4 de março de 2012

Sentido

O Dom de Sagitário

Qual é o sentido maior da sua vida?

Qual é o “quadro global”, a grande visão, a visão unificadora que atribui qualidade, sentido e significado ao conjunto de peças que compõem a sinfonia - ou cacofonia - de gestos, pensamentos, acções, sentimentos, reacções, investimentos, escolhas, e experiências diárias, momento a momento, dia a dia, ano após ano? E de que maneira se integram ou encaixam estas no “quadro maior” da sua própria vida?

No fundo: qual é o sentido da sua vida? Sabe, honestamente, responder? É claro para si qual é esse sentido para si? Qual é a visão unificadora que confere qualidade, sentido e significado à sua vida?
Sentido não significa aqui explicação, mas direcção – ou melhor dito, direccionamento.
Não se trata de discorrer intelectualmente sobre os comos ou os porquês, improvisar - ou insistir em - explicações, fazer atribuições de culpa ou inventar justificações.
Trata-se, sim, de ter uma visão clara do caminho que vale a pena seguir.
Para onde está a crescer? Em direcção a quê? Para onde se quer expandir? O que vale para si a pena fazer crescer, aumentar, multiplicar na sua vida? Em que é que vale a pena apostar?
Em que é que acredita, faz fé, o que o Orienta - em suma?
O Dom do Sentido consiste nesta capacidade de questionamento honesto relativamente à qualidade fundamental das suas escolhas, e a relação delas com as suas convicções e crenças mais profundas.
O Dom do Sentido faz apelo ao conjunto de valores, crenças e filosofia pessoal de cada indivíduo relativamente à vida e à sua própria existência. A visão particular do que é - para cada um, segundo a sua "filosofia particular", bom, belo, útil, importante, correcto, ético - positivo.
Em que é que cada um acredita, onde está a recompensa, o que é, para cada um, evolução e crescimento em direcção ao melhor, ao maior, ao mais verdadeiro, ao mais digno, ao mais elevado que pode conceber.
Uns podem acreditar na ética protestante e no espírito do capitalismo, outros numa vida sem esforço, outros na inteligência para sobreviver, outros no prazer enquanto cá andam, outros não acreditam em nada e fazem disso uma firme crença.

Uns acreditam na consciência de Buda, outros no amor do Cristo, outros no acaso, outros na matemática lei das probabilidades, outros em explorar o mundo interior, outros a segurança material, outros na vida eterna. E cada um caminha e se expande, inevitavel e irremediavelmente, no sentido daquilo em que acredita, atraindo as consequências inevitáveis das suas próprias escolhas.
Por isso é tão importante perguntar-se, honrando assim a energia de Sagitário, qual é o Sentido de cá andar. Porque se a sua vida não traduz aquilo que para si é o sentido da Vida, fica dependente do esforço, da disciplina, da capacidade de se obrigar a fazer, e motivações muito frágeis para avançar a sua vida, como um burro tocado a chicote no lombo mas sem uma cenoura à frente para o fazer avançar. Sem prazer, fé ou confiança. Sem entusiasmo.
Sabia que etimologicamente “entusiasmo” significa “em Deus”?
Não falamos necessariamente da versão oficial, ou do conceito religioso, de “Deus”, mas da sua própria visão particular – e a sua relação individual – com isso a que palavra se refere.
Não lhe sugere, esta ideia, que a fé num Sentido maior oferece a coragem (coração) e o ânimo (espírito) para encontrar prazer, dignidade, oportunidades de crescimento, cada vez mais sabedoria e pacificação com a vida a partir – e através – das experiências que cria e atrai para si próprio?
E somos assim chegados à dimensão mais abstracta e filosófica do Dom do Sentido: qual é o sentido da Vida?

Não falamos só da sua vida particular, mas da própria Vida.
Existe, antes de mais, um Sentido, para si?
E qual é?
Existem Leis a governar a vida? Uma inteligência suprema? Caos absoluto? E quantos deuses, se algum? O que é que para si mais sentido faz? Existe uma ordem na Vida, mesmo que nem sempre seja possível conhecê-la, ou tudo é mero fruto do acaso cósmico? O Universo é inteligente, ou uma manifestação aleatória de acontecimentos sem ordem nem sentido profundo? Em que é que acredita? Que vive num universo inteligente, ou num enorme (embora diminuto perante a dimensão dos egos humanos) e desordenado bordel cósmico?
É em função do que um indivíduo acredita que ele se expandirá e encontrará as forças para continuar. A fé, o entusiasmo, o optimismo, a confiança na vida, a convicção de que a vida e todas as experiências têm um sentido, estão todos relacionados e aumentam na medida em que a vida pessoal se alinha com uma Verdade Maior, uma que ultrapasse, contenha, inclua e sintetize as diferentes opiniões pessoais e retenha delas apenas o que de luminoso exista, e de essencial; a Filosofia Eterna, Perene, é a das Leis que subsistem enquanto os paradigmas humanos vão mudando tendo por pano de fundo a imobilidade absoluta das Leis que todo o Movimento sustentam e guiam.

E isto parece ganhar importância especialmente ante as crises, pequenas e grandes mas sempre inevitáveis, da existência; perante as mortes, as perdas, os acidentes, o aparentemente inexplicável, é daquilo em que acreditamos que nos socorremos para nos ajudar a dar sentido à experiência e a integrá-la.

Um sentido maior, e que aponte para a Eternidade, é o que de melhor podemos esperar retirar da Experiência, de uma qualquer; e simultaneamente, o único que pode sustentar realmente cada um dos passos (não coelho, nem gato por lebre) dos nosso próprio crescimento.

Assim, a crença na imortalidade da alma pode ajudar a aceitar a morte de um ente querido, a confiança que o universo  é abundante e sempre me oferecerá oportunidades de continuar a crescer pode ajudar-me a despedir-me de um emprego que não me realiza, a compreensão que a vida sempre denuncia os nossos equívocos  pode ajudar-me a aceitar o fim de uma relação como uma oportunidade de mudança interior.

Ou então, os valores em que acredito não me permitem inteligir o propósito oculto nas experiências da vida, nem aproveitá-las para ganhar sabedoria, amor, consciência – e então entro numa crise de sentido, numa crise de compreensão, numa crise de consciência.

Os místicos cristãos chamam “a noite escura da Alma” a esse confronto interno com a fragilidade dos próprios valores e ao convite a buscar um senso renovado de sentido para a vida. Sem esse encontro, e confronto, embora no curto prazo e no imediato aparentemente me "safe" de mais uma inconveniência evolutiva, o facto é que a prazo me tornarei amargo, ressentido, sarcástico, nihilista, e nunca perceberei a relação entre a (minha*) vida pessoal e a grande Vida que é vivida através de mim.
“Eu me rio quando ouço que o peixe tem sede dentro da água. E tu não compreeendes que o que há de mais vivo está no interior da tua própria casa; e por isso andas de cidade sagrada em cidade sagrada, com um olhar confuso. Kabir te dirá a verdade: vai onde quiseres, a Calcutá ou ao Tibete; se não conseguires descobrir onde tua alma se esconde, para ti o mundo nunca será real”

Kabir



* por que é que és infeliz?
porque 99,99% de tudo o que pensas, sentes, e fazes
se refere a "eu" - e isso não existe