26 de outubro de 2015

Transformação


O Dom de Escorpião

Transformação: processo de tornar diferente do que era; e sinónimo de mudar, alterar, modificar, transfigurar, metamorfosear.

Transformação é sinónimo de “Vida”, porque a Transformação é a própria essência da Vida. Mas também sinónimo de “Morte”, que é a condição da Vida, o seu reverso indistinguível.


O mistério da vida e a morte. O milagre inevitável, ao longo do tempo e das formas – de todas as formas –, a dança permanente entre o velho que se esgota e o novo a que aquele dá lugar, a vida cumprindo-se através da morte das formas que permite o nascimento de outras, continuamente.

Já pensou no alcance deste processo?

É um processo universal, está sempre a decorrer. O bebé transforma-se em criança, a criança em adolescente e este em jovem adulto, adulto, senior e finalmente em idoso, antes de mudar de forma outra vez. O primeiro olhar em primeiro beijo, namoro, casamento, divórcio ou felizes para sempre, desde que dispostos a morrer permanentemente para as velhas versões de si mesmos.

A semente transformando-se em rebento, caule, tronco, árvore, galho, ramo, folha, fruto e novamente em semente; a água mudando de forma em gelo, vapor, ou caudal de um rio... e todos os dias, milhões de células no corpo humano morrendo para dar lugar a outras novas e assim levar a vida adiante.

Na natureza”, dizia Lavoisier no séc. XVIII, “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Os mesmos elementos constituintes (átomos e moléculas) dão origem a diferentes formas, e é da sua reorganização permanente que novas formas nascem enquanto as anteriores se desagregam. Então na verdade o que “morre” são as formas concretas de que a vida se reveste provisoriamente para se manifestar, porque a Vida é o eterno processo de transformação que preside à ciclicidade das mortes e dos nascimentos  de novas formas.

Siddhartha Gautama, o Buda histórico, afirmou: “Nada é impermanente, no universo, a não ser o seu carácter de permanente mudança”. O seu Ensinamento é uma via de libertação do sofrimento, da tendência natural do Homem - ou da sua mente não-iluminada - a querer tornar permanente tudo aquilo de que se apega porque ama, gosta, ou precisa. Nesta perspectiva, a raíz do sofrimento é o apego (isto é, de querer tornar permanente) aquilo que está condenado a mudar, a transformar-se, e a morrer.

Este é o primeiro vislumbre do que é o Dom da Transformação: reconhecer que todas as formas mudam e morrem para dar origem a outras, e que da sua mudança consiste o fluxo de que a vida é feita. E estas formas não são apenas formas físicas (coisas), mas também emocionais (sentimentos), mentais (ideias), relacionais (pessoas), espirituais (ideais), e decorrem através de todos os planos e dimensões da nossa encarnação.

Mas o que fazer com o impulso natural e saudável do ser humano para exercer o seu próprio poder, de influenciar o exterior, de transformar aquilo com que entra em contacto, exercer o seu poder de vontade, satisfazer os seus desejos, envolvendo-se profundamente com o que se passa fora de si para transformar, enriquecer ou explorar os recursos e os outros à sua volta?

O senso de ter controlo sobre alguma coisa – ou melhor, sobre muitas coisas - é vital para o ser humano.  Mas é um pouco vã, ou inútil, a pretensão de ter poder sobre as circunstâncias, o comportamento dos outros, e tudo aquilo que está para lá da epiderme, isto é, fora de nós. Sobre isso não existe controlo. Influência, talvez. Podemos tentar seduzir, intimidar, ou manipular. Mas controlo, em última análise, não temos. A vida segue o seu próprio fluxo mais além dos nossos desejos, necessidades, ideais, regras ou expectativas pessoais. E é por isto que é tão importante treinar o Dom da Transformação.

A ideia é que o único verdadeiro controlo que existe é o auto-controlo. O Dom da Transformação propõe-nos desviar o foco do exterior para o interior, dirigindo a nossa força, desejo e vontade para dentro, com o objectivo de descobrir que o verdadeiro poder é o poder de nos transformarmos perante um exterior que não controlamos; e que para nos deixarmos transformar por ele sem nos sentirmos perdidos ou destruídos no processo, a nossa identificação deve com o aspecto essencial, intocável e fundamental, da eternidade da vida por detrás das transitoriedade e efemeridade das formas.

Transformação torna-se auto-transformação, e Vida torna-se reciclagem permanente.

Assim como o universo recicla permanentemente as suas cascas, deve o homem reciclar também a sua relação com a matéria (plano físico), com os seus sentimentos (plano emocional), com as suas ideias (plano mental), e com os seus ideais (plano espiritual).

Ao nível físico, a reciclagem consiste em aprender a ver mais profundamente do que o corpo, não confundir forma com qualidade, vibração com aparência, consciência com aspecto. A matéria degrada e engana, embora nela se exalte também a vida; mas sofrer com o envelhecimento e a falência do corpo só se justifica pela ausência de vida interior. As rugas não são contratempos nem os cabelos brancos, se existe um espírito que ganhou sabedoria com a experiência e está em paz com as pequenas e grandes mortes que viveu - em vez de ficar preso à recusa das formas que se foram, e vão, degradando mais lenta ou rapidamente.

Ao nível emocional, a reciclagem consiste em regenerar os desejos, apegos, padrões emocionais ou traumas que impeçam de viver em amor (em vez de medo) e expressar sentimentos autenticamente nobres, altruísticos e elevados.

Ao nível mental, a reciclagem exige aceitar mudar a maneira de pensar e especialmente aquelas que são as ideias fixas de estimação, e que mais propriamente deveriam ser chamadas de obsessão, rigidez, ou inflexibilidade que bloqueia qualquer possibilidade de mudar a própria vida, porque a vida é criada na mente.

Ao nível espiritual, permitir a morte das cascas, transformarmo-nos com as circunstâncias, deixar que sejam criados os espaços vazios necessários. Aceitar as perdas necessárias e os lutos por fases ultrapassadas, relações terminadas, validades vencidas, colegas, amigos, sonhos antigos.

E recordar que como o universo abomina espaços vazios, ao permitir a morte das formas e o vazio resultante, estou  a permitir que mais à frente esse vazio venha a ser preenchido com novas formas, mas de uma nova qualidade – desde que o espaço vazio seja atentido e nutrido correctamente.

Esse é o Dom da Transformação.

“Nem sempre posso controlar o que se passa fora. Mas posso sempre controlar o que se passa dentro.” Wayne Dyer


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