.

Uma celebração que não serviu apenas para celebrar, mas para se lembrar. A partir de determinada altura, a escrita do homem transformou-se em auto-esquecimento, e quando o homem se esqueceu que estava alguém a escrever, quando desapareceu em si próprio escrevendo e se dissolveu na escrita um grande silêncio desceu sobre si.

As palavras continuavam a correr, à sua frente e si perante, mas o homem da cabeça cheia de palavras já não estava mais ali. As palavras vinham através dele, mas não era ele o seu autor. Só existia a escrita. E ele, ele era uma simples testemunha do que ocorria na sua presença.

E assim que as palavras começaram a fluir através de si, o homem regressou à casa do Pai – a sua própria morada interna - liberto de toda a carga que julgava trazer dentro.

Leve, fluido, simples, natural. Já liberto do ruído. Já senhor do silêncio.

E assim se tornaram as palavras, ruidosas, portadoras do Divino – e porque traziam consigo o gérmen do silêncio interno, e eterno, essas palavras já puderam servir.

“Não somos seres humanos tendo experiências espirituais; antes, somos seres espirituais fazendo experiências humanas.” Pe. Pierre Teilhard de Chardin